Parceiros ou concorrentes?

Com empresas médias mirando o Bovespa Mais, o que antes era só uma suspeita confirma-se na prática: o segmento ameaça tirar boas oportunidades dos fundos private equity

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 57 / 1 de Maio de 2008
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Três empresas com perfil adequado ao mercado de acesso da Bolsa de Valores de São Paulo, o Bovespa Mais, apresentaram-se em evento promovido pela bolsa paulista no mês de abril. Le Biscuit, Esporte Interativo e Sênior Solution são companhias que registraram forte crescimento nos últimos anos e têm enorme vontade de ampliar seus negócios. Todas pretendem captar recursos por meio de investidores de longo prazo, e estudam no momento a melhor forma de fazê-lo. Elas conversam com fundos de private equity (PE), mas também consideram fortemente a possibilidade de pular esta etapa e ingressar diretamente no Bovespa Mais. Seus relatos deixam claro que, embora complementares em alguns casos, o mercado de acesso da bolsa e os fundos de capital de risco também podem concorrer quando se trata de empresas médias com sede de expansão.

A Esporte Interativo, companhia carioca do ramo de entretenimento, pretende ingressar no Bovespa Mais em vez de começar por um fundo de PE. “Temos sido abordados por esses investidores, mas nenhuma das propostas nos agradou”, afirma o presidente da empresa, Edgar Chagas Diniz. “Temos até agora mais simpatia pela idéia de captar recursos de maneira pulverizada, como uma típica empresa de capital aberto”, completa.

“Na medida em que, estimuladas pelo Bovespa Mais, empresas de médio porte se sentem preparadas para um IPO, há a concorrência”

A Esporte Interativo faz fortes investimentos na aquisição de direitos de transmissão pela TV de grandes eventos esportivos, como a Copa dos Campeões da Europa. Transmite os jogos em horários alugados nas emissoras abertas e no seu próprio canal de parabólica. Diniz não vê com bons olhos a possibilidade de se comprometer com poucos investidores, como seria o caso de uma associação com um fundo PE. Segundo ele, a Esporte Interativo atua num setor bastante específico, que exige grande entendimento para agüentar as trovoadas típicas do negócio. “Ficamos com a impressão de que, para um fundo PE, não é difícil abandonar um negócio como o nosso, depois de algum tempo. Por isso preferimos nos tornar conhecidos no mercado de capitais e receber recursos de vários investidores”, afirma o empresário.

Também a Sênior Solution pretende chegar ao Bovespa Mais sem antes passar pela captação com um fundo PE. O foco da empresa são serviços para o mercado financeiro na área de desenvolvimento de softwares sob medida. Desde 2005, vem implementando processos de gestão e governança que foram necessários para receber o investimento de venture capital do Grupo Stratus e recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — R$ 8 milhões, em duas etapas. “Por isso, agora não precisamos de muita participação dos bancos na preparação da empresa para a oferta, mas apenas de assessoria para o IPO”, afirma o presidente da Sênior Solution, Bernardo Gomes, que prevê a oferta inicial para o segundo semestre.

“O Bovespa Mais sempre nos pareceu mais atrativo do que um PE, porque nossa empresa já estava organizada e, portanto, o valor agregado do fundo não seria tão grande”, diz o diretor-geral da Nutriplant, Marcos Haaland. A empresa de fertilizantes fez o IPO de estréia no segmento em fevereiro e permanece como a única ali listada. “Entendemos que o Bovespa Mais vai valorizar a empresa, mas isso é uma particularidade de cada negócio”, completa Haaland. Gomes tem visão semelhante: “Para nós, seguir direto para a Bovespa Mais é uma questão institucional. Como somos fornecedores do setor financeiro, é muito interessante fazermos parte do ambiente do mercado aberto, sermos listados na Bovespa e fiscalizados pela CVM. Trata-se de uma marca de perpetuidade”, completa.

Já a baiana Le Biscuit, rede varejista que começa a atuar em outros estados do Nordeste, considera as duas hipóteses. Familiar e menos avançada na implementação de práticas de governança, a empresa não planeja dispensar a fase do private equity. Ao contrário, sua idéia é buscar investidores de capital de risco este ano e, em 2009, já entrar para o Bovespa Mais. “Temos conversado com vários bancos sobre a abertura de capital, mas ainda não fechamos com nenhum”, conta o presidente da empresa, Álvaro Sant’Anna Neto. Ele acredita que os próximos três meses serão decisivos para a definição de parceiros que vão ajudar a empresa na preparação do IPO.

