Quite com Deus, sem reclamações

Alfredo Lamy Filho

Bimestral / Legislação e Regulamentação / Temas / Retrato / Edição 76 / 1 de dezembro de 2009
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Não, o grande momento da vida do jurista Alfredo Lamy Filho não foi a aprovação do anteprojeto da Lei das S.As., redigido a quatro mãos com o amigo e advogado José Luiz Bulhões Pedreira. Aos 90 anos, Lamy recorda emocionado o maior orgulho de sua carreira, admirada principalmente pela autoria de uma lei considerada moderna 33 anos após a sua promulgação. O ano era 1947, e ele discursava como paraninfo da primeira turma de direito para a qual lecionou como titular. Pouco mais velho que os formandos, era ainda um rapaz inseguro, que não compreendia bem como se tornara professor de direito comercial tão rapidamente, para em seguida ser escolhido paraninfo. Surpreso com o convite, decidiu submeter antes o discurso à apreciação do padre Leonel Franca, pensador e fundador da PUC-RJ, que fez então uma única sugestão: trocar a palavra “destino” por “providência” em determinado trecho. No fim, proclamou: “Parabéns. Você escreve muito bem.”

Receber aquele elogio do padre Franca “foi tudo”, diz Lamy. Era apenas o começo da consagração que ficaria marcada para sempre na memória. Como a formatura coincidia com o decreto que dera o título de Pontifícia à Universidade Católica, a festa foi transmitida pela rádio Mauá. O pai adoentado de Lamy pôde ouvir em casa não só o brilhante discurso do filho como as homenagens rendidas a ele. “Minha irmã me contou depois que foi a única vez em que viu nossa mãe chorar.”

Sexto filho depois de cinco meninas, Lamy já nascera coberto de expectativas — às quais estava disposto a corresponder. Mas não conseguiu fazer a vontade do pai comerciante que sonhava com um filho médico, diante da irrefreável vocação para a advocacia. Ainda em Campos de Goytacazes, no interior do Estado do Rio, onde morou até os 15 anos, o pequeno Alfredo arrumava subterfúgios para assistir a julgamentos e admirar as performances dos advogados. Foi em uma dessas ocasiões, em que advogado e promotor digladiavam-se diante de um caso em que o réu assassinara o vizinho, que resolveu: queria estudar direito.

O direito comercial, no qual surgiria a paixão pelas sociedades por ações, foi um acaso na carreira do precoce advogado, formado aos 21 anos e especializado na área administrativa. Diante da oportunidade de ser assistente do professor de direito comercial da PUC e sem acreditar que dominasse o suficiente a matéria, propôs aos alunos um modelo de aula alternativo, de discussão em torno de casos, como uma “conversa de porta de foro”. Sem perceber, antecipava o ensino do direito à base de “cases”, além de conquistar a admiração dos estudantes que lotavam suas apresentações. “Mas só inventei aquilo porque tinha receio de não saber dar uma aula convencional”, ressalta.

Bem verdade que Lamy não era apenas intuitivo: estudava obsessivamente sempre que um desafio se avizinhava. Foi assim que leu o primeiro livro de sua infância, Os Três Mosqueteiros, retirado da estante das irmãs. Ele não conseguiu entender quase nada — o livro estava escrito em francês. Voltou ao volume com um dicionário do lado e, em poucos dias, descobriria o prazer com a literatura, que o acompanhou por toda a vida. De quebra, tornou-se um autodidata no aprendizado de idiomas. Além do francês, precisou dominar o inglês, o italiano e o espanhol, por exemplo, para debruçar-se sobre os sistemas jurídicos europeu e norte-americano, na época em que elaborou a lei encomendada pelo então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen. “Nosso direito comercial vinha da Europa. Eu e Bulhões fizemos a fusão com os novos conceitos americanos.”

Os livros, espalhados hoje pela cobertura onde mora em Ipanema, acompanharam Lamy até na lua-de-mel, que coincidiu com o início da carreira acadêmica. “Quase perco a mulher”, brinca, referindo-se à mãe de seus seis filhos, com quem vive há 65 anos. Cecília, que depois da entrevista à CAPITAL ABERTO acompanhou o marido em um cafezinho com bolo, ri das tiradas de Lamy e confirma a sua história. “Ele sempre foi muito brincalhão”, conta. “Quando o conheci, as mulheres viviam atrás dele.”

A família esteve toda reunida na festa dos 90 anos do patriarca, completados em agosto e comemorados com uma missa na mesma PUC onde ele havia sido paraninfo 62 anos antes. Em vez dos pais, eram os filhos, netos e bisnetos que não escondiam o seu orgulho, proferido ao microfone em rodízio. As homenagens têm sido frequentes, apesar de estar praticamente aposentado desde que a vista começou a falhar, há cerca de um ano, impedindo-o de dar pareceres no escritório em que atua desde os tempos de professor. “Para manter seis filhos, dava aulas e advogava”, lembra. Recentemente, muitos amigos e admiradores foram também ao lançamento do livro Direito das Companhias, com dois volumes alentados com textos dele, de Bulhões, e outros encomendados a 16 advogados — incluindo o neto Marcelo Lamy Rego, único na família a seguir a paixão do avô. “O livro foi concebido por Bulhões, que depois soube que não teria mais de 90 dias de vida”, lamenta Lamy.

