Paixão por empreender e estudar

Jair Ribeiro

Legislação e Regulamentação/Temas/Retrato/Edição 71 / 1 de julho de 2009
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Alguém desavisado poderia achar que existem dois Jair Ribeiro. Não seria o primeiro caso de pessoas homônimas de destaque no meio empresarial, e o engano se justificaria: a trajetória de Jair Ribeiro da Silva Neto de fato pode induzir a erros. O jovem advogado que fez carreira no escritório Pinheiro Neto foi também o economista que fundou o Banco Patrimônio e o empreendedor que acaba de consolidar a maior empresa de serviços de Tecnologia de Informação do País, a CPM Braxis. Mas não acaba por aí. O Jair Ribeiro que chegou a ser sondado para presidente do Banco Central e o que criou a Casa do Saber, inaugurando um novo conceito de ensino para adultos, também são a mesma pessoa. Detalhe: ele só tem 49 anos.

Bastam alguns minutos de entrevista para o mistério em torno do currículo do empresário se desfazer. Longe de ser um profissional errante ou sem foco, Jair Ribeiro é alguém que sabe exatamente o que quer da vida: empreender e aprender. Apaixonado por seus projetos, dedica-se de corpo e alma a eles. E, da mesma forma, consegue vislumbrar o fim de seu ciclo pessoal em negócios que já alçaram voo próprio e partir para outra área de interesse. Sem olhar para trás.

No exercício proposto de olhar para trás, ao qual ele resiste (“Não gosto de falar sobre mim”), Ribeiro afirma que a sua vida seria bem diferente caso tivesse direcionado sua veia empreendedora apenas para a área financeira. “Eu tinha bagagem, e, em termos de retorno financeiro, poderia ser compensador. Mas quando voltei de meu período sabático, percebi que não queria empreender em banco novamente. Era o fim de um ciclo”, diz ele.

O sabático tornou-se uma espécie de urgência quando Ribeiro retornou de uma temporada em Nova York, em 2003, acumulando 20 anos de trabalho frenético. A carreira havia sido iniciada no escritório Pinheiro Neto, onde, depois de sete anos, se viu atraído pela possibilidade de participar de forma mais ampla dos processos de fusões e aquisições, que, como advogado, acompanhava apenas na fase de contratação. “Queria expandir a minha participação”, explica. Foi quando o conselho do pai de que estudasse simultaneamente Direito e Economia mostrou-se útil. Com apenas 27 anos, fundou, junto com Gianpaulo Baglioni, o Banco Patrimônio S.A., joint venture com o Salomon Brothers, que, 11 anos depois, seria vendida ao Chase Manhattan. Após a aquisição, ele trabalhou ainda quatro anos para a instituição, dois anos no Brasil e dois em Nova York.

No banco que presidiu e viu crescer (o capital do Patrimônio chegou a US$ 100 milhões em 1999, ano da venda), Ribeiro havia participado da montagem das áreas de fusões e aquisições, mercado de capitais, tesouraria, administração de recursos, private equity e private banking. Após a aquisição do banco JP Morgan pelo Chase, teve ainda a experiência de liderar a área internacional de renda variável do JP Morgan Chase, em Nova York. Por conta do currículo, na volta ao Brasil, Jair Ribeiro deparou-se com outra oportunidade: foi sondado para ocupar a presidência do Banco Central, na época em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva montava a equipe econômica de seu primeiro governo.

Ribeiro confirma a sondagem, mostra algum desconforto com o assunto e garante que sequer chegou a considerar a hipótese. “Não tenho vocação para o serviço público nem formação acadêmica para o cargo. Contribuo muito mais para a sociedade sendo gestor e empresário.” A convicção sobre suas vocações cresceu nos dois anos em que viveu o verdadeiro espírito sabático. “Li muito, tive aulas de ioga, de filosofia, tentei aprender a tocar violão. Só não viajei mais porque meus filhos estavam em São Paulo”, conta o empresário. As aulas de filosofia aconteciam em sua casa, entre taças de vinho, com um grupo de amigos cada vez mais numeroso e interessado. Foi quando o lado empreendedor despertou e Ribeiro teve a ideia de replicar aquele ambiente na Casa do Saber. “Considero quase uma obrigação conhecer a riqueza cultural que já foi produzida pela humanidade.”