CADA UM NO SEU PAPEL — Para Álvaro Gonçalves, sócio e diretor executivo do Grupo Stratus e ex-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), “os fundos PE e o Bovespa Mais são habitantes do mesmo ecossistema, mas têm funções muito diferentes”. Segundo Gonçalves, um segmento depura o outro, e um fica mais forte se o outro for forte. “Empresas prontas para abrir o capital não precisam de private equity. Mas há também as que precisam de uma fase de preparação, de maior exposição e de consolidação de processos corporativos, e que não querem ver suas estratégias de aquisições abertas ao público. Estas não serão bem-sucedidas se abrirem o capital sem um estágio anterior”, diz. “Por isso, não há competição.”

A supervisora de desenvolvimento de empresas da Bovespa, Patrícia Pellini, concorda com Gonçalves. Ela define Bovespa Mais e investimento private equity como complementares. Não por acaso, destaca, duas regras do Bovespa Mais foram criadas para comportar empresas que carregam investimentos de PE. Ela referia-se à possibilidade de haver ações preferenciais conversíveis em ordinárias antes da adesão e ao prazo de sete anos para atingir o free float mínimo de 25%. Segundo Patrícia, a experiência com PE “é um ótimo precedente para a empresa. Os investidores gostam”.

Para o diretor do banco Modal Humberto Tupinambá, a maioria dos investidores que têm foco em empresas médias e buscam aplicações de renda variável no longo prazo está hoje nos fundos PE. “A partir do momento que o Bovespa Mais começar a se desenvolver, acredito que parte desses recursos possa migrar para o segmento, já que os fundos geralmente têm duração de cinco anos”, diz. “Acredito que deva haver uma realocação de recursos, mas não sei se ocorrerá competição pelo mesmo dinheiro. O Bovespa Mais é uma opção de longo prazo, inclusive, para pessoas físicas, o que não ocorre com os private equity”, completa.

Carlos Alexandre Lobo e Silva, sócio do escritório Pinheiro Neto Advogados — que participou do IPO da Nutriplant —, reconhece a competição. “Na medida em que empresas de médio porte se sentem preparadas para abrir o capital, há a concorrência. Mas o caminho recomendável é a passagem pelo private equity, porque moderniza a estrutura”, afirma. Ele relata o caso de uma companhia que avaliou como muito agressivo o posicionamento de um fundo PE em relação ao controle da organização. Por isso, pensa em ir diretamente ao Bovespa Mais, para não ter o que considera uma ingerência excessiva. Álvaro Gonçalves, da Stratus, resume a questão: “Mal comparando, o PE está para a empresa que cogita ir ao mercado assim como o personal trainer está para o candidato à estréia numa maratona. Pode-se até ir sem ele e atingir bons resultados, mas o risco de se machucar ou ter um enfarte também existe”.

SÓ EM 2009 — A proporção real dessa concorrência, contudo, só será percebida quando o Bovespa Mais acelerar. O segmento saiu do papel este ano, com a listagem da Nutriplant, e até ganhou o apoio de bancos, como o Modal e o Brascan, que se declararam publicamente interessados em coordenar IPOs no segmento. Mas o avanço mais consistente deve vir somente no ano que vem. “Não será surpresa se a Nutriplant ganhar a companhia de mais duas ou três empresas no segundo semestre, mas um crescimento maior deve ocorrer em 2009”, afirma Lobo e Silva. Há dez meses, o banco Modal criou uma área com equipe dedicada a prospectar empresas com bom perfil para o segmento, e já conta com o mandato de cinco companhias que pretendem aderir a ele.

Tupinambá, do Modal, avalia que os agentes financeiros devem buscar empresas com boa capacidade técnica e produtos consolidados no mercado para atrair o interesse de investidores de longo prazo para o Bovespa Mais. “Temos de levar ao segmento empresas com grande capacidade de liquidez ao longo do tempo. Todas as candidatas que vemos como elegíveis ao Bovespa Mais são consolidadas e têm produto reconhecido. Não vão morrer no médio prazo”, garante. Isacson Casiuch, diretor executivo do Banco Brascan, concorda que, por ser uma opção nova, o Bovespa Mais exige dos bancos mais rigor ao selecionar as candidatas. A vantagem, afirma, é a imensa quantidade de empresas de médio porte com bom potencial no Brasil. “Este é o país da média empresa com alto potencial de crescimento. Acredito que o Bovespa Mais pode ultrapassar os outros segmentos em até cinco anos”, afirma Álvaro Gonçalves.

