Para longe do DI

Novas quedas na taxa básica de juros serão o ponto de partida para mudanças consideráveis na indústria de fundos de investimento

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 61 / 1 de setembro de 2008
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Poucos temas do mercado financeiro apresentam consenso maior que a taxa básica de juros (Selic). Apesar de ter subido de 11,25%, em abril, para 13% no fim de julho de 2008, economistas e investidores acreditam em sua queda no médio prazo. Pouco importa que a publicação Boletim Focus, do Banco Central, projete a taxa em 14,75% para dezembro. A crença na baixa em um horizonte maior é mais forte. Baseia-se na força dos preceitos econômicos do Brasil que propiciou, inclusive, o grau de investimento ao País.

Administrada pelo governo, a taxa de juros é a mais poderosa arma de controle econômico, justamente por suas conseqüências generalizadas sobre a economia. Há anos é a grande tônica da alocação de recursos pelos fundos de investimento. Sua queda recente produziu mudanças importantes, como a ascensão dos multimercados, o maior interesse dos fundos de pensão por ações e outros ativos de risco e a adesão a produtos mais apimentados como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).

É verdade que a taxa básica da economia brasileira ainda é uma das maiores do mundo. Mas isso só contribui para reforçar a perspectiva de novas quedas e mais novidades para os gestores de recursos. “Essa indústria foi construída a partir do DI”, constata Alexandre Póvoa, diretor do Modal Asset Management. E, ainda hoje, se sustenta nele. A maior parte do volume investido em fundos no País segue o indicador. Mas, quando o retorno da taxa Selic diminuir, investidores intensificarão o movimento em busca de ganhos maiores. É esse o ponto de partida das cinco tendências para a gestão de recursos no médio prazo apontadas pelo mercado.

1. Taxas menos salgadas
Sim, elas cairão mais. Com a taxa de juro menor, o retorno de fundos que tentam acompanhá-la também recuará. O custo do administrador no resultado ficará mais evidente, um forte incentivo para que o cotista procure na concorrência taxas mais atraentes.

O movimento será facilitado pelas ferramentas de comparação. Algumas já existem. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) disponibiliza em seu site, de forma gratuita e irrestrita, o Portal do Investidor. Nele, o internauta pode comparar os cerca de 7 mil fundos por quesitos como rentabilidade, valor mínimo de aplicação e taxas. Parte do movimento de queda nas taxas já começou. Pesquisa divulgada pela Anbid em abril deste ano, sob o título Taxas de fundos de varejo, atacado e exclusivos — um estudo comparativo, apontou a média de 2,22% nas taxas do varejo em 2007, enquanto, há sete anos, o número estava em 3,01%. As fontes ouvidas para esta reportagem apostam em taxas entre 2% e 1,5% até 2012.

Mas o que promete mudar o entendimento de cotistas sobre o produto que estão adquirindo são as novas regras de divulgação. Introduzidas em julho de 2008, elas obrigam os bancos a disponibilizar, através de cartazes em suas agências, informações dos fundos de investimento oferecidos. As instituições também deverão adotar o conceito internacional de suitability. A idéia é fazer sempre uma rigorosa pesquisa sobre o perfil do investidor, a fim de oferecer um fundo de investimento adequado às suas necessidades e expectativas.

Para Luiz Fernando Resende, vice-presidente da Associação Nacional dos Bancos Investimento (Anbid), o conceito de suitability vai emplacar não só para fundos, como também para outras formas de investimento oferecidas pelos bancos. “A atenção que os investidores prestam às aplicações crescerá junto com o acesso à informação.”

2. Espaço para as pequenas?
O recuo nas taxas de administração, ainda que não tão intenso, promete ser suficiente para provocar grandes reações na indústria. Se de 2001 a 2007 a média das taxas dos fundos de renda fixa no varejo caiu 26,6%, de acordo com a Anbid, e o número de gestoras só fez aumentar, a continuidade da queda vai provocar estragos nas pequenas gestoras dependentes das taxas.

“O recuo demandará tamanho maior para se manter”, analisa Póvoa, do Modal. Nesse cenário, a taxa de performance ganhará mais espaço no resultado das gestoras. O crescimento da indústria de gestão de recursos nos últimos anos inchou o mercado, mas nem todos os gestores têm se saído bem. “Muita gente vai ficar pelo caminho.”
E outros entrarão. Grandes bancos de varejo, hoje dominantes por força dos fundos DI que oferecem, terão de buscar produtos mais arrojados. A situação os obrigará a investir em especialização ou a terceirizar a gestão. Lá fora, grandes bancos como o Citibank optaram pela segunda opção e negociaram suas gestoras com grupos especializados. Com o aumento do interesse em ativos do País e nos clientes brasileiros, esses grupos deverão chegar por aqui. A falta de expertise será devidamente solucionada por meio de fusões ou aquisições de gestoras locais, que também poderão ser assediadas pelos bancos de varejo nacionais.

