Operação resgate

Empresas buscam soluções criativas para amenizar a queda do volume de negócios na bolsa de valores

Captação de recursos / Relações com Investidores / Temas / Reportagem / Edição 67 / 1 de março de 2009
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Aclamados no auge dos IPOs, os investidores estrangeiros abandonaram bruscamente o barco das companhias novatas em meio às tormentas do pregão. O impacto, claro, foi desastroso. Das 104 empresas que chegaram à bolsa nos últimos quatro anos, 38 giram hoje menos de R$ 500 mil por dia com suas ações. Dessas, apenas seis estavam nesse mesmo patamar de negociação quando ingressaram na Bovespa. O desempenho da construtora Even retrata bem a queda da liquidez. No segundo trimestre de 2007, quando chegou ao mercado, movimentava, em média, R$ 6,7 milhões por dia. No acumulado deste ano, despencou para R$ 491 mil.

Cientes da gravidade do problema, as companhias começam a lançar mão de estratégias para salvar a liquidez. Reverter os números é uma missão impossível para as áreas de Relações com Investidores (RIs), pois a recuperação depende da melhoria do cenário global. Mas há algumas medidas que podem atenuar os efeitos. A rede de ensino Kroton — dona, dentre outros, do colégio Pitágoras — viu o seu volume de negociação cair de R$ 3,5 milhões, em julho de 2007 (quando fez o IPO), para a média atual de R$ 447 mil por dia. “Estamos trabalhando para diversificar o perfil da base de acionistas”, diz Thiago Ribas, gerente de RI. Há espaço para a empreitada. Hoje, os investidores pessoa física não somam 2% do free float da empresa, enquanto os estrangeiros ainda concentram mais de 80%.

Para conquistar a pessoa física, a Kroton tem atuado em várias frentes. A principal delas é a aproximação com corretoras e analistas de investimento focados nesse segmento. Os esforços para tornar a rede conhecida aumentaram. No planejamento para este ano, estão agendadas oito reuniões Apimec (no ano passado foram apenas três) e previstos 300 encontros com potenciais investidores (em 2008 foram 200), além da segunda edição do Kroton Day (abertura da empresa para visita in loco dos potenciais acionistas). Na lista também está planejada a participação em eventos realizados em parceria com corretoras.

EXPANDINDO HORIZONTES — Para reforçar o giro dos papéis, Dóris Pompeu, sócia-diretora da consultoria Global RI, recomenda a busca de investidores pessoa física. Essa turma tem uma participação cada vez mais expressiva no pregão. Em janeiro, ocupava a segunda posição, com 33,46% do volume total dos negócios, ante 29,5% em dezembro. A liderança, neste período, continua com os investidores estrangeiros (34,1%), mas agora a diferença entre os dois é menor. Para chegar até a pessoa física, o melhor caminho, confirma Dóris, é por meio das corretoras de varejo. Mas são várias as possibilidades de se buscar uma liquidez razoável, e o momento exige proatividade. “Há casos de companhias que estão fazendo roadshows e sendo recebidas por grandes investidores. Alguns deles nem podem comprar small caps, mas são formadores de opinião no mercado”, diz a consultora.

Na Rodobens, a estratégia do departamento de RI é literalmente colocar o pé na estrada. A média de 20 reuniões mensais com investidores está mantida, mas com um detalhe: a maioria é agendada pela própria empresa, ao contrário do que acontecia antes da crise, quando a solicitação vinha de fora. Os executivos não poupam esforços para se apresentarem aos potenciais aplicadores. “O CEO tem participado das visitas e já conseguimos alguns resultados positivos”, conta Orlando Viscardi Neto, diretor de RI da Rodobens. Houve até retornos imediatos. “No mesmo dia do encontro, um investidor emitiu ordens substanciais de compra”, recorda. As aquisições não revertem o cenário de baixa liquidez. Mas a participação, principalmente, dos gestores de fundos nacionais tem ajudado a movimentar os papéis neste momento. Basta ver os números. Até novembro de 2008, a negociação com as ações da Rodobens era, em média, de R$ 1 milhão por dia. Em dezembro caiu para R$ 350 mil e, no acumulado de fevereiro, subiu para R$ 800 mil.