Um dos desafios do Bovespa Mais é atrair empresas com faturamento de até R$ 100 milhões ao ano e disposição para fazer ofertas de ações em proporção substancial, mesmo se tratando de um mercado de acesso. O IPO da Nutriplant é um bom exemplo nesse sentido. Ela captou R$ 20,7 milhões, lançando 40% de seu capital no mercado, mas, ainda assim, o volume da oferta foi considerado baixo. Faturou R$ 35 milhões no último exercício fiscal, o mesmo patamar atingido por Esporte Interativo e Sênior Solution (a Le Biscuit não abriu o seu faturamento). Portanto, o mercado ainda aguarda o surgimento de uma empresa com potencial para uma oferta maior.

Para Lobo e Silva, um dos caminhos para facilitar o acesso das médias empresas ao segmento é reduzir os custos da oferta. Ele vê espaço para isso na simplificação dos prospectos, uma vez que o perfil de investidores tende a ser qualificado como no caso da Nutriplant. A empresa de fertilizantes vendeu suas ações para quatro fundos de investimento, um órgão público, um institucional estrangeiro, um clube de investimentos nacional e uma pessoa física qualificada — sem ofertas no varejo. “Esse deve ser um padrão de distribuição para as ações do Bovespa Mais”, diz Ronald Herscovici, sócio do escritório Souza, Cescon Avedissian, Barrieu e Flesch Advogados.

Por isso os advogados acreditam que o prospecto pode ser menos detalhado. “Já levamos à CVM a idéia de reduzir os prospectos sem, necessariamente, diminuir a qualidade das informações prestadas aos investidores. A autarquia se mostrou simpática à proposta e pediu mais dados”, completa. No caso da Nutriplant, foram gastos R$ 1,5 milhão na estruturação da oferta, pouco mais de 7% do volume captado — o mesmo patamar de custo registrado, em média, no Novo Mercado.

Consumo e tecnologia alavancam candidatas

A rede de varejo Le Biscuit é um típico caso de sucesso baseado no aumento do consumo das classes C e D, provocado pelo crescimento econômico. Com financiamento do BNDES e recursos próprios, vem se expandindo a passos largos. Em 2005, tinha três lojas e, desde então, inaugura duas por ano. A mais nova, a sétima, foi aberta este ano em Aracaju (SE). Cada uma delas exige investimento médio de R$ 3 milhões, segundo o presidente da empresa, Álvaro Sant’Anna.

Com 750 funcionários, a Le Biscuit revende 60 mil itens de papelaria, armarinho, decoração e utilidades domésticas. Investiu R$ 12 milhões em 2007 na montagem de um centro de distribuição de 23 mil metros quadrados em Salvador (BA). Com a captação que pretende fazer junto a fundos de private equity e no Bovespa Mais, Sant’Anna acredita que a rede chegará à trigésima loja dentro de cinco anos.

A Esporte Interativo também se beneficia do aumento do poder de consumo de massa. “Oitenta por cento da receita vem do nosso canal, que é um dos únicos de conteúdo 24 horas da banda C de televisão via satélite, sintonizada por meio de parabólicas”, afirma Edgar Diniz, presidente da empresa. “Só a Century, o maior fabricante, está vendendo 180 mil antenas parabólicas ao mês”, completa. Atualmente, a Esporte Interativo cobre 40% dos domicílios brasileiros (sobretudo no interior), sem contar a transmissão semanal na TV Bandeirantes, afirma Diniz.

Seu potencial de expansão está no aumento da distribuição do canal próprio, feita por meio de acordos com donos de emissoras de TV espalhadas pelo País que possuem concessão, mas não conteúdo. A empresa possui direitos de transmissão de eventos como os campeonatos italiano, inglês, alemão e português, além das eliminatórias européias. “Gastamos algo em torno de US$ 10 milhões ao ano em aquisição de direitos”, conta. A Esporte Interativo planeja usar os recursos da captação via abertura de capital na compra de mais direitos de transmissão. No ano passado, ampliou em 70% o faturamento.

Já a Sênior Solution cresce por meio da oferta de soluções integradas de softwares no mercado financeiro. Bernardo Gomes, seu presidente, conta que o segmento é muito diluído, com mais de 100 empresas pequenas. A estratégia da Sênior Solution tem sido investir em aquisições. Com os recursos de venture capital obtidos com um fundo da Stratus e um financiamento do BNDES, comprou quatro empresas desde 2005. “Estamos em estágio avançado de negociação para aquisição de outras oito”, afirma Gomes. A Sênior já apresenta soluções que integram 9 dos 11 segmentos do seu ramo. Das exportações, obtém 10% do seu faturamento. (R.K.)


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Tags:  Bovespa Mais bolsa de valores investimentos Private equity e venture capital Nutriplant Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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