Passando o chapéu

Novidades regulatórias, concorrência e perspectivas de crescimento levam as seguradoras a buscar recursos com investidores. O caminho é consolidar

Legislação e Regulamentação/Reportagem/Temas/Edição 60 / 1 de agosto de 2008
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O secular mercado de seguradoras está remoçando. Antes comparadas a uma senhora de meia-idade, hoje elas estão muito mais para menina-dos-olhos. Projeções de especialistas indicam que a participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB), atualmente em torno de 3%, irá dobrar dentro de cinco anos. Depois do crescimento dos cartões de crédito e do crédito bancário, a bola da vez são os seguros. Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram crescimento de 10% nos prêmios (total de seguros vendidos), de R$ 34,9 bilhões em 2006 para R$ 38,4 bilhões no ano passado. Exemplo de tradicionalismo, o setor passa por transformações geradas por uma série de fatores. Em meio a oportunidades de crescimento nunca vistas, grupos seguradores buscam se capitalizar para não ficar de fora do baile. Concorrência acirrada, chegada de players internacionais, aquisições, investimentos de private equity e aberturas de capital estão no roteiro. Mas, por culpa de restrições orçamentárias, nem todos os personagens desse filme chegarão ao fim.

A corrida atrás de recursos foi patrocinada pela Susep. Na sua Resolução 178, de dezembro de 2007, a autarquia introduziu novas regras acerca do capital mínimo requerido para autorização e registro de empresas do setor. A Susep criou padrões de cálculos que levam em consideração variáveis como o montante dos prêmios retidos, o volume de sinistros e a região em que atua a seguradora. Chamado de Solvência 2 — numa alusão ao segundo acordo de capital mínimo em vigência para bancos conhecido como Basiléia —, o conjunto de normas segue o internacional Risk Base Capital e confere aos players do setor quatro anos para se adequarem ao mínimo exigido.

“É a tendência mundial de ajustar as operações das empresas aos riscos que assumem”, explica Flávio Faggion, sócio-diretor da Siscorp, prestadora de serviços para seguradoras. Antes, as regras eram mais frouxas. Uma empresa poderia ter um patrimônio que representasse apenas 20% do total de seguros vendidos, sem levar em consideração o histórico da carteira e a área de atuação. De acordo com cálculos de Faggion, a exigência de retenção de capital saltará para cerca de 27,5%. “A diferença pode parecer pequena, mas é apenas a média. Algumas seguradoras sofrerão um golpe mais duro em razão das novas variáveis que entraram no cálculo.” O impacto foi pressentido pela Susep. A proposta inicial era fazer a adequação em três anos. Mas a autarquia mudou de idéia, e as seguradoras ganharam mais 12 meses para cumprir o novo padrão.

De acordo com números de maio, fornecidos pela Siscorp, das 103 empresas de seguros atuantes no Brasil, cerca de 20% estão desenquadradas. O cenário vai incentivar o processo de consolidação do mercado que, por sinal, já começou. Só no mês de julho, foram três. A seguradora norte-americana Metlife, por aqui desde 1999 e com atuação focada em seguros de vida e previdência, adquiriu a Odonto A Saúde Empresarial. Nos Estados Unidos, a empresa é líder em planos odontológicos com 21 milhões de clientes. No Brasil, o objetivo para os próximos três anos não é nada modesto: aumentar em dez vezes a carteira adquirida. “O mercado de planos odontológicos ainda é muito fragmentado. Vamos partir para consolidar o setor”, diz José Roberto Loureiro, presidente da operação brasileira da Metlife.

No dia 17 de junho, foi a vez de a Zurich adquirir a Minas Brasil e, de quebra, garantir exclusividade nas mais de 500 agências do Banco Mercantil do Brasil, controlador da seguradora até então. Fontes apontam que o banco, considerado médio, sofre com o encarecimento do funding e, por isso, negociou a operação de seguros para se capitalizar. O Banco do Brasil (BB), que, pelo tamanho, sofre menos com o problema, fez o movimento contrário. Por valor não revelado, adquiriu a parte de sua sócia, a Aliança da Bahia, na seguradora Aliança do Brasil, que atua com seguros de vida e patrimonial.

COMPETIDOR À VISTA — A concorrência dos bancos é outra novidade do enredo. Embora já atuassem no mercado, essas instituições mudaram de postura. Até há pouco, buscavam vender seus produtos entre os próprios clientes, usando as agências como veículo. A escolha deu aos bancos a liderança no setor vida, mas os deixou para trás em outros segmentos. “As seguradoras que usam corretores como canal de vendas têm em outros setores o mesmo domínio conquistado pelos bancos em seguros de vida individual”, explica Cláudio Sanches, diretor-executivo da Itauseg. O BB, por exemplo, anunciou, em julho, que vai usar o canal para vender suas apólices, após anos sem atuar com corretores.

