Regente da harmonia

Lélio Lauretti

Governança Corporativa/Retrato/Temas/Edição 107 / 1 de julho de 2012
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Lélio Lauretti não é dado a discutir teorias da ética. Apesar das muitas leituras, da formação em economia, da especialização na Harvard Business School, de ministrar cursos de governança corporativa e ética empresarial na Universidade de São Paulo (USP) e ser um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ele prefere debater casos práticos de aplicação da ética a se perder em teorias. Talvez porque foi assim, na prática, que teve suas primeiras lições do assunto, quando via sua mãe Luiza, depois da longa jornada para cuidar sozinha dos sete filhos, preparar queijadinhas especialmente para filantropia. Apetitosas, só podiam ser degustadas por quem pagasse por elas, incluindo a filharada: “A contabilidade era separada”, explica ele.

Essas lembranças têm povoado a mente afiada de Lauretti, que, próximo de completar 85 anos, em outubro, escreve um novo livro com o título A Ética Além dos Códigos. Isso porque ele resolveu contar, no prefácio, algumas das histórias de dona Santa, como era conhecida a mãe na pequena Casa Branca, um apelido atribuído ao fato de ela ter iniciado o asilo de inválidos da cidade, no interior paulista. Mas a característica que hoje mais impressiona o filho diante das recordações maternas não é a de mulher batalhadora ou generosa, mas a de alguém que jamais reclamava da vida, apesar de precisar produzir com as próprias mãos as roupas e o pão da família.

“Ela dizia que o importante é estar bem, e não possuir coisas”, comenta Lauretti, que perdeu o pai aos três anos de idade, logo após o crash de 1929. “O seu discurso marcou tanto a minha vida que nunca me contaminei com uma cultura de sucesso. Se você tem a sua família, a sua casa e não falta nada, o que quer mais?”, pergunta o professor e escritor, considerado a principal referência quando o assunto é relatório anual e código de conduta.

Caçula e único sobrevivente dos filhos de dona Santa — o último irmão morreu no ano passado, aos 101 anos —, Lauretti foge da nostalgia comum aos mais velhos e se entusiasma com a evolução da sociedade em relação à figura humana, ao bem–estar e à coletividade. “Minha experiência me permite me julgar testemunha da mais profunda transformação cultural em dez mil anos”, afirma. A ética, define, é um estágio da evolução da nossa consciência em direção ao bem, e, com o mundo conectado, esse desenvolvimento só tende a acelerar. “Somos mais éticos do que Sócrates ou Platão, porque eles tinham escravos, e nós não.”

Os alunos da Fundação Instituto de Administração (FIA) e da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) ouvem atentos a lição. Ao final, assinalam nas fichas de avaliação que o desempenho do mestre foi ’excelente’ ou ’perfeito’. “As aulas são o meu termômetro da cuca”, brinca ele, classificando sua velhice como “botton up”, e não “top down”, ou seja, do tipo que se inicia pelos pés, e não pela cabeça. Na verdade, Lauretti esbanja saúde da cabeça aos pés: depois do almoço da Câmara de Arbitragem do Mercado na BM&FBovespa, no qual dispensou o medalhão de carne e se alimentou apenas com a salada, ele ainda faria alguns exercícios leves antes de voltar ao computador. Remédios? Não toma nenhum. “Não sei o que é dor de cabeça.”

As atividades profissionais são muitas. Além de integrar a Câmara, há oito anos, e dar aulas, é membro do Conselho de Supervisão do Mercado da BM&FBovespa, conselheiro honorário da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) e presta consultoria para empresas desenvolverem seus relatórios anuais e códigos de conduta. Lauretti coordenou o Prêmio Abrasca de Relatório Anual por dez anos e, apesar de ter passado o bastão (“não fico dono de lugar nenhum”), é convocado anualmente para proferir a palestra da cerimônia de premiação. Sua expertise no assunto é tanta que ele se rendeu às cobranças para fazer uma nova edição de seu livro Relatório Anual, que teve a última tiragem esgotada há dez anos. “Resolvi reescrever por completo, porque o relatório mudou muito com a entrada do tema da sustentabilidade.”

Como uma espécie de regente, Lauretti não deixa clientes nem alunos desafinarem nos quesitos ética e governança corporativa. Uma prática, pouca gente sabe, que remete aos seus tempos de maestro do coro. O economista que fez carreira no Banco do Brasil — e pediu demissão a dez anos da aposentadoria para abrir a consultoria que se tornaria corretora — sempre foi acompanhado pela música. Flautista na juventude, tocava junto com os irmãos depois do jantar, para deleite de dona Santa. Já em São Paulo, criou e regeu um coral por 18 anos na igreja presbiteriana da Vila Mariana.

“Até hoje a música exerce um papel fundamental em minha vida”, diz. Ele se emociona ao contar que foi chamado para ser um dos regentes do coral na festa do cinquentenário da igreja, embora estivesse afastado da atividade há anos. Ao som de As Últimas Sete Palavras de Cristo na Cruz, de Joseph Haydn, Lauretti lembrou de quando ajudou a construir, com as próprias mãos, o templo da igreja, que na época funcionava em uma casa alugada. “Fui assistente de pedreiro nos fins de semana”, recorda–se. Qualquer semelhança com a dedicação de dona Santa, seus pães assados e roupas costuradas, não é coincidência.




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Tags:  IBGC USP Lélio Lauretti Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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