Pronto para competir

Luiz Cezar Fernandes

Gestão de Recursos/Retrato/Temas/Edição 70 / 1 de junho de 2009
Por 


A melhor forma de amansar um cavalo arisco é colocá-lo junto com uma ovelha. Luiz Cezar Fernandes refere-se à rotina na fazenda Marambaia, onde mora há 21 anos. Lá, tranquilo, chega a dormir dez horas de sono diárias. “Nunca tive insônia”, afirma, para emendar que também não faz atividades físicas nem tem hobbies. “Só as ovelhas”. Desde março, no entanto, Fernandes tem se afastado da criação de ovinos da raça Santa Inês, na região serrana fluminense, para despachar na avenida Faria Lima, em São Paulo, onde monta um banco de investimentos pela terceira vez. Pitando o cachimbo, não disfarça a má vontade de enfrentar a ponte aérea. “Só voltei porque ficou muito fácil ganhar dinheiro com esse mercado.”

Fernandes compara a oportunidade atual com as épocas em que fundou o Garantia, em 1971, e o Pactual, em 1983. “Sempre depois de uma crise”, observa. Nos anos 70, ao lado de Jorge Paulo Lehmann e Beto Sicupira, ele viu o Garantia se tornar um ícone, a reboque de uma profunda crise na bolsa. O Pactual, seu filho dileto, nasceu após o default da dívida externa brasileira. A nova chance foi gerada pelo movimento de venda de ativos por parte dos bancos estrangeiros, com dívidas e sem liquidez em outros mercados. Oportunidade essa que, por coincidência, foi vislumbrada também por André Esteves, seu antigo sócio no Pactual.

Dois meses depois de Luiz Cezar Fernandes adquirir a carta patente do alemão Dresdner Bank, possibilitando a sua volta ao mercado como banqueiro de investimentos, Esteves anunciou a recompra do controle do Pactual, vendido ao suíço UBS antes da crise internacional. “Vamos ser competidores”, afirma Fernandes. “Estamos com a mesma aposta. Óbvio que hoje eles são muito maiores do que nós. Mas é bom ter uma referência. Bom para os dois.”

Fernandes, no entanto, não se refere a Esteves como um rival. O tom é o mesmo reservado a antigos pupilos, começando por Marcel Telles, hoje um dos maiores acionistas individuais da cervejaria Anheuser-Busch InBev e seu trainee no início do Garantia. “Telles é um dos melhores gestores do mundo”, diz Fernandes, que levou o aprendiz para ser seu tradutor em um estágio de seis meses que fez no Goldman Sachs, nos Estados Unidos. “Adoro descobrir e treinar pessoas. Deve haver uns dez presidentes de grandes empresas que foram meus trainees.” No caso de Esteves, também não economiza elogios: “Ele negociou a recompra do Pactual de forma brilhante. Vendeu pelo equivalente a dez vezes o patrimônio líquido e comprou por 1,3 vezes.”

Ao longo da entrevista, o Pactual é citado por ele algumas vezes, mesmo quando o assunto é o novo banco, em fase final de aprovação pelo Banco Central e batizado de MTT. O “M” refere-se à fazenda Marambaia, os dois “Ts” vêm da Tetto Habitação, empresa de seu sócio Eugênio Holanda. “É um nome improvisado, como foi o do Pactual”, compara, lembrando das iniciais “P”, de Paulo Guedes, “A”, de André Esteves, e “C” de seu segundo nome. Teria Fernandes ressentimentos do processo que redundou na sua saída da sociedade, dez anos atrás? Ele garante que não.

Reconhece não ter sido competente em seus negócios particulares, especialmente em investimentos no mercado de suco de laranja, e diz que a saída encontrada para não comprometer o banco com suas dívidas pessoais foi a venda da participação. “Os sócios não tinham obrigação de se solidarizar”, afirma. Sobre o insucesso em negócios na “economia real”, em contraste com a excelência que o caracterizou no mercado financeiro, ele comenta: “Aprendi que não se deve trabalhar com o que não se domina, como era a indústria para mim. No mercado financeiro, são 46 anos de experiência.”

Aos 63 anos, Fernandes não esconde que aprendeu na prática tudo o que sabe sobre finanças. Parou de estudar ainda no ginásio, quando brigou com o pai e decidiu trabalhar. A dislexia — diagnosticada muito mais tarde, por conta da dificuldade com leituras e idiomas — também pode ter influenciado o seu caminho. A grande “escola”, na prática, foi o Bradesco, onde começou como contínuo. Aos 17 anos, já se destacava na instituição, a ponto de ser transferido de São Paulo “para consertar umas agências” no Rio. “Determinei que queria ser diretor de banco com 15 para 16 anos. Chegava a dormir no trabalho.” Quando indagado sobre os planos de fortuna que deviam acompanhar o sonho adolescente, Fernandes se espanta: “Nunca associei sucesso profissional à riqueza. Nem sabia quanto ganhava um diretor de banco naquela época. Apenas queria ser um deles.”

