Os abacaxis da Bolsa

Por que algumas ações lançadas nos últimos anos oferecem péssimos retornos

Captação de recursos / Temas / Reportagem / Edição 73 / 1 de setembro de 2009
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Passado o período mais tenebroso da crise financeira, investidores que apostaram no boom de ofertas iniciais de ações (IPOs) ainda experimentam perdas assombrosas. De um total de 102 companhias que abriram o capital desde 2004, 67 estavam cotadas abaixo do preço do IPO até o fechamento de 27 de agosto. Na indesejada liderança dos prejuízos, estão companhias como Agrenco, Laep e Brasil Ecodiesel, com mais de 90% de desvalorização. Os motivos para o desempenho de empresas como essas são conhecidos: falhas de governança corporativa e problemas de gestão. Já outras companhias derrapam por razões menos óbvias.

Veja-se o caso das ações preferenciais do provedor de acesso à internet UOL. Dos sete IPOs realizados em 2005, elas são as únicas que não recuperaram o preço da abertura de capital, feita em dezembro daquele ano. Amargam uma desvalorização nominal de 56,73% (até o fechamento de 27 de agosto) e de 75,11% em relação ao Ibovespa. Pesa para isso, segundo analistas, o disclosure limitado da companhia. A empresa não detalha, por exemplo, seus ganhos com vendas de espaço publicitário. Esse dado é apresentado no balanço como “receita de publicidade e outras”. “Dentro desse bolo eu não tenho como saber quanto é permuta e quanto advém do lançamento de novos produtos”, diz Luciana Leocadio, chefe da área de análise da Ativa Corretora.

Relatório divulgado em maio pelo departamento de pesquisa do Bradesco destaca que, apesar de o UOL apresentar uma boa performance em sua receita — R$ 186,7 milhões no primeiro semestre de 2009, 53% maior que no mesmo período do ano anterior — , suas margens continuam pressionadas. Os gastos com vendas totalizaram R$ 85,9 milhões no primeiro semestre, 50% mais ante o mesmo período de 2008. Já as despesas gerais e administrativas alcançaram R$ 61,3 milhões, um aumento de 69%. “Devido à falta de transparência, é difícil prever se o impacto nas margens é ocasional ou recorrente”, dizem os autores do estudo.

O UOL atribui esse incremento nas despesas a um maior custo com equipes de vendas e a gastos com o desenvolvimento e o marketing de novos produtos. Em sua defesa, ressalta no balanço do segundo trimestre que “as despesas vêm se mantendo praticamente constantes nos últimos três trimestres”. A sensação de obscuridade cresceu ainda mais quando a companhia comprou a DHC Outsourcing, fornecedora de soluções de tecnologia da informação, e a Boldcron, especializada em sistemas de pagamento on-line. Em nenhum dos casos divulgou fato relevante para comunicar as aquisições. “Ficamos sabendo por um comentário no press release”, conta Luciana, da Ativa. “No balanço do primeiro trimestre, há apenas uma nota explicativa que cita o valor total a pagar pelas aquisições.”

Dos sete IPOs de 2005, as ações do UOL são as únicas que continuam bem abaixo do preço inicial

O descontentamento com essa falta de transparência ficou claro na seção de perguntas e respostas da teleconferência do quarto trimestre de 2008. Questionado sobre o motivo pelo qual não divulgou fato relevante no caso da DHC, Marcelo Epstejn, diretor geral do UOL, explicou que, na visão dos advogados que estruturaram a operação, essa era “uma aquisição importante, mas não significativa o suficiente para merecer um fato relevante”.

