Sem barganhas

Mario Malta Neto

Gestão de Recursos / Temas / Reportagem / Especial Entrevistas - Private Equity / 1 de agosto de 2012
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De um ano para cá, a cautela em relação ao Brasil tem prevalecido no escritório de São Paulo da Advent International. Embora as perspectivas para o País sejam positivas, os ativos de companhias de grande porte e de alguns setores, como o de infraestrutura, estão com preços pouco convidativos, avalia Mario Malta Neto, diretor da Advent International. A última captação de recursos feita pela gestora para um fundo dedicado à América Latina ocorreu em 2010. O valor levantado foi recorde: US$ 1,65 bilhão. “Até agora, os aportes feitos pelo fundo em empresas brasileiras representam 50% dos investimentos. Nos fundos Lapef I e II, os primeiros voltados para a América Latina, a participação do Brasil ficou em cerca de 20%”, compara Malta Neto.

CAPITAL ABERTO — A Advent tem um escritório no País há quinze anos. Como vocês avaliam a evolução do mercado de private equity brasileiro nesse período?
MARIO MALTA NETO — Dá para dividir esse período em três fases distintas. A primeira, que durou de 1996 a 1997 até meados de 2001, foi de euforia. Muitos fundos estrangeiros vieram para cá e trouxeram grandes volumes de capital. Essa fase durou pouco por conta da desvalorização cambial de 1999. Mesmo tendo feito bons investimentos, os fundos tinham que dar retorno em dólar, o que ficou mais difícil. Também houve o estouro da bolha da internet e, em 2001, toda a instabilidade política em função do crescimento do Lula, então candidato à Presidência, nas pesquisas. Isso tudo fez com que a indústria de private equity reduzisse em tamanho. De 2001 até meados de 2005, o mercado ficou parado. Contavam-se nos dedos de uma mão os fundos ativos. Houve baixa captação de recursos e poucos investimentos. Depois, entramos na terceira fase, na qual ainda estamos, com a reabertura do mercado de capitais e a volta das ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). Hoje, também é possível os fundos se alavancarem por meio de dívida para melhorar os resultados das empresas, o que só se torna viável num ambiente de juros baixos. Além disso, fundos estrangeiros estão abrindo escritórios no Brasil. Atualmente, a indústria é bem mais competitiva do que no fim dos anos 90.

De que forma o aumento da competição modifica o mercado?
Cresce o número de oportunidades que chegam por meio de bancos de investimento. Essas instituições são contratadas pelas empresas para buscar a melhor oferta entre os gestores. Os negócios proprietários (aqueles no qual a gestora contata diretamente o empreendedor, sem passar por intermediários) acabam sendo um diferencial dos fundos estabelecidos há mais tempo no mercado, que têm uma marca conhecida e uma ampla rede de relacionamentos. De fato, houve um aumento da competição, mas ele não é alarmante. Os fundos têm perfis diferentes, alguns compram participações majoritárias; outros, minoritárias. É difícil achar vários fundos olhando para a mesma transação.

“Dentre os países da América Latina, é mais natural ocorrer a venda dos investimentos em bolsa no Brasil.”

É possível que se repita o movimento de rápida entrada e saída de gestores estrangeiros, da mesma forma que ocorreu no início da década passada?
Não acredito. O investidor de private equity busca retorno de três formas: pelo crescimento das empresas; pela arbitragem de múltiplos; e pela alavancagem por meio de dívida. Esta última ainda é pouco usada no Brasil, porque o custo da dívida ainda é alto, mesmo com a queda dos juros. Já a arbitragem ficou mais difícil porque o nosso mercado está maduro e os preços dos ativos subiram. Então, o que o Brasil oferece é uma alta taxa de crescimento, e ela é superior à de outros países. Enquanto nossas empresas continuarem entregando bons resultados, isso não deve mudar. Uma recessão no exterior pode reduzir o fluxo de recursos para cá, mas o dinheiro de private equity sempre será direcionado para os países que apresentarem as maiores taxas de crescimento.

A Advent possui fundos dedicados à América Latina, ao Leste Europeu e também fundos globais. Como está o apetite pelos ativos latinos?
Muito grande. Fizemos nossa última captação de recursos para um fundo voltado à América Latina em 2010. O valor captado foi o maior de todos (o fundo Lapef V tem patrimônio de US$ 1,65 bilhão). Dentre os países da América Latina, o Brasil foi o que recebeu o maior investimento da Advent ao longo desses 15 anos. Ele ocorreu através de um aporte para compra de participação no Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), em janeiro de 2011 (a Advent não revela o valor da transação).

Então vocês já devem estar pensando em levantar um novo fundo…

Por enquanto, não. Ainda estamos investindo por meio do Lapef V. Já fizemos bons negócios. O interessante é que, até agora, os aportes feitos em empresas brasileiras representam 50% do que já foi investido pelo Lapef V. Nos fundos Lapef I e II, os primeiros voltados para a América Latina, a participação do Brasil ficou em cerca de 20%.

