Guidance abandonado

Incertezas deixadas pela crise internacional enfraquecem a divulgação de projeções

Relações com Investidores/Reportagem/Edição 116 / 1 de abril de 2013
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Na primeira década do século, fazia sentido. A prática de divulgar projeções de resultados a analistas e investidores, conhecida como guidance, permitia atualizar expectativas e evitar frustrações quando os balanços vinham a público. Eram outros tempos. O crescimento médio mundial alcançava 4%, e cumprir as metas estipuladas não parecia improvável. Em 2008, a crise financeira internacional mudou esse cenário. Uma enxurrada de incertezas deixou turvas as visões sobre o futuro das companhias, e o guidance ganhou um sabor duvidoso nas receitas das melhores práticas de relações com investidores. No mundo e também no Brasil, o resultado foi o abandono do hábito de divulgar projeções por um número significativo de empresas.

Entre 2008 e 2009, nos Estados Unidos, 16% do total de companhias listadas no índice S&P 500 desistiu de publicar o guidance, de acordo com dados da consultoria Thomson Reuters — dentre elas, multinacionais como McDonalds, Coca-Cola e Unilever. O índice contava, então, com 179 companhias listadas. No Brasil, não há pesquisa atual a respeito, mas a CAPITAL ABERTO buscou medir o interesse pelo guidance avaliando o comportamento de 20 empresas que adotavam a prática antes da crise. Nessa amostra, identificamos que seis delas — Marfrig, BR Brokers, PDG, Sofisa, Rodobens e Helbor — deixaram de divulgar qualquer tipo de guidance nos últimos quatro anos.

As dúvidas das companhias sobre seu próprio futuro foram responsáveis por parte dessas decisões. “Os fatores exógenos que potencialmente influenciam o efetivo cumprimento [do guidance] podem induzir o mercado a erro”, afirmou a PDG, em resposta ao questionamento da CAPITAL ABERTO. Os aspectos imponderáveis também explicam a posição da BR Brookers: “A empresa tem uma grande alavancagem operacional, o que significa que desvios na quantidade de vendas contratadas podem afetar de forma significativa, tanto para baixo como para cima, o lucro líquido”, informou a companhia em nota. Em 2010, diante da alta volatilidade do câmbio no ano anterior, a Marfrig também abortou a prática. Procurado, o Sofisa não atendeu ao pedido de esclarecimentos.

QUEBRANDO O CICLO — Além de esfumaçar as projeções, a crise financeira teve outro efeito que arrefeceu o interesse pelo guidance: a exposição dos riscos gerados por visões carregadas de expectativas de curto prazo. Pouco antes de esse temor emergir, ainda em 2006, o Business Roundtable Institute for Corporate Ethics e o Center of Financial Market Integrity organizaram um simpósio com o objetivo de discutir a política de curto prazo das empresas e de invertê-la. A discussão foi a base para a produção do relatório “Quebrando o Ciclo do Curto Prazo” (“Breaking the Short-Term Cycle”), cuja conclusão foi a de que as práticas visando a horizontes curtos de tempo geram danos como a redução da eficiência dos mercados, a diminuição do retorno futuro dos investimentos e o enfraquecimento das práticas de governança. Em relação ao guidance especificamente, o relatório recomendava o fim da divulgação trimestral de projeções e a incorporação, no guidance anual, das políticas de longo prazo da companhia, como investimentos futuros, empréstimos e estratégias de crescimento.

Os efeitos colaterais do guidance foram, junto com as incertezas econômicas, o motivo para a Marfrig suspender a divulgação de projeções: “Há a percepção de que guidances tendem a direcionar o foco dos executivos da empresa para obtenção de resultados de curto prazo”, declarou o frigorífico. Na ocasião em que comunicaram o fim da prática, as incorporadoras Rodobens e Helbor apresentaram argumentos semelhantes: a pressão pelo cumprimento das metas estipuladas e a incapacidade de realizá-las num momento de crise econômica.

No ensaio intitulado Uma questão fundamental de governança corporativa que nós encaramos: as empresas podem focar o longo prazo sem que seus acionistas votantes pensem no longo prazo? , o advogado e professor de direito das universidades de Harvard e Pensilvânia, nos Estados Unidos, Leo E. Strine, defende uma governança mais republicana — no caráter estrito do termo, ou seja, em benefício do interesse comum — e menos dirigida à forma democrática, na qual todas as questões são votadas diretamente pelos acionistas. Tal prática, segundo o professor, leva a decisões viciadas no curto prazo, que objetivam o retorno rápido do dinheiro investido em forma de lucro. O pesquisador conclui que, quando as empresas se tornam democracias diretas, toda ação passa a ser tema para uma assembleia de acionistas, o que direciona tempo e esforços para questões mais “políticas”, isto é, mais centradas em atender a determinados grupos de acionistas.

AINDA VIVO — As vozes em defesa do guidance, entretanto, não se extinguiram. Analistas e mesmo empresas de capital aberto que emitem essas orientações ponderam que sua publicação não exclui necessariamente a estratégia de longo prazo. “O guidance é importante para saber se a companhia está no rumo certo”, diz Monique Skrusny, sócia da MBS consultoria. Nos Estados Unidos, apesar da baixa nos anos recentes, o percentual de empresas praticantes permanece elevado: de acordo com o último relatório do National Investor Relations Institute (Niri) sobre o tema, publicado em setembro de 2012, 88% das 362 companhias pesquisadas adotavam algum tipo de guidance nessa data.

A prática continua presente entre todas as megacorporações (mega caps) estudadas pelo Niri. No segmento de small caps, mostra a pesquisa, o guidance pode favorecer o desempenho da ação, valorizando os papéis ou mitigando as perdas em cenários de crise. O estudo revelou também que as empresas adeptas do guidance tendem a manter seu valor de mercado equilibrado.

A Trisul, incorporadora e construtora, divulga projeções desde 2007 e não pretende parar. A companhia considera que a prática constitui uma importante ferramenta para manutenção da transparência e “um fator de desenvolvimento das práticas de governança corporativa”. Ela não vê a divulgação de projeções como um obstáculo às políticas de longo prazo. “Não nos prendemos exclusivamente ao cumprimento de guidance, apesar de reconhecermos sua importância”, observa Jorge Cury Neto, presidente da Trisul. Criar e manter uma relação de transparência com os investidores é também o objetivo da Cyrela, que põe o guidance em prática desde 2005, ano em que abriu o capital, conta o seu vice-presidente financeiro, José Florêncio.

Na opinião do presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), Luiz Fernando Rolla, confiança é a palavra-chave quando se trata de guidance. Por essa razão, enfatiza, deixar de divulgar as projeções é uma decisão tão delicada quanto a de iniciá-las: “Se, na primeira recessão, você deixa de apresentar os números, o investidor para de acreditar na sua estratégia”, adverte o presidente. Da coerência, portanto, não se deve abrir mão.


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