As receitas que a DHC e a Boldcron estão gerando não são reveladas pela empresa. Em teleconferência sobre os resultados do primeiro trimestre, Miguel Longo Junior, CFO e relações com investidores (RI) do UOL, justificou a omissão afirmando que não queria fornecer informações sobre o tipo de empresa em que o provedor está de olho. Na mesma ocasião, o executivo admitiu estar descontente com o preço baixo da ação na Bolsa. “Mas pelo menos hoje temos um processo para a aquisição de empresas, aquilo que a companhia se comprometeu a fazer na ocasião do IPO. Ou seja, nós vamos crescer, seja organicamente ou via aquisições.” O UOL não aceitou o pedido de entrevista feito pela reportagem da CAPITAL ABERTO.

TEMPO FECHADO — Quem também tem desapontado os investidores é a Tempo Participações, que atua nos segmentos de administração de planos de saúde e odontológicos e de serviços para seguradoras. Do IPO em dezembro de 2007 até 27 de agosto último, as ações da companhia apresentam perda de 57,29%. Em relação ao Ibovespa, o tombo foi de 55,71%.

A própria administração tem noção de que o céu anda nublado para os papéis da Tempo. Em outubro de 2008, a companhia procurou despertar o interesse dos investidores aprovando seu primeiro programa de recompra de ações, com duração até novembro daquele ano. Ao todo, foram adquiridas 8.168.500 ações, totalizando um investimento de R$ 22,2 milhões. Porém, como a cotação não recobrou o ânimo, a solução foi partir para a segunda fase do programa, com duração de um ano. Até o segundo trimestre de 2009, 6,3 milhões de ações foram recompradas, o que representou um investimento de mais R$ 18,1 milhões.

A Nutriplant sofre com a liquidez minguada. Seus papéis giraram apenas R$ 98 mil em 12 meses

Os resultados da companhia não são dos melhores. Apesar de ter aumentado sua receita líquida em 11% no segundo trimestre, a geração de caixa — medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) — caiu 8,8%, para R$ 17,2 milhões. O lucro líquido, por sua vez, foi de R$ 9,7 milhões, um recuo de 24,3% ante o mesmo período do ano anterior.

O resultado foi impactado por despesas operacionais, decorrentes, principalmente, do plano de opções de ações e de despesas com a integração de empresas adquiridas. Segundo Iago Whately, analista da Fator, a companhia tem passado por momentos desafiadores nos três setores em que atua. “No segmento saúde, ela perdeu beneficiários com as demissões e o menor ritmo do mercado de trabalho no País. No odontológico, tem enfrentado uma concorrência muito grande e, no segmento de assistência, perdeu seu maior cliente, que era o Bradesco.”

Composto das operadoras Odonto Empresa, Prevdonto e Gama Odonto, o negócio de planos odontológicos sofre de um problema extra. Em agosto, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) instaurou regime de direção fiscal na Gama Odonto, em função de anormalidades econômico-financeiras e administrativas graves que colocam em risco a continuidade do atendimento. Em comunicado ao mercado, a Tempo afirmou que a medida está relacionada à aquisição da Associl, ocorrida em 2007. “Essa, com certeza, é uma notícia bastante negativa para as ações da companhia”, afirma Whately. Dependendo da situação encontrada, o diretor fiscal nomeado pela ANS pode afastar e responsabilizar criminalmente administradores, conselheiros e demais responsáveis, além de transformar a fiscalização em liquidação extrajudicial, caso fique constatada a inviabilidade de recuperação da operadora.

Outro fator atrapalha a vida dos investidores da Tempo: a demora na entrega dos demonstrativos financeiros. Segundo documentos arquivados no site da BM&FBovespa, a companhia, pertencente ao Novo Mercado, foi multada por atrasar a liberação do relatório de informações anuais (IAN) de 2007, os balanços do primeiro e do terceiro trimestres de 2008, e as demonstrações financeiras padronizadas do último exercício social. O balanço do primeiro trimestre de 2009 saiu só em julho.