O bom momento da nossa economia explica esse aumento na participação?
Sim, mas também as possibilidades de saída. Há um interesse grande de investidores estratégicos no Brasil. Outro ponto é que, dentre os países da América Latina, é mais natural ocorrer a venda dos investimentos em bolsa no Brasil. O nosso mercado de capitais é mais ativo. De todos os IPOs que a Advent participou na América Latina, seis foram no Brasil e um, no México.

Qual o interesse da Advent por ativos no restante da América Latina?
Na Argentina, a situação política não parece muito favorável a novos investimentos. O primeiro escritório da Advent na América Latina foi aberto na Argentina, em 1996. Fizemos bons investimentos lá em vinícolas, empresas de correios e de logística. Nosso escritório argentino também prospecta e investe em empresas uruguaias, como o Nuevo Banco Comercial e a financeira Pronto, que, depois, vendemos para o Scotiabank. Digamos que a Argentina tem seus altos e baixos.

E quanto a Colômbia e México?

Estamos bastante animados com a Colômbia, onde abrimos o nosso último escritório, em outubro de 2011. Lá, fizemos investimentos, por exemplo, na Biotoscana Farma. A Colômbia tem um ambiente político estável e a economia vem crescendo. Além disso, a competição por negócios é menor. No México, temos uma estrutura grande, parecida com a brasileira. Nossos times de investimentos em cada um desses países é de 14 pessoas. Mas, como a economia mexicana é fortemente correlacionada com a norte-americana, no momento vem crescendo a taxas menores.

Como são analisados e conduzidos os investimentos da Advent?
Nosso time de investimentos faz o trabalho de prospecção de negócios, negociação com os empreendedores, due diligence e acompanhamento da empresa até a completa saída. Não dividimos as equipes entre investimentos e acompanhamento. Consideramos que é importante que os projetos tenham profissionais que sejam como os donos do negócio dentro da Advent. Além do mais, quem fez a análise conhece bem a empresa, sabe dos seus problemas, das áreas que precisam melhorar, e já ganhou a confiança dos administradores. Esse profissional é quem deve assegurar que o plano será executado conforme planejado.

“Estamos otimistas em relação ao País, mas um tanto cautelosos, porque a competição por negócios é crescente”

Como é feita a prospecção dos negócios?
Por meio de bancos de investimento, quando eles nos contatam a pedido das empresas que buscam recursos; pela prospecção direta; e por uma rede de intermediários como advogados e consultores. Essas duas últimas são as formas mais eficientes para nós, pois se traduzem em negócios proprietários, exclusivos.

Por que o negócio proprietário é algo desejável?
Porque nele conseguimos conduzir os processos de forma mais organizada e trabalhamos com o nosso próprio cronograma.

Quais investimentos vocês consideram mais bem-sucedidos no Brasil?
A Cetip certamente foi um deles, pois houve uma geração de valor muito grande para a companhia. A empresa funcionava praticamente como um back office dos grandes bancos, e nós contribuímos para criar uma cultura de inovação e trazer um time de gestores de primeira linha. A geração de valor também ocorreu com parcerias internacionais — por exemplo, com a Deutsche Börse. A empresa fez o IPO apenas dois anos e meio após o nosso investimento. Outro caso foi o da Kroton, na qual ainda detemos participação. A companhia cresceu por meio de aquisições de empresas que a complementam, seja quanto à situação geográfica (caso da Luni Educacional) ou ao modelo de negócio (Unopar).

Nos setores prioritários para a Advent, o preço dos ativos está elevado?
Continuamos olhando os setores de serviços e saúde com bastante atenção, mas em infraestrutura, setor em que temos interesse, os preços estão altos. Participamos do leilão dos aeroportos brasileiros ocorrido neste ano, mas nossa proposta ficou numa faixa intermediária de valor.

A queda na taxa de juros irá tornar mais comum a estratégia de alavancagem de recursos pelos gestores de private equity?
Sim, mas essa possibilidade ainda é limitada pela inexistência de crédito de longo prazo no Brasil, com exceção do concedido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A utilização dessa estratégia depende do perfil de cada fundo e das companhias, e ela pode ocorrer em níveis saudáveis. As empresas que geram muito caixa, por exemplo, suportam um nível de dívida maior do que as demais.

Quais são as perspectivas para o private equity no Brasil?
Estamos otimistas em relação ao mercado, mas um tanto cautelosos, porque a competição por negócios é crescente. Além disso, ao mesmo tempo em que os IPOs são uma boa porta de saída para os fundos, eles também são nossos concorrentes indiretos. Com a possibilidade de fazer uma oferta de ações, o empresário cria a expectativa de vender parte do capital da empresa por preços mais elevados.



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