Para Henrique Navarro, analista do setor de seguradoras do Santander, a mudança de comportamento dos bancos dá uma boa noção de como está a competição nesse mercado. No primeiro momento, essas instituições vão diminuir a rentabilidade em razão das comissões pagas aos corretores. “Mas o esforço se justifica porque o retorno virá em seguida, com a venda de outros produtos bancários ao novo cliente”, avalia.

Com crescimento de 65,6% no lucro líquido do primeiro trimestre, a SulAmérica preferiu firmar parcerias com bancos em vez de concorrer com eles. Uma das duas companhias abertas do setor, a seguradora aproveita o bom momento do mercado automobilístico para aumentar sua carteira de veículos, usando a estrutura de quem os financia. Em maio deste ano, fechou acordo de exclusividade com a BV Leasing e a BV Financeira, do Grupo Votorantim. Isso significa que o único seguro oferecido aos clientes na compra de um carro financiado pelas empresas é o da SulAmérica. Em média, o Grupo Votorantim financia 80 mil veículos ao mês, o que promete render à seguradora R$ 100 milhões ao ano só com esse acordo. A SulAmérica também tem parceria com a Brasilveículos, seguradora do BB voltada para autos que usa como canal as milhares de agências do banco espalhadas por todo o País.

PARCERIAS PARA CRESCER — Fundada em 1895, a SulAmérica foi uma das 64 empresas que abriram o capital no Brasil em 2007. Levantou R$ 775 milhões com o lançamento de units, títulos que “empacotam” mais de um tipo de ação. No caso da seguradora, a composição conta com uma ação ordinária e duas preferenciais. O uso dos papéis sem direito a voto serviu para preservar o controle da companhia. A oferta pública inicial (IPO) da SulAmerica foi precedida, cinco anos antes, pela chegada de um parceiro estratégico, o grupo holandês ING, que adquiriu 49% da companhia (hoje essa participação é 21,2% do capital total). De acordo com Arthur Farme D’Amoed Neto, vice-presidente de Relações com Investidores (RI) da SulAmerica, os dois movimentos tiveram o objetivo de capitalizar a companhia diante das perspectivas de expansão do mercado. “A SulAmérica se prepara para crescer de forma orgânica e por meio de aquisições”, explica Neto sobre a companhia com a segunda maior participação em seguro saúde no Brasil, de 38%.

Uma estratégia para aumentar a participação em saúde é a compra de carteiras inteiras. A SulAmérica, avisa Neto, está de olho em concorrentes que tenham perdido o interesse ou a capacidade de operar com o produto. O ambiente regulatório, com as novas regras da Susep, tem contribuído para que o processo se acelere. Adquirir carteiras de saúde é um negócio viável, ao contrário do segmento de autos. A diferença reside no prazo. Como a apólice de um carro costuma ter validade de um ano, o vínculo entre seguradora e segurado é precário. A cada 12 meses abre-se uma janela para que o cliente saia. No seguro saúde, a situação muda. A apólice tem duração maior, o que desmotiva o segurado a procurar cotação na concorrência. Neto conta que a estratégia da SulAmérica é atacar em várias frentes e ser, cada vez mais, uma autêntica multilinha. “Se uma carteira vai mal, outra vai bem. É o que tem acontecido nos últimos semestres.”

O maior produto da SulAmérica continua sendo o seguro saúde, que cresceu 7,2% no primeiro semestre de 2008 ante igual período do ano passado. A carteira de autos, no mesmo espaço de tempo, cresceu mais que o dobro. Os prêmios de veículos saltaram 16,3%, mas o resultado não foi suficiente para desbancar a Porto Seguro, líder do setor. De acordo com números da Susep de 2007, pouco mais de 20% do mercado de seguros de autos pertence à Porto Seguro.

A liderança no segmento não camufla o desconforto pelo qual passa a Porto. Fundada em 1945 e listada no Novo Mercado desde 2004, a companhia está em meio a um programa de recompra de ações. Ela sofre as conseqüências de ter uma carteira muito concentrada. Dados da companhia mostram que 65,2% do faturamento de 2007 provém dos seguros de autos, boa parte deles em São Paulo. “As chuvas de verão foram cruéis. Cerca de 700 carros segurados pela empresa foram atingidos pelas enchentes de janeiro e fevereiro na capital paulista”, diz Alexandre Peev, gerente de RI. O estrago atingiu o balanço do primeiro trimestre de 2008. A rentabilidade anualizada da Porto Seguro caiu 17,4 pontos percentuais no período.