SOLO INFÉRTIL — Além de sofrerem com a queda livre nas cotações, algumas empresas convivem com uma liquidez irrisória de suas ações. Única companhia listada no Bovespa Mais, segmento feito sob medida para empresas com menor volume de negociação, a fabricante de fertilizantes Nutriplant vive praticamente na seca. Nos últimos 12 meses, a contar do dia 14 de agosto, as transações com ações da empresa somaram apenas R$ 98 mil. É menos, por exemplo, que o volume girado pelas ações da esquecida fabricante de bicicletas Monark no mesmo período (R$ 106 mil).

Esse é apenas um dos motivos que a ajuda a entender por que a cotação da Nutriplant veio ladeira abaixo — uma retração de 74,90% desde o IPO. Os resultados da companhia também não colaboram. O faturamento líquido, no primeiro semestre deste ano, caiu 35,8%. Só no segundo trimestre, as receitas recuaram 19,9%, para R$ 6,7 milhões. Até o Ebitda ficou vermelho em R$ 1,8 milhão no segundo trimestre — pior que os R$ 600 mil negativos do mesmo período do ano anterior.

As despesas operacionais, porém, apresentaram melhora. Passaram de R$ 2 milhões no segundo trimestre de 2008 para R$ 1,7 milhão entre abril e junho de 2009. O endividamento bancário da empresa também foi menor. Caiu de R$ 18,3 milhões em 31 de março de 2009 para R$ 12,1 milhões em 30 de junho de 2009.

Resta saber como o mercado de fertilizantes vai reagir nos próximos trimestres. A companhia trabalha com a expectativa de que os prejuízos dos primeiros seis meses deste ano possam ser compensados, em grande parte, até dezembro de 2009. “Diferentemente de 2008, em que o produtor rural antecipou suas compras para março, esse ano ele preferiu aguardar, seja por conta da crise ou porque o crédito rural não chegou na velocidade esperada”, afirma Sandro Saboia, relações com investidores da Nutriplant.

INCERTEZAS NO AR — O Sol também não está brilhando para as ações da Metalfrio, uma das maiores fabricantes mundiais de equipamentos de refrigeração comercial, com operações na Europa, América do Norte e Brasil. Em comparação ao preço do IPO, ocorrido em abril de 2007, as ações recuaram 68,86% (até 27 de agosto). Comparada ao comportamento do Ibovespa nesse intervalo, a variação fica negativa em 74,45%.

Colaborou para esse cenário o agravamento da crise mundial em 2008, já que 60% da receita da Metalfrio vem de suas operações no exterior. O quarto trimestre, que costuma ser o melhor para a companhia, apresentou uma redução nas vendas de 12,4% em relação ao mesmo período de 2007. A situação continuou ruim no primeiro trimestre deste ano. O número de equipamentos vendidos diminuiu 22,6% ante igual período de 2008. Além disso, a desvalorização das moedas do México, da Turquia e da Rússia, países onde a empresa concentra suas unidades estrangeiras, contribuiu para o prejuízo de R$ 17,2 milhões no período.

A Metalfrio não fez vistas grossas ao problema. Tomou uma série de medidas para aumentar a eficiência de suas fábricas e conter os custos fixos. Os efeitos já podem ser percebidos nos resultados deste segundo trimestre. No período, a companhia reportou lucro líquido de
R$ 20 milhões, ampliando a lucratividade, o Ebitda e a geração operacional de caixa, apesar de o volume de negócios ter sido quase 20% inferior em comparação ao mesmo trimestre do ano passado. “Estamos certos de que tomamos as providências necessárias para melhorar os fundamentos da companhia e voltar a atrair investidores”, afirma Luiz Eduardo Moreira Caio, diretor de RI.

Apesar dos resultados positivos nesse trimestre, os analistas do banco de investimento Merrill Lynch se mantêm cautelosos e avaliam as ações da Metalfrio como “underperform”. “Até obtermos sinais mais claros de recuperação da demanda e virmos mais trimestres de controle de gastos, preferimos não mudar nosso rating”, afirmam em relatório emitido no mês de agosto.


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