O sociólogo do mercado

Geraldo Soares

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 77 / 1 de janeiro de 2010
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Na véspera da divulgação dos resultados de 2008, o superintendente de RI do Itaú Unibanco, Geraldo Soares, saía do escritório às 3h30 da madrugada. Estava um pouco irritado com o fato de ter de retornar apenas algumas horas depois, mas não se sentia cansado. Em boa forma física e com fama de hiperativo, ele faz parte do grupo de apaixonados que releva uma noite mal dormida diante da oportunidade de trabalhar no que gosta. O entusiasmo, porém, não o protegeu do acidente: quando viu a carreta vindo em direção à roda dianteira do carro, numa esquina da avenida Ricardo Jafet, em São Paulo, já não era possível recuar.

As fraturas lhe valeram duas semanas de imobilidade na cama, dois meses e meio de licença médica e outros quatro meses e meio de fisioterapia. A ideia de divulgar um fato relevante, prontamente rechaçada por Soares do hospital, não chegava a ser descabida: a legião de amigos espalhada pelo mercado, fruto de uma década de convivência e admiração por seu trabalho no banco e de dois anos à frente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), telefonava sem parar atrás de notícias.

Totalmente recuperado — de volta, inclusive, à academia, que frequenta à noite —, o executivo admite ter retomado o ritmo de trabalho habitual, esforçando-se apenas para não mais sair de madrugada do escritório. “Não consigo evitar ser comprometido com as coisas e com as pessoas”, diz Soares, que, em pleno mês de férias, aproveitava o “tempo livre” para dar esta entrevista e fazer os despachos de fim de mandato no Ibri. Ele não só não viu sua vida toda passar num flash — pergunta que muitos fizeram depois — como aumentou o número de cigarros após o acidente. “Fumo e curto fumar”, afirma. A terrível experiência, no entanto, não lhe poupou de experimentar uma tristeza profunda, sentimento que até então desconhecia. “O sofrimento que causei nas pessoas mexeu muito comigo. Não consigo esquecer o rosto da minha esposa quando me viu.”

O súbito desejo de recolhimento — “dei uma sumida do mercado” — surpreendeu o próprio executivo, que sempre teve gosto e facilidade para se relacionar. Quando se refere ao primeiro contato com o mercado de capitais, ele atribui a habilidade para lidar com os colegas administradores e economistas à sua formação universitária. “Talvez por ser sociólogo, eu conseguia visualizar o grupo e me relacionar com todos, o que também ajudava a superar os meus gaps”, diz Soares, referindo-se ao curso no Comitê de Divulgação do Mercado de Capitais (Codimec). Depois, pensando melhor, ele lembra que já na adolescência em São José dos Campos, onde a casa era frequentada por políticos e repórteres do jornal em que o pai trabalhava, conseguia transitar por ambientes diferentes e se dar bem em todos eles. “Ensinava xadrez para um fotógrafo do jornal”, diz, rindo da recordação.

Mas como um sociólogo, que cresceu entre 5 mil livros e discussões sobre filosofia e teatro em casa, foi parar em um curso de formação para o mercado de capitais? Talvez a explicação venha desse mesmo ambiente familiar, já que o pai também tinha interesses variados: além de jornalista, era empreendedor e aplicava em ações. A opção pela área de humanas foi natural — “Gostava de história e geografia no colégio; li Dostoiévski e Tolstói com 14 anos” —, mas, ao chegar à Unicamp, ele acabou se matriculando também em matérias eletivas de outras faculdades, como ciências políticas e economia. “Queria aproveitar ao máximo: dormia pouquíssimo, fazia cursos nas férias e me formei em três anos e meio”, conta. “Ao estudar teoria marxista na faculdade de economia, percebi por que a sociologia não conseguia explicar todos os movimentos. Com a bagagem sociológica, mais a economia, eu buscava compreender melhor o mundo.”

