Obsessão por acertar

Anderson Birman

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 92 / 1 de abril de 2011
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Sob a luz dos refletores, Anderson Birman leva uma vida luxuosa, frequentando eventos de moda e cercado por artistas que estrelam as campanhas publicitárias da Arezzo. Sua belíssima mulher, Maythe, ajuda a atrair os flashes e o interesse em torno da história de sucesso que ele não cansa de compartilhar. Longe da badalação, porém, Birman revela as características pessoais que de fato contribuíram para a trajetória vitoriosa da empresa, e que jamais interessariam às revistas de celebridades, como a sua insatisfação crônica. “Já gastei horas de terapia tentando tirar isso de mim, mas resolvi ser feliz assim mesmo. É um desejo contínuo de melhorar.” Na Arezzo, isso se traduziu em mudanças de rota e constantes reinvenções. “A cada problema que detectava no travesseiro numa noite, eu acordava com uma solução no dia seguinte.”

Em um país como o Brasil, com uma história econômica instável, dá para imaginar a quantidade de problemas — e noites insones — desde 1972, ano da fundação da fábrica de sapatos masculinos em Belo Horizonte, até o mais bem-sucedido IPO na bolsa de valores deste ano. As ações da Arezzo subiram 20% nos dois primeiros meses de negociação no pregão, em fevereiro e março. Sorridente nas colunas sociais e preocupado ao pousar a cabeça no travesseiro, Birman permaneceu atento, e forte, nesses 38 anos. A cada pacote econômico, mudança cambial ou transformação no setor calçadista, a estratégia de negócios era adaptada — começando pelo foco no mercado masculino, que só durou dois anos. Provavelmente, a mais importante das mudanças.

“Quando se entra nos mistérios da mulher e no fetiche do sapato feminino, descobre-se um mundo cheio de possibilidades”, diz o presidente executivo e do conselho de administração da Arezzo. Essa mulher quase indecifrável, que Birman observa de esguelha até na fila do cinema, quer encontrar diferentes modelos de sapatos nas lojas, por exemplo. Por isso, a Arezzo oferece cinco novos pares diariamente. Conta com 70 fábricas terceirizadas no Rio Grande do Sul e uma rede de 280 lojas franqueadas. A antiga unidade fabril de Belo Horizonte foi fechada em 1993, depois de 1.500 demissões e “nenhuma ação trabalhista”.

Birman fala da guinada rumo ao varejo e da mudança de sede para São Paulo sem dar mostras do saudosismo que costuma acompanhar os mineiros mais apegados à família. “A missão de empresariar é um pouco missionária”, justifica. “Mas ainda tenho raízes profundas em Minas Gerais”, reconhece, lembrando que a mãe mora na capital mineira. Dona Ruth, de 84 anos, convidada especial da abertura simbólica da Arezzo na Bolsa, recebe toda noite um telefonema do filho caçula pedindo a benção. “Não rompi o cordão umbilical até hoje”, brinca. “Considero o mais sagrado dos vínculos.”

Foi o pai, um técnico em estradas que queria ver o filho engenheiro, quem deu o dinheiro para ele e o irmão Jefferson abrirem o negócio de sapatos. Traumatizado com as perdas que teve no crash da Bolsa de 1970, esperava que o investimento garantisse o futuro dos filhos. Anderson tinha apenas 18 anos. A faculdade de engenharia civil, na Universidade Federal de Minas Gerais, jamais seria concluída. “Depois de nove anos, fui jubilado”, conta. Em compensação, aos 30 anos, Anderson Birman era um empresário de sucesso, com todos os seus sonhos de consumo realizados. “Eu já tinha uma casa grande, barco, avião. Como realizei isso muito cedo, percebi que o sucesso manifestado em resultados é um desafio maior do que o próprio dinheiro.”

Se já era obsessivo por resultados e nunca estava satisfeito com o que conquistara, a abertura de capital só potencializou seus sentimentos. “Muda tudo”, diz ele. “Primeiro, porque houve uma precificação. De alguma forma, toda a minha história foi monetizada. Óbvio que fiquei satisfeito com o valor e o reconhecimento, mas agora existe o compromisso de sustentar isso e não decepcionar os sócios. O nível de comprometimento aumenta muito.” A pressão, porém, não chega a assustá-lo, por um simples motivo: “A essência da companhia está em movimentos estratégicos certos, e isso eu me julgo muito apto a fazer. Não prometi nada que já não tivéssemos planejado”.

Birman planeja o tempo todo. Desde que começou a ler sobre gestão e contratou o seu primeiro consultor, em 1985, faz reuniões de planejamento estratégico. De certa forma, conta ele, o IPO estava previsto desde aquela época, quando já publicava balanços e submetia seus números a auditorias internacionais. A entrada da gestora de recursos Tarpon, que comprou 25% do capital em 2007, pavimentou de vez o caminho para a Bolsa de Valores. “Só demoramos porque sempre fui conservador. Conservador no modelo de negócios e agressivo nos objetivos. O que nos protegeu, todos esses anos, foi que eu nunca trabalhei para ganhar dinheiro, mas para não quebrar.”

O presidente da Arezzo havia planejado, também, o que diria na entrevista à CAPITAL ABERTO, por saber do cunho mais pessoal da conversa. É raro um entrevistado admitir isso. Ele pensou, pensou (“Não tem jeito, fico ligado absolutamente em tudo para poder fazer da melhor forma”) e percebeu a dificuldade que teria em responder sobre seus hobbies. A pergunta ainda não havia sido feita. “Concluí que o meu principal hobby é trabalhar. A família e o lazer andam junto com o trabalho.” Isso significa não ter hora para sair do escritório? Nem tanto. Na véspera, por exemplo, Birman havia chegado em casa a tempo de assistir à novela e à final do Big Brother Brasil. Então ele não preferia ir a uma festa? “Não, adoro ser comum. A cada dia aprecio mais a simplicidade. Mas sei que é um desejo luxuoso, antagônico ao sucesso.”




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