Olfato aguçado

Voluntários são treinados pela Fibria para detectar os odores estranhos emanados de seu processo industrial

Especial / Governança Corporativa / Temas / Reportagem / Sustentabilidade – Coletânea de Casos / 1 de abril de 2011
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A existência de uma fábrica perto de casa tem vantagens e desvantagens. Arrumar um emprego próximo, evitando trânsito e gastos com condução, é, sem dúvida, um dos benefícios. Mas há também a possibilidade, mais comum, de incômodos, como barulho excessivo, fumaça e cheiro desagradável. Na fabricação de papel e celulose, por exemplo, há a formação de substâncias que exalam odores por todo o perímetro da fábrica. Em condições meteorológicas normais, eles podem alcançar um raio de três quilômetros. Já no inverno ou em períodos de inversão térmica, a dispersão de odores pode se estender a distâncias ainda maiores. Para manter a situação sob controle e garantir que qualquer anormalidade possa ser rapidamente detectada, a Fibria, maior fabricante de celulose de eucalipto do mundo, decidiu pedir ajuda aos moradores de áreas adjacentes às suas fábricas.

A ideia foi concretizada com a criação de Redes de Percepção de Odores (RPOs), nas três unidades da Fibria: em Jacareí e Piracicaba, ambas em São Paulo; e em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. A RPO de Três Lagoas, iniciada em janeiro de 2010, reúne 75 voluntários de vários pontos da comunidade, capacitados para registrar e transmitir à empresa informações sobre a percepção de odores emanados do processo industrial. “Com a RPO, a própria comunidade detecta locais em que o odor está mais forte e nos avisa. Quando isso acontece, alertamos a operação da fábrica que providencia melhorias nos processos”, explica Umberto Cinque, gerente de meio ambiente industrial da Fibria.

Para ingressar no programa, os voluntários, batizados pela empresa de ecoagentes, passam por cursos similares ao de um sommelier. Recebem vidros com diversos aromas para reconhecer um cheiro e a sua intensidade. O treinamento é conduzido por funcionários das áreas de saúde, segurança e meio ambiente da Fibria. Os ecoagentes também visitam as fábricas para se familiarizar com os aromas do processo industrial de papel e celulose. Caso percebam alguma alteração no ar, podem entrar em contato com um canal de comunicação gratuito (0800), criado especialmente para receber chamadas da comunidade. “Nunca liguei para lá, mas sei de amigos que já fizeram isso e puderam contribuir para a redução do odor”, conta Lucy Aparecida Nogueira, integrante da RPO de Três Lagoas desde maio de 2010.

“A diversidade dos voluntários é uma das riquezas do programa, que busca treiná-los a preservar o meio ambiente”

Comerciante aposentada, Lucy, de 55 anos, se interessou em participar da rede por sentir que, às vezes, um cheiro diferente saía da fábrica. Intrigada, quis saber mais sobre o assunto. Foi ver a instalação da Fibria e passou por um programa de capacitação. “Aprendi sobre a fábrica e pude conhecer melhor os aromas.” Recentemente, Lucy contribuiu para orientar e acalmar os moradores do entorno da Fibria, preocupados com um aumento do odor na região. “Na rádio, falava-se em vazamento. Mas, na verdade, as condições climáticas tinham dificultado a dispersão dos odores”, esclarece Lucy. Na época, os jornais locais chegaram a noticiar que haveria uma nuvem radioativa sobre a cidade. “Os participantes da RPO ajudaram a divulgar as informações corretas e a desmistificar o processo”, lembra Cinque.

A rede de controle externa tem tido êxito também em Jacareí, região do Vale do Paraíba. Entre maio e julho, período em que a inversão térmica costuma agravar a dispersão dos odores, os integrantes da RPO municiam a empresa com informações sobre a intensidade dos aromas em cada parte da comunidade. Com os dados em mãos, a empresa traça uma rota do odor. “Isso permite ajustes operacionais, para que a emissão seja menor e a dispersão, mais rápida”, diz Cinque.

A iniciativa de formar as RPOs surgiu em 2005, na unidade de Jacareí, quando executivos da Votorantim Celulose e Papel (que futuramente se uniria à Aracruz para constituir a Fibria em 2009) criaram a figura dos ecoagentes. Atualmente, os moradores aliados à companhia no combate à poluição e ao mau cheiro chegam a 170. Não há limite de idade, nem pré-requisitos para ser um ecoagente. Dentre os integrantes da iniciativa, estão adolescentes, jovens, adultos e aposentados. A profissão dos voluntários também varia bastante. Há desde estudantes e professores até pescadores e mecânicos — ocupações que refletem o perfil das comunidades em que as unidades da Fibria estão instaladas. “A diversidade é uma das riquezas do programa, que busca sensibilizar, conscientizar, treinar e comprometer essas pessoas para que possam estimular a preservação ambiental. A ideia é que se tornem multiplicadores de conhecimento e atuem como críticos construtivos da nossa participação nessas comunidades”, avalia Cinque.

Ações de engajamento da comunidade local na estratégia de sustentabilidade corporativa são vistas com bons olhos pelos especialistas. “A conversa com todos os stakeholders é uma peça essencial da governança. As companhias devem ir além do diálogo comercial, buscando ouvir o lado de quem é impactado pela operação da indústria”, reforça o professor de sustentabilidade da Faculdade Trevisan, Roberto Gonzalez.


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Tags:  Fibria sustentabilidade responsabilidade social Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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1 comentário

May 29, 2016

Moro no parque Califórnia em Jacareí, e hoje dia 29 de maio de 2016 as 22:54 esta um mau cheiro insuportável, acho lamentável passar por isso, não é a primeira vez, com certeza os donos da empresa não moram nas proximidades! Fico indignada, imagina quem mora mais perto, falta de respeito ao próximo, não acho que estas medidas estão sendo suficientes, assim nos diz o dia de hoje. Ai fica a pergunta em nome do lucro e do “progresso” vale tudo? Vale a pena não pensar no próximo!? E este mau cheiro além de incomodar seria prejudicial ao meio ambiente e a nossa saúde? A claro dirão que não…..lamentável…..



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