Pesquisar
Close this search box.
Regras de bolso
Vieses cognitivos podem tornar conselho mais parte do problema do que das soluções

Praticamente toda a literatura sobre governança corporativa aborda o tema como forma de promover maior alinhamento de interesses entre tomadores de decisão e acionistas. Em outras palavras, parte-se do pressuposto de que os gestores “sabem” quais são as melhores decisões de negócio a serem tomadas, mas precisam de um conjunto de mecanismos de incentivo ou controle (como o conselho de administração) para que não optem por outros rumos em função de seus interesses particulares. Dessa perspectiva, os conselhos serviriam basicamente para assegurar o alinhamento dos interesses de executivos e/ou acionistas controladores com os dos acionistas minoritários.

Entretanto, mesmo que as situações de conflito de interesses sejam resolvidas e/ou que os tomadores de decisão sejam absolutamente éticos, a boa governança possui outro valor potencial: assegura um processo decisório, com pesos e contrapesos, que diminui a chance de serem tomadas decisões erradas em função de vieses cognitivos de pessoas ou grupos específicos. Por viés cognitivo entende-se a tendência das pessoas de tomarem decisões sistematicamente equivocadas em função de suas características cognitivas. Trata-se de um fenômeno estudado na psicologia, que analisa como nossas “regras de bolso” ou heurísticas pessoais podem nos levar a fazer julgamentos incorretos.

Dentre os vieses cognitivos individuais, dois se destacam para a temática da governança: excesso de confiança e otimismo. Colocado de forma simples, as pessoas com excesso de confiança tendem a subestimar riscos (em função de uma maior “ilusão de controle” dos resultados de suas iniciativas); as otimistas, por sua vez, a superestimar as perspectivas de fluxo de caixa e os retornos futuros (o chamado efeito “melhor do que a média”). São vieses inter-relacionados e presentes em várias pessoas, em maior ou menor grau.

Uma das descobertas mais interessantes da psicologia aplicada ao mundo empresarial é a de que empreendedores e altos executivos de grandes companhias tendem a ser sistematicamente mais otimistas e/ou extremamente confiantes do que a média das pessoas. No caso dos empreendedores, trata-se de algo intuitivo, já que há uma percepção geral de que, para empreender, as pessoas têm de ser otimistas por definição, muitas vezes indo contra análises mais racionais. Em certas situações, esses vieses podem ter consequências positivas, como a entrada em mercados aparentemente não promissores. Mas também podem acarretar impactos negativos, como investimentos ou endividamento desmedidos.

Conselhos muito homogêneos em termos de idade, gênero e formação costumam ser vítimas do “groupthink”

Os pesquisadores John Graham e Campbell Harvey obtiveram, em 2001, uma das evidências pioneiras nesse campo. Eles entrevistaram 392 diretores financeiros (CFOs) no segundo trimestre de 1999, um pouco antes do estouro da bolha da internet. Mesmo com a fortíssima apreciação das ações nos trimestres anteriores e a iminência do estouro da bolha, cerca de 70% dos CFOs acreditavam à época que suas ações estavam substancialmente subavaliadas pelo mercado.

Ulrike Malmendier e Geoffrey Tate também realizaram outro estudo interessante em 2005. Ao analisar 477 companhias norte-americanas durante 15 anos, eles constataram que as empresas com CEOs caracterizados por maior excesso de confiança tendem a utilizar muito menos o mercado de capitais, por sempre acharem que os mercados de crédito e de ações não dão o devido valor aos seus papéis.

Outra pesquisa foi conduzida por Itzhak Ben-David, John Graham e Campbell Harvey, em 2007. Eles examinaram as respostas de 7 mil CFOs durante seis anos de aplicação de um questionário com perguntas sobre expectativas de retornos futuros das ações e descobriram que as empresas com CFOs caracterizados por maior excesso de confiança: 1) aplicam menores taxas de desconto em seus projetos de investimento; 2) investem mais, principalmente por meio de maior endividamento; 3) são menos propensas a distribuir dividendos; e 4) tendem a efetuar com maior frequência recompra de ações. No Brasil, um trabalho feito por mim e por Lucas Barros, em 2008, investigou o comportamento de 153 empresas brasileiras no período de cinco anos. Como resultado, observamos que a tendência das companhias dirigidas por empreendedores otimistas é apresentar níveis mais elevados de endividamento.