Mesmo sem chegar à diretoria do Bradesco, Fernandes iria conhecer a riqueza poucos anos depois, graças ao êxito do Garantia — de onde ele importou a cultura do arrojo e da meritocracia para fundar o Pactual. A derrocada nos negócios pessoais, nos anos 90, deixou-o menos rico, o que não parece incomodá-lo. O que o atrai agora, na nova empreitada, é a possibilidade de ser bem-sucedido. Muito bem-sucedido. “A crise está chegando às empresas, e o MTT vai dar cobertura a elas, reestruturando passivos, renegociando com credores. Vamos também criar produtos adequados para os family offices, que vão precisar de opções de investimentos com a queda dos juros.” Sem as ovelhas por perto para acalmar, Fernandes promete dar trabalho aos competidores.

Rotina– Às segundas-feiras, trabalha no Rio. De terça a sexta-feira, fica em São Paulo, no escritório do MTT Banco. No fim de semana, ruma para a fazenda Marambaia, em Petrópolis. “Aí é um alívio.”Temperamento – Não se considera ansioso. “Sou fatalista, acho que se as coisas tiverem que acontecer, vão acontecer.”

Tecnologia – Fica conectado sempre que pode pelo notebook, mas está resistindo ao blackberry. “Acho que vicia. As pessoas estão mal-educadas por causa dele. No meu caso, que sou um estrategista, penso que as interrupções, em geral sem motivo, vão mais incomodar do que ajudar.”

O que o tira do sério – Quando alguém não cumpre o que combinou. “Fico completamente irracional. Podemos renegociar a posição, mudar 180 graus, mas enquanto não se sentou para conversar, aquilo tem que ser cumprido, mesmo que seja um detalhe.” A outra irritação ele “tenta administrar dentro do possível”: “Não tenho paciência alguma com burrice.”

Conselho para quem está começando – Correr atrás dos sonhos e agarrar todas as oportunidades que levem a eles. “A garra é a chave de tudo.”

Livro de cabeceira – Não tem. “Leio muito pouco.”

Uma inspiração – Amador Aguiar, fundador do Bradesco. “Durante muitos anos, ele foi o meu símbolo. Depois, passei a admirar também o Jorge Paulo (Lehmann). E nunca mais apareceu ninguém que eu quisesse seguir.”

Horas de sono – No mínimo oito horas por noite. “Muitas vezes dez; dependendo da necessidade, até 12. Nunca tive insônia.”

Mania – Ficar horas maquinando operações complexas e abstratas. “Depois tenho muita dificuldade de transmitir minhas ideias para os outros.”

Cuidados com a saúde – Os “normais” para um diabético. Já adulto, foi diagnosticado como disléxico, o que explica sua dificuldade com livros, música e idiomas. “Superei a dislexia com memória visual e auditiva. Sempre andei com tradutor e isso não me impediu de ter clientes americanos, chineses, alemães. Dizem que os disléxicos são mais inteligentes.”

Esportes – Nunca fez atividades físicas. “Sou um sedentário convicto. O mais próximo de um esporte que eu já pratiquei foi bolinha de gude.”

Como se informa – Lê os principais jornais e revistas semanais. “O importante é ler nas entrelinhas, perceber o que está por trás da informação, aquilo que nem quem escreveu percebeu.”

Hobby – “Ovelha e ovelha.”

Maior orgulho – Ter construído o Pactual. “Fiquei triste com a venda para o UBS e feliz quando foi recomprado. É a volta da liberdade para quem trabalha lá.”

Sonho de consumo – “Não sou dado a grandes luxos. O que eu tenho hoje é mais do que suficiente. Depois de um determinado nível de riqueza, ter um ou dez não faz diferença.”

Viagem inesquecível – Para Bagdá, na década de 80, em plena guerra Irã-Iraque. “Tive a sensação de ter voltado 2 mil anos no tempo.” Todo ano ele reúne a família inteira, incluindo “filhos, netos, babá e papagaio” para uma viagem longa.

Dez anos atrás – Estava saindo da sociedade no Pactual para criar ovelhas.

Daqui a dez anos – “Pretendo estar brigando ombro a ombro com o Pactual, disputando pau a pau o mercado”.




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  Bancos Luiz Cezar Fernandes Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
O Indiana Jones dos mercados emergentes
Próxima matéria
Em busca do conselheiro efetivo



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
O Indiana Jones dos mercados emergentes
Robert sempre foi cativado por outras culturas e atraído por viagens. Em sua adolescência, viajou para a Turquia e, lentamente,...
{"cart_token":"","hash":"","cart_data":""}