Redes poderosas

Requisitados, conselheiros de administração independentes formam uma influente cadeia de relações entre as companhias

Governança Corporativa/Reportagem/Temas/Edição 61 / 1 de setembro de 2008
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Os conselheiros de administração independentes ganham cada vez mais destaque no cenário corporativo. Que o diga o trio independente da Agrenco, prestadora de serviço do setor agrícola que está no auge de um escândalo financeiro. Depois que os controladores da companhia foram presos pela Polícia Federal, acusados de fraudes e desvios de recursos, os conselheiros José Guimarães Monforte (sócio da Pragma Patrimônio), Cássio Casseb (ex-presidente do Banco do Brasil e do Pão de Açúcar) e James Wright (professor da Universidade de São Paulo — USP) tiveram de assumir a missão de tocar os negócios.

Antes de iniciar as intensas atividades à frente das negociações para a recuperação da Agrenco, o conselheiro Monforte — presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) até março deste ano e defensor das boas práticas no mercado de capitais — tomou outra iniciativa em nome da sua boa reputação no meio corporativo. O economista mandou uma carta para os presidentes dos conselhos das outras cinco companhias em que atua, dispondo-se a prestar esclarecimentos sobre o fato. Seu objetivo era deixar claro que ele desconhecia as irregularidades cometidas pelos controladores da Agrenco. Atualmente, Monforte ocupa assento nos conselhos da Natura, JHSF Participações, Droga Raia, Banco Tribanco e Vivo. “Sugeri incluir um item para explicações nas próximas reuniões”, conta. A resposta foi unânime: todos dispensaram esclarecimentos e prestaram apoio ao conselheiro.

A iniciativa de Monforte não foi um mero protocolo. As informações discutidas em reuniões de conselhos são poderosas. “Alguns conselhos funcionam praticamente como fóruns empresariais, cujos debates têm grande repercussão no meio corporativo. As informações seguem em efeito cascata”, afirma o professor Wesley Mendes, do Mackenzie. Doutor em finanças pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, Mendes liderou uma pesquisa sobre redes sociais nos conselhos de administração que reuniu pesquisadores da FEA, do Mackenzie e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O estudo aborda o relacionamento entre os 615 profissionais que formavam os conselhos de administração das 90 companhias listadas no Novo Mercado da Bovespa em 2007. Esse é um aspecto da governança corporativa amplamente discutido no mercado internacional e que ganhou até nome próprio no meio acadêmico: board interlocking. Ao adquirir prestígio e espaço nas corporações, a figura do conselheiro independente desperta a atenção para a influente rede de contatos que se forma ao seu redor.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS — Para os que estudam o tema não interessa exatamente o número de conselhos em que um determinado profissional atua, mas sim qual o tamanho da sua teia no meio corporativo, a partir do assento nos conselhos de administração. Monforte, por exemplo, aprende sobre gestão de tecnologia em conversas com o presidente da Promon, Luiz Ernesto Gemignani, durante os seus encontros no conselho da Natura, em que os dois atuam como independentes. Essas informações podem contribuir para as discussões de Monforte no conselho da JHSF Participações, que não tem contato direto com Gemignani. Ou seja, os conselheiros criam elos entre as empresas e trocam informações que podem ter grande influência sobre essas corporações.

O estudo aponta que a conselheira independente Ana Dolores Moura Carneiro de Novaes, de 46 anos, tem a maior rede de contato entre os conselheiros de administração que atuam nas companhias do Novo Mercado. A economista e sócia da Galanto Consultoria é membro do board da Companhia de Concessões Rodoviárias, da Datasul e da CPFL Energia, além de consultora do comitê de auditoria da Companhia Siderúrgica Nacional. Embora sejam somente quatro conselhos — outros profissionais acumulam bem mais do que isso — Ana Novaes garante uma rede de contatos diretos e indiretos com 34 conselheiros de diversos setores empresariais, por meio do board interlocking. “Ela tem relação direta com outros conselheiros que também são bastante atuantes no mercado. Por isso, pode trocar experiências sobre várias companhias”, explica Mendes, autor da pesquisa.

Na Datasul, por exemplo, Ana Novaes é colega de Fernando Mitri, que também é conselheiro da Positivo Informática. Somente nesta companhia, ela tem contato com outros três conselheiros independentes, que fazem uma ponte com outras cinco empresas. Assim, ela vai formando a sua rede em efeito cascata. O mesmo ocorre com o ex-presidente da Embraer, Maurício Botelho, que ocupa a presidência do conselho da fabricante brasileira de aeronaves e da Perdigão. Botelho divide a posição de liderança do board interlocking brasileiro com Ana Novaes.
O estudo mostra que, para montar uma grande rede entre os conselhos de administração, não basta ocupar cargos em várias empresas. “Algumas empresas ficam bastante isoladas e não acrescentam contatos”, explica o professor do Mackenzie. O economista Mailson da Nóbrega, por exemplo, é um dos profissionais mais cotados do País. Acumula cargos em sete empresas, mas nem por isso tem uma articulação de muito destaque — seus contatos estão limitados a outros 22 conselheiros.