Em resumo, esses estudos demonstram que os vieses cognitivos dos principais executivos podem enviesar as decisões de investimento e financiamento das empresas, com potencial destruição de valor para os acionistas. Um sistema de governança adequado, com um conselho de administração ativo, independente e qualificado, propicia que profissionais não envolvidos emocionalmente com tais decisões façam questionamentos e melhorem o processo decisório na alta gestão.

Isto é, um bom conselho de administração pode não apenas promover maior alinhamento de interesses, como também diminuir a chance de que as decisões sejam tomadas devido a vieses cognitivos de indivíduos específicos. A questão, contudo, não é tão simples quanto parece, já que os próprios conselhos podem desenvolver seus vieses coletivos. E dois deles merecem destaque: o “groupthink” e o fenômeno das “cascatas sociais”. O groupthink é um tipo de pensamento vigente em grupos que buscam minimizar o conflito e alcançar consenso a qualquer custo, deixando de analisar criticamente ideias externas. De acordo com Irving Janis, psicólogo pioneiro no estudo do tema nos anos 70, “a busca por consenso, aprovação e solidariedade entre os membros pode levar o grupo a ignorar informações que contradizem a visão dominante, levando a decisões que apenas solidificam as posições iniciais do grupo. Quanto mais coeso o grupo e mais complexo o assunto para análise, mais provável será a existência de groupthink”. Como grupos altamente coesos são mais propensos ao problema, estudos recentes argumentam que conselhos muito homogêneos (em termos de idade, gênero e formação de seus membros) têm sido vítimas desse viés.

Já o fenômeno das “cascatas sociais” ocorre quando os membros do grupo possuem pouca informação prévia para tomada de decisão e deixam-se levar pelas opiniões de alguns integrantes, geralmente mais bem informados e com interesse específico no assunto em questão. Como resultado, as ações incipientes de certos indivíduos resultam em um efeito cascata, em que os outros acabam repetindo as ações do líder. Perde-se, então, o benefício da “sabedoria coletiva”, essência da busca por decisões colegiadas, já que a discussão passa a conter apenas a opinião de determinadas pessoas, e não a soma dos pareceres individuais.

No contexto dos conselhos, é possível que conselheiros pouco preparados para as reuniões (sem tempo para leitura e aprofundamento dos temas da pauta) sejam induzidos a aceitar as opiniões das pessoas que se manifestaram inicialmente sobre a matéria em questão, geralmente o CEO ou o presidente do conselho. O fenômeno não decorre de má-fé, mas simplesmente da tendência dos membros do grupo de trabalho de não arriscarem sua reputação confrontando o ponto de vista de outros sem profundo entendimento das matérias debatidas. Estudos nesse sentido vêm argumentando que conselhos com membros sobrecarregados (ocupando diversas posições em outras companhias) são mais propensos ao fenômeno das cascatas sociais.

Caso esses vieses coletivos se manifestem, os conselhos podem simplesmente passar a ser mais parte do problema do que das soluções de governança, amplificando os vieses cognitivos individuais dos executivos. Ou seja, empreendedores dominantes no papel de CEOs, em conselhos homogêneos e com pouca dedicação de seus membros, são um prato cheio para decisões enviesadas e destruição de valor no longo prazo.


Para continuar lendo, cadastre-se!
E ganhe acesso gratuito
a 3 conteúdos mensalmente.


Ou assine a partir de R$ 34,40/mês!
Você terá acesso permanente
e ilimitado ao portal, além de descontos
especiais em cursos e webinars.


Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o limite de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês.

Faça agora uma assinatura e tenha acesso ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais


Ja é assinante? Clique aqui

mais
conteúdos

APROVEITE!

Adquira a Assinatura Superior por apenas R$ 0,90 no primeiro mês e tenha acesso ilimitado aos conteúdos no portal e no App.

Use o cupom 90centavos no carrinho.

A partir do 2º mês a parcela será de R$ 48,00.
Você pode cancelar a sua assinatura a qualquer momento.