Também nesse período, ele começou a maturar o projeto social Parceiros da Educação, que adotou 72 escolas públicas. A exemplo de outros empreendimentos, Jair Ribeiro cercou-se de sócios nos dois casos. “Nunca tive um voo solo. Preciso de parceiros para trocar ideias e compensar minhas falhas.” Depois de apostar – e novamente acertar – que o fluxo de comércio exterior cresceria fortemente no País, entrando na sociedade que formou a Sertrading, Ribeiro decidiu estudar o mercado de serviços de TI, na volta de uma viagem de férias à Índia. Surgia assim a Braxis, que ele presidiu nos últimos três anos, período em que foram adquiridas quatro empresas do setor.

Jair Ribeiro diz que a CPM Braxis, com 6 mil funcionários e faturamento de R$ 1 bilhão, ainda é um projeto nascente, base de uma companhia global de TI. Mas o fato de ter deixado a presidência para assumir uma cadeira no conselho de administração, no início do ano, pode significar que ele a considere mais um empreendimento que ganhou “vida própria”. A abertura de capital da CPM é prevista para 2010. Que outros projetos ele tem estudado, aproveitando o tempo livre na agenda? O empresário desconversa. Diz apenas que está fazendo aulas de fotografia. Pelo jeito, alguma coisa visionária vem por aí.

Rotina – “Detesto, mas sou um cara absolutamente normal”.
Como se informa diariamente – Lê três jornais pela manhã, em casa: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Valor Econômico. Não sofre com o excesso de informação. “Sou uma esponja e faço o que posso. No final, me divirto bastante.”
Atividade física – Tem uma academia montada em casa e faz musculação e aeróbica regularmente.
Tecnologia – É curioso com aparelhos novos e está fascinado pelo Kindle, leitor eletrônico de textos da Amazon que comporta até 1,2 mil livros. “Em 15 minutos, comprei 35 livros e agora estou lendo cinco ao mesmo tempo. A obra completa de Dostoiévski custou US$ 2. Coloquei até a Bíblia. Sou ateu, mas custava só US$ 0,99. Aproveitei para comprar os livros de business que gosto de reler.”
Livros de cabeceira – A obra do rabino Harold Kushner, biografias, livros de história. “Adoro livros, sempre quis ser dono de livraria (e conseguiu, na Casa do Saber).”
Uma admiração – Diz que Jorge Paulo Lehmann é inspirador; Jorge Gerdau se sobressai pela seriedade; e Roberto Campos foi um visionário. “Mas se tiver que destacar um, além de meu pai, seria o doutor (José Martins) Pinheiro Neto, uma referência em minha carreira. Ele tinha uma ética de trabalho muito forte e foi me visitar em Berkeley (Universidade da Califórnia) quando eu fazia mestrado.”
Maior vitória – O Banco Patrimônio. “Não foi só um projeto que deu muito certo, mas também algo que me dava prazer no dia a dia. A cultura interna era ótima.”
Maior fracasso – O projeto social desenvolvido em uma creche, na época em que trabalhava para o Chase. “O dinheiro sumiu e percebi que deveria ter feito uma investigação melhor do processo. Fracassos sempre estão relacionados à falta de diligência. Contar só com a intuição não funciona: é preciso de um trabalho de pesquisa e análise. Meus projetos agora têm, no mínimo, nove meses de gestação.”
Conselho para quem está começando – Achar a própria vocação. “É fundamental identificar seu talento e procurar maximizar essa natureza, sem se iludir pela possibilidade de status ou ganhos.”
Daqui a dez anos – “Com 59 anos, ainda estarei com muito gás, empreendendo. Minha preocupação é com os 70, quando não terei a mesma energia, mas outros interesses.”
Dez anos atrás – Estava vendendo o Banco Patrimônio para o Chase Manhattan.
Autoconhecimento – Passou a identificar melhor suas habilidades depois da “crise dos 40” e de estudar a teoria junguiana sobre “individuação” na Casa do Saber. “Terapia ajuda, ficar mais velho ajuda, filosofia ajuda.”
Talento que gostaria de ter – Ser escritor. “Dizem que escrevo bem, mas minha autocrítica é muito grande. Um escritor precisa ter a capacidade de produzir metáforas e desenvolver personagens, o que eu não tenho.”
Viagem marcante – Para a Índia. “Fui atrás da tal espiritualidade e não achei. Gostei de conhecer a filosofia vedanta, mas o impacto maior da viagem acabou sendo a ideia de fazer a Braxis.”



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