Opiniões de valor

Ana Novaes

Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 63 / 1 de novembro de 2008
Por 


“Se saiu de Recife e chegou a um doutorado em Berkeley, essa mulher deve ter alguma coisa a dizer.” Foi dessa forma, imaginando o preconceito virado pelo avesso, que Ana Novaes se sentiu acolhida na Universidade da Califórnia, quando lidou com o primeiro ambiente totalmente masculino na sua carreira, aos 24 anos. “Sempre que existe um olhar diferente, é possível transformar isso em vantagem”, afirma Ana. Mal sabia ela o quanto aquele aprendizado — no doutorado em economia, como única mulher, ou mesmo antes, no convívio com os três irmãos homens, quando os debates sobre política faziam parte do jantar — seria útil no futuro.

Ana acabaria desbravando um novo caminho, em 2002, ao se tornar a primeira integrante independente do conselho de administração de uma companhia do Novo Mercado. A empresa era a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), que tem no controle acionário grandes empreiteiras brasileiras. “Na primeira reunião, eu era um peixe fora d’água. Além de única mulher, não era do setor. Mas eles queriam fazer uma operação com dívida em dólar e comecei a dar minha opinião. Eu não iria discutir sobre uma contratação de asfalto, por exemplo. Mas passei a ser escutada em assuntos do mercado e percebi que a companhia era seriíssima.”

Assunto de mercado é com Ana mesmo. Ela dedicou-se à macroeconomia no início da carreira, mas já tinha interesse pelo mercado de capitais desde cedo. Sua dissertação de mestrado, na PUC do Rio, foi sobre as empresas estatais na bolsa de valores brasileira. Ela se recorda de quando, em 1985, entrou na agência do Itaú que ficava dentro da universidade e disse que queria investir em um fundo de ações. Pelo estranhamento que provocou, Ana brinca que deve ter sido a primeira investidora. “Depois, a bolsa subiu, por causa do Plano Cruzado, e com aquele dinheiro eu pude fazer o doutorado nos Estados Unidos, junto com uma bolsa do CNPQ.”

Depois de uma breve temporada lecionando macroeconomia na Universidade Federal de Pernambuco, Ana foi selecionada para trabalhar no Banco Mundial, em que ficou por quase cinco anos. Teve experiências em diferentes países do terceiro mundo, com direito a treinamento em francês para atuar na região do subSaara africano. “Ao longo da vida fui aprendendo que estudar nunca é demais”, diz a economista, que, aos 40 anos, decidiu fazer uma faculdade de direito, concluída no ano passado. “Assim como o francês me ajudou em outros trabalhos, o direito está sendo muito útil na carreira de conselheira de administração.”

Foi por conta da postura crítica que a economista tornou-se conselheira profissional, quando era diretora de investimentos da Pictet Modal Asset Management. Depois de argüir duramente os representantes da CCR, nas apresentações do lançamento de suas ações no Novo Mercado, ela acabou sendo uma das poucas gestoras de recursos a adquirir os papéis da companhia. “Eu acreditei no projeto”, conta ela. Uma vez convidada, seu nome acabou conferindo ainda mais credibilidade ao conselho de administração da empresa. Mais tarde, viriam também convites para os conselhos da Grendene e da Datasul.

Antes de ser conselheira, Ana já tinha uma sólida experiência no mercado. Quando voltou ao Brasil, trabalhou como analista de investimentos do Banco Garantia, no qual se destacou por acompanhar a privatização do setor de telecomunicações e antever dificuldades que seriam encontradas durante o processo. “Primeiro, tive a sorte de trabalhar com uma das poucas analistas de bolsa da época, a Sônia Villalobos. Depois, como estava acostumada a dissecar a legislação dos setores no Banco Mundial, eu consegui fazer isso aqui com facilidade. Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, diz ela.