CORPORAÇÕES INTERLIGADAS — A posição das empresas também foi tema do estudo, e a Medial Saúde apareceu como a que tem o maior número de ligações empresariais por meio de seu conselho. Por exemplo, o ex-ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, representa a ligação da companhia com a incorporadora imobiliária Rodobens, em que também é conselheiro. Ele também faz uma ponte entre a Medial e a Positivo Informática. Nesse caso, não pelo fato de compartilhar conselhos, mas porque tem colegas de outros boards que estão presentes na Positivo. É um efeito multiplicador. “Temos 50% do capital no mercado e precisamos montar um conselho bem diversificado para representar essa composição. As contribuições de várias áreas nas discussões do conselho são bastante positivas”, afirma Vitor Fagá, diretor de Relações com Investidores (RI) da Medial.

Ainda é difícil dimensionar como essa rede de contatos efetivamente agrega valor ou se, ao contrário, pode prejudicar a companhia. Mas a pesquisa traz alguns indícios bem positivos. “Já identificamos uma relação entre conselhos mais diversificados e bom desempenho”, afirma o professor Mendes, autor do estudo. Do grupo das 20 companhias com maior rentabilidade sobre ativos em 2007, nove delas coincidem com as 20 mais bem relacionadas no mercado. Na outra ponta, entre as 20 companhias menos rentáveis, 16 integram o grupo das articulações mais reduzidas no contexto do Novo Mercado.

ORKUT DE CONSELHEIROS — Os relacionamentos entre esses profissionais já renderam até sites especializados na internet. As teias criadas pelo fenômeno do board interlocking podem ser visualizadas em sites internacionais como o www.marketvisual.com. Basta clicar no nome do conselheiro para visualizar a sua rede. Não só com companhias, mas também em órgãos públicos, no meio acadêmico e no social. Lá podem ser encontrados diversos conselheiros brasileiros.

Os mapas completos com as redes dos conselheiros custam cerca de US$ 10, mas gratuitamente é possível conhecer uma rede com cerca de 20 contatos diretos e indiretos. O site americano www.theyrule.net também trata do tema, mas destaca principalmente os conselheiros que atuam em várias empresas simultaneamente. Neste, os nomes brasileiros ainda são raros.

IBGC prepara certificação para conselheiros

Sexo: feminino. Idade: 46 anos. Experiência: não consta passagem por cargos políticos nem públicos, tampouco ocupou o comando de grandes companhias. Pois é, pode parecer estranho, mas esse é o perfil de Ana Novaes, a conselheira que atualmente tem a maior rede de articulação entre as companhias listadas no Novo Mercado da Bovespa. A economista tem uma extensa formação acadêmica. É doutora em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Teve uma carreira de destaque no mercado financeiro, com passagem pelo lendário banco Garantia e pelo Pictet Modal Asset.

Ana Novaes não tem nada a ver com o tradicional perfil de conselheiro. Até pouco tempo atrás, esse cargo era reduto dos figurões mais antigos do cenário econômico ou empresarial. “O perfil do conselheiro diversificou-se bastante em função das novas práticas de governança corporativa. Agora é fundamental ter conhecimento e experiência para agregar valor nas discussões das companhias”, diz João Verner Juenemann, membro do conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

A avalanche de abertura de capital das companhias nos últimos anos provocou uma disputa por conselheiros independentes. Segundo as regras do Novo Mercado, segmento da Bovespa que recebeu a maior parte das novas empresas, é preciso ter 20% do conselho formado por independentes. Entre 2006 e 2007, foram criadas 288 vagas. A nova leva de conselheiros reduziu a idade média desses profissionais para aproximadamente 50 anos. Mas a ala feminina continua sendo pequena. “Apesar disso, nunca percebi distinção pelo fato de ser mulher”, diz Ana Novaes. “Pelo contrário. Às vezes, por ser minoria, consigo ser mais ouvida em uma reunião.”

Com o crescimento e a profissionalização dos conselheiros, a partir do ano que vem o IBGC vai lançar um certificado para o exercício da atividade. Além dos cursos de capacitação, os profissionais terão de fazer uma prova atestando os conhecimentos de governança, finanças e administração. (M.K.)


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