Passando a bola

CRP investiu na Lupatech por mais de uma década e deu lugar à GP Investimentos, em um caso raro de negociação da participação entre gestores de private equity

Relações com Investidores / Temas / Private Equity - Coletânea de Casos 2009 / Reportagem / 1 de agosto de 2009
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A história da Lupatech, fabricante de válvulas industriais, poderia ser apenas mais uma em que o capital de risco deu o empurrão que faltava para a empresa deslanchar. Tudo começou em 1985, quando o sócio-fundador e diretor executivo da CRP, Clóvis Meurer, conheceu Nestor Perini, fundador da Lupatech. Dois anos depois, a gestora fez seu primeiro aporte na empresa, através do CRP I. O prazo de investimento do fundo acabou, a CRP devolveu ganhos, em dólar, de 13,1% ao ano aos investidores, mas se manteve na empresa por meio de outro fundo, o CRP Caderi. Foi na hora de promover a saída do segundo fundo que a história da Lupatech começou a se diferenciar. Em vez de vender a participação para um sócio estratégico ou em bolsa, através de uma abertura de capital, a CRP passou a bola para outro gestor de private equity — e tornou-se um dos raros casos de negociação via mercado secundário na indústria brasileira.

O negócio foi feito de forma indireta. Antes de vender sua participação para a GP Investimentos, a CRP fez uma espécie de escala. Oficialmente, se desfez do investimento ao vendê-lo de volta ao controlador da Lupatech — apesar de, na ponta oposta, já estar previamente acertada a entrada da GP. O formato parece complicado, mas oferece algumas vantagens. Para a CRP, a saída representou ganhos de 10,9% ao ano, em dólares. Para a GP, gestora que levou a Lupatech à bolsa em 2006, a compra da participação através do controlador permitiu que novas condições, como a participação do fundo no conselho de administração da companhia, fossem negociadas. Se o negócio fosse direto, provavelmente a GP herdaria as condições acertadas anos antes pela CRP, quando a Lupatech se encontrava em outro patamar de desenvolvimento.

A experiência da CRP com a GP Investimentos evidencia um cenário que é novo no Brasil, mas comum no exterior. Em mercados em que a indústria de capital de risco é mais desenvolvida, é natural ver outras gestoras como empresas complementares. “A CRP, que opera fundos pequenos e médios, sempre enxerga a possibilidade de vender sua participação para gestoras de private equity. Somos colegas e não concorrentes”, destaca Meurer.

A Lupatech nasceu em 1980, como uma metalúrgica chamada Microinox. A parceria entre a CRP e a empresa começou quando Meurer conheceu Perini, em 1985, na cidade de Caxias do Sul, a 120 quilômetros da capital gaúcha Porto Alegre. Do encontro inicial até o primeiro aporte, para compra de 30% do capital da Lupatech, passaram-se dois anos. “É importante buscar afinidades. Os objetivos do fundo e dos investidores precisam estar alinhados com os do empresário”, conta Meurer. Ele defende que o segredo do sucesso de um investimento de private equity é o alinhamento de interesses. Por isso é preciso tempo para avaliar se é possível seguir uma caminhada lado a lado. Assim, é comum que cada operação leve entre seis meses a um ano para ser concluída. O ambiente econômico da época exigia cautela adicional. Nas décadas de 1980 e 1990, a inflação era galopante, o que fazia de investimentos de médio e longo prazo verdadeiras raridades.

“É importante buscar afinidades. Os objetivos do fundo e dos investidores precisam estar alinhados com os do empresário”

A chegada da CRP transformou a Lupatech, até então uma limitada, em sociedade anônima. Com o novo sócio, veio também o aprofundamento da profissionalização almejada por Perini, sempre no papel de controlador. No final dos anos 80, a Lupatech iniciava o processo de implementação das práticas que hoje chamamos de governança corporativa. Para Meurer, a visão empreendedora de Perini foi a peça-chave para que a empresa chegasse à bolsa de valores. Mas quem acompanhou a transformação de uma pequena empresa familiar em uma corporação profissionalizada sabe que o suporte dos fundos de private equity — a empresa também recebeu aportes de outras gestoras, além do BNDES — foi essencial. “Quando se têm várias cabeças pensando e com interesses alinhados, temos mais chances de cometer menos erros”, conta Thiago Oliveira, diretor financeiro e de relações com investidores da Lupatech.

O negócio foi feito de forma indireta. Antes de vender sua participação para a GP Investimentos, a CRP fez uma espécie de escala

Outra evidência da importância do capital de risco na empresa está na composição do conselho de administração. A CRP, apesar de ter deixado o capital da Lupatech anos antes da estreia em bolsa, mantém um assento no órgão. Na avaliação de Oliveira, Meurer se tornou uma pessoa importante na história da companhia. “Houve a combinação de um empreendedor, Nestor Perini, com alguém com uma visão mais financeira e não menos empreendedor, Clóvis Meurer. Essa soma foi responsável pela construção da Lupatech”, avalia Oliveira.


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