Pelos direitos humanos

Raymundo Magliano Filho

Captação de recursos/Retrato/Temas/Edição 113 / 1 de janeiro de 2013
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Deu até no New York Times: de tênis e bermudão, o presidente da Bolsa de Valores brasileira tentava popularizar o mercado de ações com uma campanha na praia. A foto, de 2003, acabou se tornando o símbolo da estratégia de Raymundo Magliano Filho para atrair pessoas físicas e mudar a imagem da Bolsa, identificada então como um “cassino” onde a elite “apostava”. Ninguém mais lê esses termos nos jornais, e Magliano, cinco anos depois de deixar a Presidência, poderia estar comemorando o sucesso na praia. E desta vez de verdade, já que nos tempos da foto o clima de lazer servia apenas ao simbolismo criado — na prática, o presidente trabalhou duro durante os sete mandatos consecutivos. Mas antes de explicar por que não está curtindo a boa vida à beira-mar, Magliano discorre sobre a importância dos símbolos.

O ensinamento veio com os estudos de antropologia que o acompanharam por cinco anos e ocuparam um intervalo nas quatro décadas dedicadas à filosofia. Entre a citação de um e outro filósofo, a pergunta vai sendo respondida: aos 70 anos, Magliano não botou o calção nem vestiu o pijama porque quer continuar estudando, pensando, influindo e agindo politicamente. “O meu legado será o Instituto Norberto Bobbio”, revela, referindo-se à instituição criada e financiada por ele para promover a cultura dos direitos humanos. “Aprendi com a filósofa Hanna Arendt que é preciso ter amor ao mundo e deixar um legado. É algo que falta aos empresários brasileiros. As pessoas estão muito preocupadas em ganhar dinheiro e não retribuem aquilo que o País lhes deu.”

Quem usufrui da afável companhia de Magliano sabe que sua erudição não o tornou um sujeito afetado. Ao contrário, ele aplica os conceitos filosóficos aprendidos em aulas particulares semanais, ministradas por professores universitários renomados, com humildade e uma empolgação quase juvenil. Chega a pedir desculpas por fazer uma nova citação — dessa vez de Aristóteles — para defender que a felicidade depende de estar bem, fazer o bem e ter amigos. “É uma frase linda dele”, comenta.

A parte do “fazer o bem” ele imagina ter aprendido com o pai, o primeiro Raymundo, dono da corretora que herdou o título patrimonial número um da Bovespa. Sobre “estar bem”, isso sempre dependeu da asma, doença com a qual convive desde a infância. “Ainda vou colocar na minha lápide: aqui jaz um asmático que nunca aprendeu a falar inglês”, se diverte, debochando da sua dificuldade com idiomas. Depois desse exemplo de autoironia e modéstia, nem é preciso dizer: Magliano tem muitos, muitos amigos, como recomenda Aristóteles. Isso apesar de “não estar mais na lista”: “Quando se é presidente da Bolsa, o seu nome está na lista. Do ponto de vista burocrático, saí da lista, deixei de ser convidado com frequência. Mas isso significa que é a vez de outro, e aprendi com Kant (filósofo alemão) a respeitar esse outro e me colocar no lugar dele”.

O interesse pela filosofia foi despertado em uma conversa informal com o jornalista João de Scatimburgo sobre um problema interno da corretora. Intrigado com o raciocínio usado por ele, que nada entendia do assunto, foi aconselhado a conhecer o caminho utilizado por grandes pensadores. Dos primeiros livrinhos de filosofia, passou às aulas particulares com o professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, que o acompanhou por 19 anos. Ao todo, são 42 anos estudando filosofia, agora com a professora Claudia Perrone-Moisés.

“A Fundação Getulio Vargas me formou administrador, mas não cidadão”, afirma. “Só me formei cidadão ao longo do tempo, estudando filosofia.” Filho único, Magliano nunca cogitou seguir outro caminho que não o do pai, fundador da corretora hoje administrada pelo terceiro Raymundo, o Neto, um de seus três filhos. Raymundo Filho está hoje no conselho de administração. “Para Max Weber (sociólogo alemão), eu seria um ‘capitalista herdeiro’, porque não precisei passar por todas as fases de seleção e treinamento que dão eficiência ao capitalismo”, justifica ele.

Tradição e herança à parte, depois de ter provado sua competência como empresário e como líder (antes da Presidência, foi vice e conselheiro da Bovespa), Magliano chama hoje a atenção por sua posição crítica em relação ao capitalismo que simbolicamente ainda representa. “Estamos vivendo uma ditadura financeira, com os lucros fabulosos dos bancos em contraposição a uma grande desigualdade na distribuição da renda. Esse abismo na renda torna a democracia frágil”, assinala.

Com a segurança do pensamento bem fundamentado, Magliano defende suas ideias diante das plateias mais diferentes, de eventos do mercado de capitais a movimentos populares — como o Ocupa Sampa, protesto inspirado no americano Occupy Wall Street, que ele visitou em novembro de 2011. “Fui lá concordar com os manifestantes”, explica ele, que anda estudando o pensamento do marxista Antonio Gramsci. “Mas não sou marxista; sou um liberal social”, ressalta.

Seja cuidando das pesquisas e do acervo do Instituto, tendo aulas particulares de inglês e filosofia (“coisa de filho único”) ou participando de movimentos populares (além da praia, levou educação financeira a organizações sindicais e de mulheres), Magliano parece estar sempre à vontade. “Esse meu lado popular não é demagogia; é questão de conceito. Todos nascemos iguais, sem roupa, e todos morreremos. É uma bobagem achar que alguém é melhor ou pior”. A frase, dessa vez, é dele mesmo, Raymundo Magliano Filho.


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