O programa de recompra dos papéis da Porto Seguro começou em abril e, até junho, consumiu investimento de R$ 17,4 milhões. “Acreditamos muito na empresa e no potencial do mercado no médio prazo. Por isso investimos em nós mesmos”, diz Peev. Do início do programa até o dia 16 de julho, a cotação subiu de R$ 18,10 para R$ 19,75, segundo dados da Economática. No dia 7 de julho, seu valor de mercado estava em R$ 4,1 bilhões, 70% maior que o da concorrente direta na bolsa, a SulAmerica, que valia R$ 2,4 bilhões (veja quadro).

NO CAMINHO DO IPO — O número de concorrentes com ações listadas na Bovespa deve aumentar no médio prazo. “Estamos com nota sete em preparação para o nosso IPO, mas só vamos a mercado quando a turbulência econômica passar”, declara André Fernandes, diretor financeiro e de RI da Marítima Seguros. A projeção do executivo é que isso aconteça entre o fim de 2009 e o início do ano seguinte. Por pouco, a Marítima não acessou o mercado em 2007. No segundo semestre do ano passado, a empresa chegou a receber autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para lançar seus papéis em bolsa, mas a família controladora preferiu cancelar a operação. O motivo foi o desconto sugerido pelos investidores durante o road show, reflexo da crise global que se avizinhava.

Fernandes tem analisado a possibilidade de capitalização no exterior via dívida, enquanto conversa com investidores de private equity e estratégicos. “Desde que cancelamos a oferta, as reuniões com investidores específicos se intensificaram.” O diretor cita as qualidades operacionais da empresa –– baixa sinistralidade e diversificação da carteira –– como razões para o interesse de grandes investidores.

Dentre os estratégicos, Fernandes admite ter conversado com algumas resseguradoras privadas — espécies de seguradoras das próprias seguradoras. Até o ano passado, esse tipo de empresa não existia no País. Todas as operações dessa natureza eram feitas pelo Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), estatal criada em 1939 por Getúlio Vargas e responsável pelas garantias desse mercado. A história mudou com o fim do monopólio, que deixou de valer no primeiro dia de 2008, após 69 anos. “Resseguradoras internacionais poderão entrar em setores que as interessam”, confidencia Sanches.

A lógica é simples. Empresas de resseguros internacionais têm expertise em grandes riscos, e esse é o diferencial delas em relação ao IRB. O problema é que as seguradoras brasileiras, tradicionalmente, não oferecem produtos com esse perfil. Sua atuação majoritária é em seguros pulverizados, com poucos riscos, como veículos e saúde. A saída cogitada para as resseguradoras internacionais seria celebrar parcerias estratégicas com seguradoras do Brasil, a fim de criar mercado para suas especialidades, os grandes riscos. A nova vertente encontraria demanda nos setores mais dinâmicos da nossa economia. “Nos próximos anos, infra-estrutura e agronegócio crescerão fortemente no País. Acredito que as resseguradoras vão lançar produtos para essas áreas”, diz Maria Laura Pessoa, analista do setor de seguradoras do Unibanco.

Um exemplo do que está por vir são os seguros para vastas regiões agrícolas. Raras no Brasil e consideradas de alto risco, as apólices protegeriam plantações de maçãs dos estragos de uma possível geada, por exemplo. No que depender da movimentação de registros concedidos pela Susep para resseguradoras, as novidades aparecerão em breve. Do dia 25 de março — quando a primeira resseguradora privada conquistou permissão para atuar no País — até 17 de julho, foram chanceladas 18 empresas.

Dentre elas, duas brasileiras. Além do IRB, os paranaenses do J. Malucelli estão autorizados a operar com resseguros desde maio de 2008. A nova aposta do grupo vem para complementar a operação com seguro-garantia. Normalmente usada por grandes empreiteiras, a apólice garante o cumprimento das cláusulas dos contratos como, por exemplo, multas por extrapolar o prazo de entrega. De acordo com a Susep, cerca de 50% de todos os prêmios de seguro-garantia no Brasil estão nas mãos dos paranaenses, que, entre 2005 e 2007, contaram com investimentos de um dos fundos de private equity da Advent.

O caso de sucesso do J. Malucelli dá força para outros investimentos de capital privado nas seguradoras. Quem acredita nisso é Luiz Eugenio Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). O crescimento projetado para o mercado de seguros desperta a atenção dos gestores, mas não é o único predicado observado por eles. O nível de exigência — tanto de capital como de divulgação — para atuar no setor também o torna mais atraente. O momento atual, portanto, é uma daquelas raras oportunidades em que os players envolvidos juntam a fome com a vontade de comer. “Como o private equity sempre busca aumento de escala, imagino que os fundos serão os catalisadores do processo de consolidação, ainda em início no setor”, analisa Figueiredo, que também é diretor da gestora de recursos Rio Bravo. Para as seguradoras fechadas e sem a retaguarda de um grande grupo, uma carona desses investidores pode ser o único jeito de não perder o melhor da festa.




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Tags:  Porto Seguro Análise setorial Sul América PIB Susep Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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