Prontas para consolidar

Juntas, Bovespa e BM&F ganham musculatura para resistir a uma eventual oferta hostil, ganhar escala e avançar sobre outras bolsas da América Latina

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 56 / 1 de abril de 2008
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Operações de fusões e aquisições estão fervilhando no mercado brasileiro. Segundo dados da consultoria KPMG, nada menos do que 699 acordos desse tipo foram fechados somente no ano passado. Algumas transações são especialmente capazes de atrair os holofotes, seja pelos volumes financeiros divulgados, seja pela importância das empresas envolvidas. Se a negociação tiver o gabarito de movimentar cifras bilionárias e contemplar as duas principais bolsas da América Latina, então, ela tem ainda mais chances de se tornar um marco histórico.

Confirmando as expectativas geradas após a veiculação de fato relevante no dia 19 de fevereiro, quando informaram que estavam estudando a integração de suas atividades, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) oficializaram, em 26 de março, a proposta a seus acionistas de uma fusão que promete alterar radicalmente a forma com que o mercado de capitais brasileiro se posiciona perante o mundo.

A Nova Bolsa, nome provisório que será alterado nos próximos meses, atingirá o valor de mercado de aproximadamente US$ 20 bilhões, segundo dados da consultoria Economática. Será a segunda maior do continente americano, atrás apenas da Chicago Mercantile Exchange (CME), avaliada em cerca de US$ 26,8 bilhões. Com tamanha envergadura, enxergará a Bolsa de Nova York, do grupo Nyse Euronext, pelo espelho retrovisor. Calcula-se que o valor de mercado da lendária bolsa nova-iorquina alcance US$ 17 bilhões. Em escala global, a megabolsa brasileira promete arrematar o terceiro lugar, atrás da alemã Deutsche Borse, cotada a cerca de US$ 32 bilhões (no fechamento de 27 de março).

Como a Bovespa possui valor de mercado superior ao da BM&F, haverá um pagamento de R$ 1,24 bilhão, em dinheiro, para os acionistas da bolsa paulista. Feito esse balanceamento, os acionistas da Bovespa ficarão com 50% e os da BM&F com a outra metade. “Trata-se de uma integração entre iguais”, frisou Gilberto Mifano, diretor-geral da Bovespa, em coletiva à imprensa. O executivo esclareceu que não cabe uma discussão sobre tag along — direito de minoritários receberem uma oferta pública de aquisição de ações, caso haja alienação de controle —, pois nenhuma das empresas possui um grupo controlador. Os papéis da nova companhia serão negociados no Novo Mercado.

CONSOLIDAÇÃO MUNDIAL — A união das duas bolsas brasileiras insere-se num movimento global de consolidação. Mercados mais desenvolvidos vêm presenciando diversos casos de alianças que ultrapassam fronteiras entre países e até mesmo continentes. O próprio grupo Nyse Euronext é composto por bolsas de Bélgica, França, Inglaterra, Portugal, Holanda, além dos Estados Unidos. Essa tendência foi, e continua sendo, impulsionada pela conjunção de alguns fatores.

Estudo realizado pela consultoria Boston Consulting Group (BCG) indica que o surgimento de grandes grupos multinacionais altamente capitalizados, aliado a mudanças na regulamentação dos mercados, que relaxaram as regras de acesso, foi o primeiro passo para estimular as negociações entre as bolsas de valores. Depois, o desenvolvimento tecnológico, com modernos sistemas de negociação eletrônica, ajudou a tornar os processos mais ágeis e seguros. Por fim, produtos antes considerados de nicho foram, aos poucos, se tornando mais acessíveis aos investidores, como é o caso, por exemplo, dos derivativos.

A sombra de uma possível aquisição, hostil ou não, por parte de um conglomerado transnacional foi um dos fatores que motivaram o início das negociações entre as bolsas brasileiras. “O valor da nova instituição se torna muito alto para uma aquisição por parte de um grupo estrangeiro”, afirma Antonio Riera, sócio-diretor do BCG. Além de garantir a blindagem contra concorrentes, a união das atividades pode evitar uma possível competição entre ambas. Com negócios em franco desenvolvimento, existia a expectativa de que, em breve, as duas disputariam a negociação de novos produtos. “O mercado de títulos privados de renda fixa ainda é muito pouco explorado e certamente ensejaria concorrência”, diz Paulo Veiga, diretor de análise da Mercatto Gestão de Recursos.

CASAMENTO PERFEITO — A partir de agora, a facilidade de negociar ações, commodities e derivativos em um só pregão pode estimular os investidores a realizarem operações cruzadas. “Vamos potencializar essas possibilidades. “Juntas, as companhias serão bem mais fortes do que separadas”, afirma Mifano. Ele também valoriza o fato de a Nova Bolsa atuar simultaneamente nos mercados à vista e de futuros. “Quando um se deprime, o outro acelera”, diz.