3. Expedições além-mar
Na penúltima semana de agosto, o Bradesco anunciou acordo com o Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ para oferecer, aos investidores residentes no Japão, cotas de um fundo de renda fixa totalmente exposto em ativos brasileiros. “Temos aliança parecida com uma instituição chilena”, diz Robert John van Dijk, diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (Bram). São investidores estrangeiros buscando retorno com quem tem expertise no mercado brasileiro. A novidade para o médio prazo, aponta Dijk, é que o tráfego do outro lado da via tende a se intensificar.

A mão dupla é permitida desde 2007, quando fundos brasileiros foram liberados pela Instrução CVM 450 a se expor em ativos estrangeiros. Aqueles com cotas para superqualificados — investidores com apetite superior a R$ 1 milhão — podem ter atuação exclusiva no exterior. Os multimercados em geral estão liberados a aplicar até 20% lá fora, e as estruturas restantes são livres para investir 10% em ativos estrangeiros. O mercado acredita na queda dessas barreiras em alguns anos.

Os lançamentos de produtos com esses perfis foram tímidos até agora, mas devem esquentar em breve. “As condições do mercado lá fora e o tempo para formar especialistas afetaram a criação de produtos”, diz Alexandre Silvério, superintendente de gestão de fundos do Santander. O executivo aponta a internacionalização como uma perspectiva forte para a gestão.

Num primeiro momento, os gestores tendem a buscar operações lá fora que tenham a função de hedge, para neutralizar o risco de suas operações no Brasil. Em seguida, virá o movimento mais acentuado, o de tomada de riscos no exterior com ações e renda fixa. A exposição trará contrapartidas que irão além do retorno financeiro. Será o início de um processo de conhecimento dos investidores institucionais sobre ferramentas mais sofisticadas, principalmente se levarmos em conta o fim previsto para os limites de atuação definidos pela regulação vigente, como o ticket de R$ 1 milhão exigido para estruturas 100% expostas no exterior. A familiarização do investidor brasileiro com instrumentos variados influenciará também a operação dos gestores nacionais, criando um cenário favorável para que repliquem essas operações com ativos daqui.

4. Cada macaco no seu galho
Para que todo o processo de aplicações no exterior aconteça, será necessário se especializar. O aumento na diversidade de ativos obrigará as instituições e os profissionais a se diferenciarem. “A escassez de instrumentos que temos hoje não se repetirá num ambiente com DI mais fraco”, diz Póvoa.

Algumas operações que ainda engatinham tendem a se destacar. O salto na concessão de crédito esquentou a estruturação de FIDCs, mas nada do que vimos se compara com o que acontecerá nos próximos anos, crêem os especialistas. O círculo virtuoso que eles esperam para o País no médio prazo será impulsionado por algumas áreas em especial. Por exemplo, o setor imobiliário. O volume dos registros de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) concedidos pela CVM cresceu 189% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado.

Para aproveitar o ensejo é preciso estar preparado. No caso do Bradesco, a aposta na especialização será dentro de casa. Dijk diz que a equipe de gestão vai cobrir os mais variados segmentos de produtos que interessam ao banco administrar. Ele desconsidera oferecer estruturas de terceiros aos seus clientes, embora destaque que há espaço no mercado para gestores independentes. Para estes últimos, porém, a necessidade de especialização será ainda mais crucial.

5. Dever de promover o ativismo
Roberto Knoepfelmacher é analista-chefe de uma gestora independente que optou por particularizar sua gestão. A GAS Investimentos aplica em empresas com perspectivas de retorno num prazo mais estendido que a média e busca melhorar as práticas das companhias. Nos últimos tempos, o analista-chefe percebeu mudanças na forma como os acionistas controladores tratam os investidores proativos. As sugestões de gestores como ele têm sido muito bem recebidas pelas companhias, garante.

“O ativismo veio para ficar”, afirma Knoepfelmacher. A crença é corroborada por mais gente. Para Dijk, a procuração eletrônica de voto, aprovada recentemente pela CVM, e facilidades tecnológicas afins contribuirão para o ativismo de gestores. Cada vez mais os profissionais farão valer o princípio fundamental de quem gere a poupança alheia: o dever fiduciário. “É a melhor defesa que o gestor pode fazer do mandato a ele concedido. O ativismo fará um bem generalizado ao mercado”, afirma.


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