Repensando o capitalismo

Como ampliar os objetivos empresariais em benefício do bem-estar social

Bimestral/Relações com Investidores/Prateleira/Temas/Edição 77 / 1 de janeiro de 2010
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É possível expandir a lógica capitalista para além de objetivos puramente econômicos na alocação dos recursos da sociedade? Esse questionamento existe desde que o conceito de capitalismo foi criado. No entanto, quando o homem mais rico do mundo e um dos representantes mais icônicos desse sistema desafia sua essência em um discurso para o mundo inteiro, o eco reverbera com grande intensidade. Foi nas palavras de Bill Gates — o magnata criador da Microsoft, no Fórum Econômico Mundial em Davos, em 2008 — que o jornalista e comentarista político Michael Kinsley se inspirou para escrever Capitalismo Criativo.

Kinsley contou com a colaboração de personalidades renomadas para criar um fórum de discussão e transformá-lo em livro. Ganhadores de Prêmios Nobel, jornalistas, intelectuais e políticos foram convidados a comentar a provocação feita por Gates em seu discurso. Em resumo, o criador da Microsoft sugere que a noção que temos de capitalismo é incompleta: além de maximizar lucros, as companhias deveriam buscar maneiras “criativas” de atender às demandas sociais de modo a diminuir as desigualdades. Esse é o estopim para que os colaboradores da obra façam suas intervenções, criando um interessante pingue-pongue de ideias.

A ala dos economistas da escola de Chicago argumenta que deve haver uma distinção entre a função das empresas (criar riqueza) e a dos governos (distribuir riqueza), pois a confusão de objetivos leva a ineficiências e desperdícios. Já os “capitalistas sociais” propõem uma reforma das metas das companhias, em razão da capacidade das corporações de inovar e mobilizar a sociedade.

Naturalmente, ambos questionam se Gates, ao falar de capitalismo criativo, não estaria se referindo a uma “responsabilidade social corporativa 2.0”, em que as empresas transformam esse modismo em processos internos com prestação de contas à sociedade. Essa iniciativa, porém, não ocorre por mero altruísmo. Em um mundo onde as pessoas, cada vez mais, buscam dar significado às suas vidas, a prática de boa cidadania corporativa pode levar à atração de talentos ou à preferência dos consumidores, conduzindo ao Santo Graal da vantagem competitiva.

O que se percebe nos 76 artigos que compõem a obra é que a questão “podemos melhorar o sistema capitalista a partir da amplificação dos objetivos empresariais?” tem vários matizes de cinza. Não é “preto no branco”. Somos facilmente levados à reflexão sobre as motivações individuais e coletivas para fazer o bem. No entanto, algumas conclusões são inescapáveis. O conceito proposto por Gates não pode ser incorporado ao capitalismo como parte integral de sua filosofia.

É muito arriscado para empresas em mercados de intensa competição (por exemplo, aviação) diminuir seu foco no resultado econômico. Elas podem, simplesmente, desaparecer. Nesse cenário, a responsabilidade social corporativa, ou sua versão turbinada, é um luxo acessível apenas para companhias com lucro econômico elevado. Essa conclusão nos leva a um raciocínio quase circular: e se Gates tivesse pensado assim no início da Microsoft? Será que sua companhia chegaria a dominar o mundo dos aplicativos para computadores pessoais como acontece hoje?

Pessoalmente, acredito que o sistema capitalista cria desigualdades, e pode, sim, melhorar. Logo, reflexões sobre como fazê-lo são sempre bem-vindas. Mas não acho que uma reforma mais ampla nos conceitos seja necessária. Parafraseando um ditado em inglês, “se não está quebrado, não conserte”.


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