Problema não falta

Investidores reclamam de diluição de ações e de atrasos na divulgação do balanço da Laep

Captação de recursos/Temas/Edição 107 / 1 de julho de 2012
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Há algumas semanas, em frente à sede da Laep, no bairro paulistano da Vila Olímpia, um grupo de minoritários protestava contra a administração. Insatisfeitos com a performance dos Brazilian depositary receipts (BDRs) na bolsa, que perderam 87,4% do valor nos seis meses encerrados em 20 de maio, os investidores questionavam a estratégia da companhia de usar os papéis para pagar dívidas de suas investidas. Reclamavam da diluição a que foram submetidos e das poucas informações que teriam recebido sobre a recuperação judicial das empresas do grupo — três no total, duas delas no segmento leiteiro. Luiz Cesar Fernandes, fundador do Banco Garantia e do Pactual e presidente da Laep desde fevereiro de 2012, convidou os minoritários para conversar. Eles não aceitaram.

A partir de sua estreia no pregão, em 2007, a Laep multiplicou a quantidade de recibos em circulação por 17, numa estratégia que irritou os detentores de recibos no Brasil. De acordo com Fernandes, foram essas operações que garantiram à companhia a possibilidade de renegociar as dívidas das investidas e ostentar, no fim do primeiro trimestre de 2012, um patrimônio líquido positivo de R$ 320 milhões. No quarto trimestre de 2010, a mesma linha do balanço estava negativa em R$ 35 milhões. “A companhia pagou dívidas com ações. Todos foram diluídos, inclusive os controladores”, pontua o presidente. Uma das transações foi com o fundo Global Emerging Markets (GEM), que concedeu uma linha de crédito de R$ 120 milhões em troca de ações da Laep, em 2010. Fernandes explica que a estratégia, implementada antes de sua chegada ao grupo, não é novidade em casos de investimentos em companhias em recuperação judicial. “Já havia feito isso em outras empresas que ajudei a reestruturar, como a Lacta e a Mesbla.”

Uma das vantagens, observa o presidente, é que a operação não demanda caixa. No fim do primeiro trimestre, os haveres da Laep somavam apenas R$ 620 mil. “Emitindo ações em troca de crédito, o passível exigível vira capital. Embora não haja reinvenção da roda nessa operação, algumas pessoas não conseguem entendê–la”, afirma Fernandes, referindo–se aos acionistas rebeldes. O executivo avalia que são poucos os donos de recibos descontentes com a operação se comparados à base acionária de 18 mil investidores da companhia.

Eles podem não ser tantos, mas são barulhentos. No dia 12 de junho, o grupo de ativistas provocou tumulto na reunião de colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que decidia sobre a condenação de executivos da Parmalat. Embora a Laep tenha comprado a Parmalat, o julgamento na CVM era relativo ao período anterior ao investimento. Os proprietários de BDRs querem que a Laep passe a ser obrigada a seguir a nova regulamentação da autarquia para as emissoras de BDRs no mercado brasileiro, de 2011. De acordo com essas normas, a Laep não poderia ter se valido da empresa incorporada em Bermudas para emitir BDRs, em vez de ações, no Brasil. Os representantes da CVM esclareceram que a abertura de capital da Laep foi anterior à edição da instrução e que não mudariam as regras com o jogo em andamento.

Atualmente, a atuação da companhia está voltada ao varejo de luxo e à cadeia do leite. As duas operações no mercado leiteiro, a Padma Glória/Ibituruna e a Lácteos Brasil (LBR), são resultado da compra dos ativos brasileiros da Parmalat realizada em 2006. Seguidas reestruturações societárias consolidaram o setor e transformaram a Laep em sócia da BNDESPar e da GP Investments, operadora da LBR. A empresa captou 1,682 bilhão de litros de leite em 2011, o segundo maior volume no Brasil, menor apenas que o da DPA (que tem a Nestlé como sócia). A “captação”, no jargão desse mercado, se refere ao leite obtido dos produtores parceiros e serve como indicador de desempenho. Para os próximos dois anos, a Laep espera eliminar redundâncias nas operações de leite, reduzindo de 31 para 15 as fábricas em operação.

No varejo de luxo, a Laep detém a Daslu. O plano, até 2013, é torná–la lucrativa. O prazo foi estendido devido ao atraso na entrega do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, que será o terceiro endereço da marca. Desde 2011, quando foi arrematada, a empresa dobrou o tamanho de sua loja no Shopping Cidade Jardim, na capital paulista, e abriu a primeira filial no Rio de Janeiro. Foi comprada pela Laep por R$ 65 milhões e é avaliada por Fernandes em R$ 1 bilhão. “Recuperar empresas não é como fabricar parafusos. Demanda tempo e conhecimento no assunto, inclusive por parte dos acionistas”, justifica o presidente da Laep.

As queixas contra a companhia não vêm somente de pessoas físicas. “Falta transparência à Laep”, constata Fernando Ferreira, gestor de renda variável da Lerosa Investimentos, uma das casas que zerou a posição no capital da Laep entre novembro de 2011 e fevereiro deste ano. A empresa vem atrasando a publicação de informações financeiras. A demonstração contábil de 2010 veio a público apenas no fim de 2011. O balanço do primeiro trimestre deste ano foi divulgado com um mês de atraso, em 15 de junho. Ávida por comprar empresas–problema a preço de banana, a Laep acabou ficando parecida com suas investidas. “O atraso já foi maior. Até o fim do ano as divulgações serão feitas no prazo”, garante Fernandes. Ele diz que uma das suas missões desde sua contratação é melhorar a comunicação da empresa com o mercado, e isso passa por entregar as informações tempestivamente.




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