Pegada social

Antonio Ermírio de Moraes Neto

Gestão de Recursos / Temas / Retrato / Edição 105 / 1 de Maio de 2012
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“As palavras comovem, mas são os exemplos que arrastam.” Antonio Ermírio de Moraes Neto estava nervoso e emocionado ao receber um prêmio de liderança empresarial em nome do avô, homenageado no ano passado. Citou o provérbio para cerca de 5 mil pessoas, uma plateia mais madura e numerosa do que costuma ter em suas conferências sobre investimento de impacto, como fundador da Vox Capital. O que pouca gente percebeu foi que se referia não apenas ao exemplo herdado da família — propulsora do processo de industrialização no País com o grupo Votorantim —, mas à responsabilidade que tomou para si desde cedo: também arrastar empreendedores e investidores.

“A vida é muito curta”, diz Moraes Neto, que tem apenas 26 anos. “É estranho eu falar isso, mas reflito muito sobre a morte, afinal estamos todos para morrer. Tento aproveitar ao máximo a vida, não no sentido de ir a festas, mas de deixar um legado, uma ’pegada’ minha nesse curto período em que estiver na Terra.” A “pegada” do neto de Antonio Ermírio está na Vox, fundo de capital empreendedor que investe em negócios que melhoram a vida da população de baixa renda. E seu exemplo, com boa chance de inspirar seguidores, poderá ser visto no documentário Setor dois e meio, longa–metragem que gravou durante um mês na Índia e em Bangladesh, junto com colegas do curso de administração pública da Fundação Getulio Vargas (FGV–SP), mostrando iniciativas rentáveis que transformaram a realidade local.

Antes de contar como seus estudos sobre negócios na base da pirâmide, ainda na faculdade, evoluíram para a percepção de um novo setor da economia, que alia a eficiência do privado e o impacto das organizações sociais, e como encontrou no mercado de capitais um nicho crescente de investidores com o mesmo foco, Moraes Neto pergunta se tenho tempo para ouvir a história de seu tataravô. De ofício sapateiro, aquele primeiro Antonio já era comerciante estabelecido quando decidiu se aventurar nos Estados Unidos, em 1906. Sem falar inglês, se fez passar por operário durante um ano. O objetivo era conhecer o processo industrial de desencaroçamento de algodão, e, depois, negociar e trazer aquelas máquinas ao Brasil — iniciando o primeiro de muitos ciclos de industrialização implantados pela família.

Assim como o tataravô, Moraes Neto foi à Índia sem saber ao certo no que seus planos iriam dar. Tinha 21 anos e podia, sem dúvida, estar aproveitando a juventude em festas. Em vez de pedir recursos ao pai para o projeto do documentário, fez o percurso de captação que cabe aos empreendedores. Decidiu começar pelo mais difícil: procurou “o cara mais duro do mercado, que poderia acabar com aquele modelo”. No entanto, Luis Stuhlberger, sócio da corretora Hedging–Griffo, gostou do projeto, do conceito de setor dois e meio, e investiu os primeiros R$ 15 mil. As captações pela Lei Rouanet continuaram, antes e depois da viagem, até chegar a R$ 1 milhão. O longa estreia no fim do ano.

“Não conhecia ninguém na Índia”, conta Moraes Neto, que aprendeu a lidar com “o peso do nome da família”: “Não me cobro de ter o nível de sucesso de meu avô ou bisavô, porque é uma comparação injusta. Mas tento carregar os valores deles de humildade, trabalho duro, coragem, espírito empreendedor. Aí o peso se transforma em sustentação”. Se seus ascendentes foram pioneiros em indústrias como alumínio e cimentos, ele acredita ter encontrado no chamado “impact investment” a sua própria trajetória inovadora para ajudar a desenvolver o País. “Eu me vejo como pioneiro da indústria que chamamos hoje de investimento de impacto. É um novo modelo de fazer negócios no século 21, que precisa de um novo olhar.”

Fundada em 2009, a Vox Capital já fez seis investimentos desse tipo no País, depois de atrair um primeiro investidor internacional, a Potencia Ventures. Dentre os negócios estão um portal focado em saúde pública, uma rede de lan houses que oferece serviços para a baixa renda e um banco voltado ao microcrédito. “Depois que começamos, bancos como JP Morgan e Credit Suisse fizeram relatórios sobre esse conceito de investimento e criaram áreas específicas para ele. Os valores investidos ainda são pequenos, de US$ 5 bilhões ou US$ 6 bilhões ao ano, mas indicam uma curva ascendente.”

O talento para influenciar investidores ou empreendedores não veio do berço. “A liderança foi um aprendizado para mim”, garante. Até a montagem de uma banda de rock, durante a adolescência, ele contabiliza como parte de seu processo consciente para se desinibir e “ser responsável por algo sério”. Menino “nerd”, sua brincadeira preferida era criar jogos de tabuleiro para os três irmãos menores, ou então projetar embarcações. Antes dos 15 anos, teve sua primeira experiência de trabalho em uma organização internacional: a Gente Nueva, recém– instalada em São Paulo na época, cujo objetivo é ajudar jovens herdeiros a se tornarem líderes com valores. Ali descobriu que, apesar da brincadeira com projetos náuticos e da tradição da engenharia na família, queria ser administrador e empreendedor — além da FGV, cursou um semestre no Babson College, em Boston, maior referência em empreendedorismo no mundo.

Acostumado aos círculos sociais mais abastados, ele não se chocou com a pobreza na Índia? Sim, houve um primeiro impacto, em Mumbai, ao perceber uma família inteira morando no banheiro do aeroporto, mas ele lembra que desde criança foi acostumado pela mãe a fazer trabalhos voluntários em favelas de São Paulo. “É como se fosse um outro lado de mim. Sempre vivi no conforto da minha casa, mas incomodado com a pobreza e pensando que era possível fazer alguma coisa”. Com a Vox, acredita, a possibilidade começa a se tornar realidade.



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