É assim, atribuindo seus acertos à sorte de um treinamento ou à ajuda de um colega, que Ana vai conquistando a simpatia e o respeito da platéia, seja em uma apresentação ou no debate travado com outros conselheiros. A habilidade social ela credita à família numerosa, com avô político, mãe economista e pai profissional da área de seguros. Mesmo quando pretende ser firme e objetiva, Ana se reconhece usando os artifícios que aprendeu para lidar com a multiplicidade de opiniões e culturas. É assim, por exemplo, que ela interrompe uma explanação, durante uma reunião do conselho, diante de um discurso empolado e pouco claro. “Gente de mercado e advogados adoram falar floreado, mas comigo isso não funciona. Pergunto: veja se eu entendi, e traduzo em um linguajar que os outros compreendam. Provavelmente, não sou a única com dúvidas. Os homens, em geral, não gostam de admitir que não entenderam.”

Por essas e outras, Ana acredita que o trabalho dos conselheiros de administração, mais do que nunca, tornou-se fundamental para garantir as boas práticas de governança corporativa. Além da CCR, ela integra hoje o conselho da CPFL Energia e é consultora do comitê de auditoria da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). “Cabe aos conselheiros, por exemplo, questionar as receitas financeiras muito acima do justificado pelo caixa da empresa. Essas operações que apareceram em companhias brasileiras (com derivativos alavancados) certamente levariam bomba nos conselhos dos quais participo.”

Uma vitória – Ser a primeira conselheira independente do Novo Mercado, na CCR, e ter sido chamada por Dionísio Dias Carneiro para ser sócia na Galanto Consultoria.
A crise serve para… – Depurar o mercado de seus falsos gênios e favorecer o nascimento de uma nova ordem econômica.
Regulação ou auto-regulação – Os dois têm papéis importantes na sociedade. “No mercado financeiro, regulação em excesso faz com que as pessoas usem a criatividade”.
Fontes de informação – Seminários na Casa das Garças e The Economist, para as informações mais qualificadas. No dia-a-dia, Valor Econômico e sites da Bloomberg, CNN, Top Money e Google Finance. Em revistas, Capital Aberto e publicações do CFA Institute.
Trabalho no fim de semana – “Tenho um acerto com o meu marido para trabalhar das 9h às 20h, de segunda a quinta-feira. Sexta, às 12h, vou para Petrópolis.”
Livros de cabeceira – “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, e “Os irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoiévski. “Atualmente estou lendo um manual sobre IFRS e um livro light sobre fusões e aquisições — uma leitura mais agradável, para me divertir.”
Uma admiração – Pedro Malan. “Por tudo que fez para o Brasil, por sua competência e retidão. Além das qualidades como diplomata, economista e político, ele foi o grande modernizador do papel do Estado na economia brasileira.”
Tecnologia – “Estou adorando o iPhone. Tenho a minha agenda no celular e posso acompanhar o mercado de ações.”
Dez anos atrás – Era diretora de investimentos do Pictet Modal Asset Management.
Daqui a dez anos – “Espero fazer o mesmo de hoje, com a mesma tranqüilidade e alegria.”
Rotina – Trabalho em casa e viagens freqüentes. “São Paulo uma vez por semana é obrigatório para quem mora no Rio.”
O que a tira do sério – O atendimento das concessionárias de serviços públicos. “Outro dia o meu telefone ficou mudo e travei um diálogo inacreditável com a Oi.”
Cuidado com a saúde – Alimentação com baixo colesterol, ginástica localizada e caminhada duas vezes por semana em Petrópolis.
Saia-justa – “Uma vez encontrei o meu chefe na rua com duas crianças pequenas e elogiei os netinhos dele. Só que eram os filhos.”
Conselho para quem está começando – Fazer o que gosta e ser bom nisso.
Sonho de consumo – Poder manter o mesmo padrão de consumo na velhice.
Batalha pessoal – “Fazer com que a justiça seja feita no caso da morte de minha mãe. Ela foi contaminada por soro em um hospital de Recife, junto com outras pessoas. O processo civil já tem dez anos e não foi dada nem sentença de primeiro grau, por causa da pressão política.”
Mania – Pontualidade. “Mas não sofro com os atrasos dos outros. Se sei que a pessoa não é pontual, levo o meu jornal”.
Para relaxar – Caminhar em Petrópolis e tomar uma taça de vinho com os amigos.
Uma paixão – “Meu marido”.
Se pudesse escolher um talento – Saber tocar um instrumento musical.
Comportamento ético é – Respeitar o próximo.
Se você soubesse que o mundo ia acabar amanhã – “Eu ia lamentar profundamente, mas ia morrer feliz”.



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