Quebrando a banca

Quem foram os “heróis” que ganharam dinheiro com o crash do mercado norte-americano de hipotecas residenciais

Bimestral/Relações com Investidores/Prateleira/Temas/Edição 82 / 1 de junho de 2010
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Examinando as cinzas da chamada crise do subprime, uma das primeiras coisas que chama a atenção é o tamanho do buraco negro que sugou alguns trilhões de dólares. Bancos, seguradoras e investidores institucionais pagaram boa parte da conta, que acabou sendo “socializada” para evitar um risco sistêmico ainda maior. Mas quem estava na outra ponta dessa transação? Alguém ganhou dinheiro apostando contra o “establishment” de Wall Street? Essa é a jornada pela qual nos leva The Big Short, de Michael Lewis, mesmo autor do clássico Liar’s Poker, de 1990.

O mercado norte-americano de hipotecas surgiu como uma inovação financeira para mitigar o risco dos investidores em empréstimos residenciais. De uma forma simplista, funciona assim: uma instituição financeira aprova um pedido de empréstimo para a compra de uma casa; em seguida, um banco de investimentos “empacota” vários desses financiamentos em um fundo e vende cotas a investidores; para atraí-los, contrata uma agência de rating que avalia os ativos do fundo e lhes dá uma nota, digamos AAA; como a taxa de juros média desse fundo é maior do que a de outros títulos com rating AAA no mercado, os investidores ficam satisfeitos. Aliás, todos ficam: o feliz proprietário da casa, a instituição financeira que iniciou a hipoteca e irá receber comissão pela originação dos créditos, e o banco de investimentos que ganha comissão pela estruturação do fundo.

O problema é que o apetite desenfreado dos investidores por esse produto — fator que manteve a oferta de crédito aquecida — provocou dois efeitos que se provariam fatais: a entrada no mercado de gente que não tinha renda para adquirir um imóvel e a forte elevação dos preços das residências devido à demanda aquecida. O desalinhamento de interesses era total. O nome do jogo era emprestar e livrar-se do risco através da máquina de hipotecas de Wall Street. Para se ter uma ideia desses excessos, veja o caso do plantador de morango da Califórnia com salário anual de US$ 14 mil que conseguiu um empréstimo para comprar uma casa de US$ 750 mil.

Com os principais atores do mercado financeiro empenhados em fazer dinheiro girando a máquina de imprimir hipotecas, é natural que os grandes vitoriosos dessa história tenham sido uma coleção de personagens improváveis. Com exceção do gestor de fundos de hedge John Paulson, os demais são ilustres desconhecidos. Dentre eles, está uma dupla de investidores que usava a garagem como escritório e transformou US$ 100 mil em US$ 80 milhões. Todos, no entanto, tinham algo em comum: conseguiram enxergar através da farsa e apostaram em sua derrocada.

Qualquer negócio em que você pode vender um produto sem se preocupar como ele vai funcionar no futuro tende a atrair gente desonesta. Esse risco moral (“moral hazard”) provoca um desalinhamento total de interesses entre as partes de um contrato. Enquanto a máquina de imprimir hipotecas estava funcionando furiosamente, havia pouco interesse em denunciar a fraude coletiva. Os CEOs dos bancos de investimento ganhavam seus bônus, mas não entendiam o que seus “traders” faziam no mercado dos títulos lastreados em hipotecas; as agências de rating eram contratadas pelos próprios “empacotadores” de hipotecas cujos fundos deveriam avaliar, num claro conflito de interesses; os investidores institucionais e as seguradoras confiavam em seus sistemas de gestão de risco e diziam que a probabilidade de um cisne negro acontecer era nula.

No âmago de tudo isso, reina um sistema de incentivos assimétrico, em que os ganhos individuais são elevadíssimos, sob a forma de bônus milionários. As perdas, contudo, puderam ser socializadas. O proverbial cara ou coroa do mercado financeiro nunca foi tão evidente: “se der cara, eu ganho; se der coroa, você perde”.


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