Pelas lentes da literatura

Um dos maiores romancistas brasileiros expõe sua visão a respeito das finanças e dos mercados

Captação de recursos/Prateleira/Temas/Edição 53 / 1 de janeiro de 2008
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Comentar a obra de Machado de Assis é um exercício delicado, especialmente para alguém com formação cartesiana. No entanto, ainda mais arriscado é fazê-lo quando se trata de uma obra organizada por um conhecido e respeitado ex-presidente do Banco Central. Gustavo Franco escolheu e analisou 39 crônicas, dentre inúmeras produzidas entre 1883 e 1900, buscando depreender a visão de Machado sobre os temas relacionados às finanças, sob a luz dos eventos ocorridos naquele período. Ao tratar dos assuntos mais “quentes” da semana, as crônicas, vez ou outra, capturavam um tema do mundo das finanças, que inevitavelmente rodeavam o cotidiano do autor em um período particularmente turbulento da história econômica brasileira.

O organizador certamente empreendeu grande esforço para contextualizar as crônicas, explicando brevemente os fatos que ambientam o texto machadiano. Além disso, a obra serve-se do recurso (fundamental, diga-se de passagem) de chamadas e comentários para explicar expressões pertinentes à época e ao autor. O resultado é um conjunto de textos que pinta com cores vivas a finesse das obras de Machado, sua riqueza em figuras de linguagem e sua visão desconfiada e irônica do mundo das finanças.

Deve-se ressaltar que, conforme confessado pelo próprio Machado de Assis, o nosso br i lhant e romanc i s ta não tinha grande entendimento do assunto. Nesse sentido, a visão machadiana pode ser enxergada como a de um cidadão comum, nitidamente desconfiado das maquinações arquitetadas pelas empresas. Enfadado, ele mostrava o acionista como um personagem que comparecia às assembléias apenas porque se via forçado a fazê-lo. Na verdade, o que ele queria mesmo era receber o seu dividendo. Descrente, enxergava um cenário que tinha por trás das cortinas um administrador estatal, que decidiria sobre distribuir dinheiro ao acionista do mesmo jeito que um governante daria aumento para o funcionalismo público.

Embora o termo governança corporativa ainda estivesse há um século de ser inventado, ele faz uma ponta neste mundo das finanças visto sob a lente literária de Machado. Há textos que comentam sobre a importância dos dividendos, ironicamente reconhecendo que, “desde que os dividendos sejam pagos, os executivos podem fazer o que quiserem”. Machado de Assis personifica impostos e transforma acionistas em “carneiros” (olha a ironia!), fazendo com que narrativas potencialmente enfadonhas se tornem diálogos divertidos. Aliás, diversão é a tônica deste escritor irônico e sabiamente indecifrável quanto a suas escolhas ideológicas. Entre comentários oblíquos (para usar o termo apropriado do título) sobre questões econômicas, ele não se revela à direita ou à esquerda, preferindo posicionar-se apenas como um comentarista.

Por fim, considerações devem ser registradas sobre o público-alvo desta obra. Aos que, como este resenhista, se sentiram atraídos pela idéia de fundir literatura com finanças, deve-se ressalvar que a mistura se prova predominantemente literária, com leves pitadas de finanças. Parafraseando Machado de Assis, “como um suco de groselha um tanto ralo”. Este fato, contudo, não diminui a relevância e o interesse da obra.

A Economia em Machado de Assis — O Olhar Oblíquo do Acionista


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