O maior peso da longevidade, diz ele, é perder a companhia de amigos e parentes. Lamy cita um conto de Jorge Luiz Borges, O Imortal, no qual aqueles que bebem do rio da imortalidade assumem a aparência de trogloditas, para justificar a má vontade com os planos para o seu centenário. “É a mortalidade, e não a imortalidade, que dá prazer ao homem. Outro dia escrevi para o meu filho: eu dou quitação a Deus. Não tenho reclamações.”

3×4Uma saudade– O advogado José Luiz Bulhões Pedreira, com quem cultivou o hábito de almoçar todas as terças-feiras, durante 30 anos. “Sinto muita falta dele. Era uma das pessoas mais inteligentes que conhecia. Conversávamos sobre a vida, sobre a existência, tínhamos liberdade para divergir e até brigar.”

Como se informa – Com os problemas de visão, tem lido apenas os títulos das matérias nos jornais que assina: O Globo, Jornal do Brasil e Valor Econômico. “Tento acompanhar o noticiário e tenho umas açõezinhas. O mercado melhorou muito, as minorias foram atendidas. O perigo agora está na chantagem que essas minorias podem fazer, mas não há como impedir isso.”

Rotina – Acorda cedo (“Minha mulher fica danada se não for dormir na mesma hora que ela”), faz ginástica, olha os jornais e vê televisão. “Com a dificuldade com a leitura, ando descobrindo programas interessantes na TV, mas a verdade é que tem muita bobagem.” Às vezes almoça no Jockey Club com amigos e viaja para a casa de Teresópolis, no fim de semana. “A família não frequenta mais a casa como antes, mas tenho que cuidar dela, mandei até pintar.”

Atividade física – Faz esteira, bicicleta e levantamento de pesos diariamente em uma academia improvisada em seu apartamento. Os esportes são rotina desde que nadava no rio Paraíba do Sul, em Campos de Goytacazes (RJ). “Nada como a euforia do bem-estar provocada pela ginástica, que força os músculos. Mesmo assim, encolhi, de 1,78 para 1,76 metro.”

Livro de cabeceira – Quando cursava o ginasial, leu o O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, e até hoje guarda com carinho uma edição de 1943. “É um livro para loucos, traz considerações que me chocaram na época. Comecei a ter visões e passei a assumir uma postura de questionar a vida.”

Relação com tecnologia – Antes de existir computador, tinha o hábito de escrever à mão e passar a limpo na máquina “para ficar bonitinho”. A Lei das S.As. foi redigida assim, mas ele não tem nostalgia. “É muito melhor poder inserir ideias no computador. Gosto da modernidade.” Se tem celular? Ele tira o dele do paletó e responde: “Você acha que alguém pode viver sem celular?”

Cuidados com a saúde – Fez uma cirurgia de ponte de safena há 20 anos e parou de fumar. Dorme bem e só lamenta a dificuldade para ler, apesar da profusão de lentes de aumento e equipamentos comprados pelos filhos. “Os oculistas dizem que isso acontece com quem é viciado em leitura, que gasta os olhos.”

Uma alegria – Reunir os filhos. “É um prazer e um orgulho conviver com eles, que são muito brincalhões. Todos são bem-sucedidos na vida e se afirmaram sozinhos, em campos totalmente diferentes, nos quais eu não tive a menor interferência.”

Hobbies – A literatura e os banhos de piscina na casa de Teresópolis. Costumava ir à praia em Ipanema, mas parou. “Estou muito branco, e a praia anda cheia.”

A motivação para a Lei das S.As. – “O objetivo era industrializar o Brasil. Deu certo, porque, 30 anos depois, há mais companhias abrindo o capital do que nunca. A grande empresa é necessária, para se ter empregados, financiar, exportar.”

O que mais o encanta na lei – A fusão entre as ideias antigas e as novas, a conciliação do passado com o futuro. “Muitos países, como a França, depois adotaram os conceitos da nossa legislação.”

Fazer 90 anos – “O tempo vai passando e você não sente. De repente, se apanha com 90 anos e pensa que perdeu a oportunidade de fazer coisas, porque com essa idade não se pode começar algo novo. Mas depois dá uma sensação de descanso: o que eu tinha que fazer já fiz.”

Outra profissão que gostaria de ter – “A mesma, mas queria ter escrito mais, ter deixado a minha mensagem além do direito, o meu depoimento pessoal.”



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Tags:  Legislação societária e regulamentação Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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