Pode soar contraditório, mas o momento é considerado propício para as companhias novatas diversificarem a base de acionistas atraindo novos. Como os IPOs foram dominados por estrangeiros, sobretudo norte-americanos, e o preço das ações foi inflado pela demanda elevada, muitos aplicadores ficaram de fora. Na lista dos excluídos estão os gestores nacionais e os gringos fora do eixo tradicional de Estados Unidos e Europa. “Após a crise, aplicadores da Ásia, da Europa Oriental e do Oriente Médio começaram a aparecer”, diz o gerente de RI de uma companhia de médio porte que preferiu não se identificar. “Eles estão interessados em small caps brasileiras”, completa. Outro profissional, de uma empresa do setor de construção civil, confirma a tendência e aumenta o mapa dos acionistas-alvo: “Há espaço entre os investidores dos países da América Latina.”

Com cerca de 90% da base de acionistas composta de estrangeiros, a construtora MRV não abre mão das conferências organizadas pelos bancos para manter um bom relacionamento com os já conhecidos investidores internacionais. “Temos feito contato com países que não estavam na nossa base de dados e alguns já firmaram posição”, diz Leonardo Corrêa, diretor de RI da companhia, referindo-se especialmente à Ásia.

Corrêa observa, no entanto, que o número de ações da empresa negociadas diariamente não sofreu grande deterioração. “Foi a desvalorização da cotação do papel que fez com que os volumes diários fossem reduzidos”. Segundo o levantamento da Economática, a MRV negociava, em média, R$ 17,1 milhões por dia no quarto trimestre de 2007, quando estreou na bolsa. A cifra correspondia a cerca de 658 mil ações movimentadas diariamente. Hoje, a MRV encara um número menos animador: R$ 6,1 milhões — que, ponderados pela cotação do último dia 16 de fevereiro, correspondem a 530 mil ações por dia. É nessas horas que todo esforço para aumentar o giro dos negócios é bem-vindo.

Recompra de ativos é medida anticrise
Ao mesmo tempo em que buscam atrair novos investidores, as companhias novatas seguem compradoras de suas próprias ações. Segundo dados da CVM, cerca de 40 programas de recompra encontram-se em andamento, e outros 39 foram efetivados desde o início do ano passado. A recompra é uma maneira de mostrar ao mercado que o ativo está subavaliado. O recado é claro: se a companhia compra as próprias ações, é porque acredita no potencial do papel. Há também um efeito prático. Ao tirar ações de circulação, a empresa reduz o free float, o que pode elevar o pagamento de benefícios como os dividendos ou simplesmente aumentar o valor por ação.

Valter Faria, da CorpBrasil, acredita que a companhia precisa cumprir três requisitos mínimos para usar esse artifício. O primeiro deles é ter sobra de caixa e nenhum outro destino mais interessante para aplicar os recursos. O segundo é uma dívida alongada, que permita usar recursos do caixa para comprar as próprias ações sem comprometer as finanças. O terceiro é um bom histórico de relacionamento com o mercado — para que efetivamente transmita o recado de que acredita nos próprios papéis.

“Muitas das empresas não atendem ao perfil básico para realizar essas operações”, diz Faria. Para ele, na falta de previsibilidade atual, a recompra pode ser inócua, não ter efeito algum na cotação das ações. Por outro lado, Luiz Jurandir Simões de Araújo, consultor da Fipecafi Consulting, não vê motivos para deixar de aproveitar a chance de efetuar recompras se a situação da empresa comporta a medida. Edmar Facco, sócio da Deloitte, concorda. Segundo ele, a recompra, quando usada como alternativa à distribuição de dividendos, evita o reparte de lucros com acionistas que compraram as ações em bolsa a preço de banana. “A recompra ajuda a colocar ordem na casa”, diz.

A ABNote, uma das empresas que adotou a estratégia de recomprar ações e segue com um programa em andamento, afirma que não houve impacto nas cotações. A intenção da empresa, no entanto, é a de manter os papéis em tesouraria para cobrir planos de stock option ou usar as ações como moeda de troca em uma eventual aquisição. “A recompra é uma boa ferramenta, mas temos a convicção de que, neste momento, também é importante privilegiar a formação de caixa”, diz Carlos Affonso D’Albuquerque, diretor de RI.


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