Por que algumas empresas ainda mantêm o capital aberto e as ações listadas?

Captação de recursos / Temas / Reportagem / Edição 73 / 1 de setembro de 2009
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Ao todo, 432 companhias estão listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Nesse universo, há de tudo um pouco, mas dois grupos chamam especial atenção: o das estrelas, como Petrobras e Vale, que representam mais de 35% da carteira teórica do Ibovespa, cujo principal critério de seleção é a liquidez; e um contingente razoável de companhias que se encontram na situação diametralmente oposta: suas ações quase não são negociadas e, a despeito disso, elas arcam com os custos de serem companhias abertas.

Os motivos para esse segundo grupo existir são os mais variados. Para a catarinense Fundição Tupy, o fato de ser uma sociedade anônima de capital aberto permitiu que o controle familiar exercido até 2001 fosse substituído por investidores institucionais. Isso porque, de acordo com as regras do Conselho Monetário Nacional (CMN), os fundos de pensão só podem aplicar em ativos ofertados publicamente e registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Atualmente, os maiores acionistas são Previ e BNDESPar, com mais de 35% do capital cada um, além de Telos (fundo de pensão da Embratel), com 13,22%, e Aerus (dos funcionários da Varig), com participação de 8,26%.

O free float da Tupy não é nada vistoso: menos de 4% das ações circulam no mercado. Em 12 meses, segundo dados da Economática, a companhia movimentou pouco mais de R$ 13,3 milhões. Aumentar a liquidez dos papéis é uma das metas da Tupy.
A outra, decorrente da primeira, é entrar na rota dos analistas. Para alcançar os objetivos, a companhia sabe que precisará ofertar ações, sejam elas primárias ou secundárias. E, para isso, vem investindo no fortalecimento da governança corporativa.

“Existe um desejo genuíno dos acionistas de melhorar a governança e, no futuro, fazer uma espécie de relançamento da companhia no mercado de capitais”, afirma Luiz Tarquínio, presidente da Tupy. A avaliação inicial é de que chegar ao Novo Mercado seria um passo mais audacioso, apesar da conversão das preferenciais em ordinárias, etapa que costuma ser complexa nas migrações, não representar um empecilho. Na Tupy, menos de 0,5% do capital total é de ações PNs. “Jamais defenderia o fechamento do capital”, conclui Tarquínio.

Além da Tupy, outras companhias de baixíssima negociação planejam voos mais altos no mercado de capitais. Uma delas é a Neoenergia, também controlada pela Previ e sem movimentação em bolsa nos últimos 12 meses. Segundo o fundo de pensão, um acordo firmado com os acionistas prevê uma oferta primária de ações dentro de dois anos.

O cenário, no entanto, é bem menos promissor no caso de outras companhias. A Lark Máquinas, operadora logística que começou como revendedora de máquinas e equipamentos, ilustra a dificuldade que o status de companhia aberta pode gerar. Sociedade anônima desde a década de 70, não conseguiu que o mercado de capitais lhe ajudasse a crescer. “Nosso balanço não oferece boas condições de segurança. A captação seria considerada de alto risco”, comenta Carlos Lamarca, controller da Lark. Para compensar as deficiências operacionais, os sócios da companhia teriam de oferecer um bom desconto aos investidores, o que elevaria substancialmente o custo de capital — um cenário em que os financiamentos bancários continuariam mais atrativos.

Com pouco mais de 0,5% do capital em circulação, a Lark não vê motivos para continuar como companhia aberta. A solução seria buscar investidores de private equity ou fechar o capital. A segunda alternativa, diz a empresa, esbarra em algumas dificuldades. “Os custos do fechamento do capital são elevados”, argumenta a companhia. Outro problema seria a burocracia que exige, por exemplo, a aceitação dos minoritários. No mesmo ponto, esbarra a Construtora Beter. Listada no Soma, mercado de balcão da Bolsa, a empresa abriu o capital na década de 60. Atualmente, se encontra em processo de recuperação judicial e sem qualquer perspectiva de aproveitar os benefícios do mercado de capitais. A companhia está de mãos atadas, já que também não possui condições financeiras para realizar uma oferta pública de aquisição (OPA) do free float de cerca de 30% e fechar o capital.

A parcela de ações em circulação da Beter é bastante razoável. Supera, por exemplo, o percentual mínimo exigido pelo Novo Mercado. Mas o número de negócios é escasso. As poucas transações que ocorrem escondem, segundo um executivo da companhia que preferiu não ser identificado, especulação com a dificuldade financeira da própria empresa. “Há ex-acionistas controladores que compram ações porque sabem que o valor patrimonial da Beter supera o valor de mercado”, conta.


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