Ao se constituir como o único canal de negociação no País e ao oferecer um leque diversificado de produtos para os investidores, a Nova Bolsa espera assistir a um incremento no volume de títulos e contratos fechados. A tão cobiçada liquidez pode contribuir para seduzir empresas de outras praças a se listarem no Brasil. O banco argentino Patagônia é uma das raras instituições estrangeiras que desembarcaram por aqui com essa intenção. Tiago Franceschini, analista da consultoria Lafis, acredita que esse movimento pode ganhar mais fôlego no novo cenário, principalmente entre empresas da América Latina.

Além de mais atrativa para companhias estrangeiras, a operação tende a garantir a redução dos custos operacionais de ambas as bolsas e promover ganhos de sinergia. André Segadilha, gerente de análise da Prosper Corretora, afirma que a centralização dos sistemas de liquidação, custódia e depósito de garantias vai gerar uma ampla economia nas transações, tornando a nova empresa ainda mais lucrativa. Mifano, da Bovespa, não quis entrar em detalhes sobre quais sistemas seriam integrados, mas declarou que o total poupado pode bater em R$ 125 milhões por ano. Ele afirmou que parte desses recursos poderá ser repassada a intermediários e investidores, por meio da redução dos emolumentos e dos custos das transações.

Os acionistas das bolsas também poderão ser premiados com a distribuição de dividendos mais generosos. E o processo de consolidação das corretoras tende a se acelerar, pois será exigido nível maior de escala para garantir uma participação no mercado. “A integração das atividades e o convênio com a Bolsa de Chicago vão estimular bastante o mercado interno”, afirma Gilberto Biojone, diretor-superintendente da Associação Nacional das Corretoras de Valores, Câmbio e Mercadorias (Ancor).

Com relação às plataformas de negociação, não está claro se existem sinergias para aproveitar. Veiga, da Mercatto, não vê nenhuma lógica em ambas virem a utilizar a mesma plataforma, pois o perfil dos negócios não é homogêneo. Edemir Pinto, diretor-geral da BM&F, cita o recente acordo da instituição com a CME como um possível obstáculo para a convergência nesse ponto. Nos termos do pacto, a Bolsa de Futuros brasileira deve adotar um sistema semelhante ao da parceira norte-americana — que pode, eventualmente, não ser interessante para a Bovespa.

ESPAÇO PARA POUCOS — “Uma fonte mais provável para a redução de custos é o enxugamento do quadro administrativo”, afirma Veiga. Esse aspecto, inclusive, promete deflagrar uma disputa bastante acirrada. Como em toda fusão, há a expectativa sobre quem irá assumir o comando da nova instituição. Raymundo Magliano Filho e Manoel Felix Cintra Neto são os respectivos presidentes dos conselhos de administração da Bovespa Holding e da BM&F. Um deles terá de abrir mão do cargo. O mesmo ocorre na direção-geral. Gilberto Mifano e Edemir Pinto se mostraram executivos muito eficientes na condução de seus negócios e contam com equivalente prestígio nos bastidores. “Vai ser uma disputa interessante”, diz Rodrigo Pasin, sócio da Value Consultoria. Reforçando a idéia de que se trata da união entre iguais, ficou definido que o conselho de administração terá o mesmo número de representantes de cada companhia, sendo a maioria deles formada por independentes.

Ao que parece, vários elementos indicam que a fusão será um ótimo negócio para as duas bolsas. Para o mercado, contudo, há quem tema efeitos perversos, no médio prazo, de tanta soberania. Como garantir que não haverá abuso do poder de monopólio, como a cobrança injusta de taxas para corretoras, companhias e demais agentes? “Esse risco existe, mas não é provável que se materialize”, diz Biojone, da Ancor. Ele observa que ambas as instituições já eram soberanas em seus segmentos e que não há registros de práticas abusivas. Além disso, a forma globalizada que impera hoje nos mundos das bolsas inibe um comportamento irresponsável, sob pena de a liquidez ser facilmente transferida para outras praças financeiras.

Não é isso o que se deseja. Ao contrário. Mercados vizinhos, aliás, poderão ser cortejados em um futuro próximo. Os executivos da nova instituição, em linha com a tendência global, mostraram apetite para expandir os negócios para além da fronteira nacional. Edemir Pinto reiterou o perfil consolidador que envolve o negócio. “Ganhamos musculatura e temos agora outra projeção. Podemos fechar acordos com países da América Latina e de qualquer outra parte do mundo”, diz. A Nova Bolsa tem ainda a vantagem de estar inserida em uma economia emergente e de servir a um mercado com grande potencial de expansão. “Ainda há muito espaço para difundirmos uma cultura de bolsa entre os cidadãos”, observa Franceschini, da Lafis.


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