Na época da formatura, surgiu o impasse de que rumo seguir. As experiências de estagiário na prefeitura e bolsista do CNPQ tinham mostrado que áreas como pesquisa e serviço público eram “muito paradas”. Já o mercado de capitais continha os movimentos da sociedade e da economia que tanto o fascinavam, além do dinamismo indispensável para aplacar a sua inquietude. Para completar, o Codimec tinha ares de desafio: era preciso passar na prova e depois superar os “gaps” em matérias como contabilidade e matemática financeira. “Foi o melhor curso que fiz na vida”, diz.

Geraldo Soares foi o primeiro sociólogo a entrar no Codimec e também no programa de trainee do Itaú, onde a carreira decolou rapidamente, depois de um mestrado em contabilidade e controladoria na USP. Com quatro anos e meio de banco, era gerente de custos, ao mesmo tempo em que preparava apresentações para os primeiros roadshows no exterior, devido aos seus conhecimentos sobre mercado de capitais.

O executivo fala com saudosismo daqueles primeiros contatos com investidores, em 1995, assim como do pioneiro site de RI, que ele montou depois de assumir a superintendência da nova área, em 1999. “Sempre busquei ser inédito, ver o que ninguém via. Ter a oportunidade de ser criativo é fundamental.” Ele reconhece, porém, as dificuldades desse caminho: “Primeiro, é preciso estudar muito. Não existe o insight sem um profundo conhecimento. Depois, há o risco. Acho que arrisco um pouco.” O mercado tem demonstrado que aprova o arrojo do superintendente. Mas prefere que ele evite cruzamentos perigosos de madrugada.

3X4

Rotina – Começou a retomar, depois do acidente. Acorda às 7h30, toma café com a esposa e segue direto para o banco, a 15 minutos de seu apartamento. “Leio os jornais no escritório e acumulo uma pilha de revistas especializadas para o fim de semana.” Às 21h, vai para a academia.

Atividade física – Faz academia de três a quatro vezes por semana. “Nadei dos 4 aos 18 anos porque tinha bronquite e depois continuei fazendo esportes.”

Hobby – Ler livros. “Já li muito os clássicos e agora prefiro as biografias. Os amigos me presenteiam e leio tudo que cai na minha mão, da vida de Napoleão à de Beethoven.” Recentemente, gostou do livro de Saulo Ramos, Código da vida, e do de Alan Greenspan, Era da turbulência.

Fim de semana – Adora ficar em casa, lendo jornais até tarde, fumando e vendo filmes. Visita os pais com frequência. “Gosto muito de conviver com eles, damos muita risada juntos.”

Um projeto pessoal – Escrever livros. Depois de um guia de RI, em parceria com o jornalista Rodney Vergili, está escrevendo um livro com as histórias de quatro investidores. “São pessoas comuns, com personalidades e culturas diferentes, que atingiram o seu objetivo financeiro sem seguir fórmulas. A ideia é mostrar que não existe um padrão e questionar a cultura de autoajuda que está surgindo no mercado.”

Conselho para quem está começando – Ser determinado. “Com determinação você consegue vencer os seus gaps, buscar o seu sonho e eliminar os problemas.”

Há dez anos – Estava iniciando a área no RI do banco Itaú, como superintendente.

Daqui a dez anos – Imagina-se como um investidor. “Depois dos livros, tenho o sonho de ter uma propriedade rural. Meu pai já teve uma e eu nasci em Salesópolis (interior de São Paulo), embora tenha ido para São José dos Campos com três anos. Visito muitas propriedades e sempre estou buscando um negócio no interior.”

O que o tira do sério – Falta de gentileza. No caminho para a entrevista, tinha chamado a atenção de um grupo de rapazes que entrava no metrô, sem dar passagem para duas mulheres que tentavam sair. “Falei: deixem as pessoas sair primeiro, que falta de educação.” Na véspera, tinha se irritado com um homem que esbarrava a mochila em todo mundo no elevador comercial. “Comecei a dar cotovelada na mochila.”

Para relaxar – Suar na academia.

Um defeito – “No acidente, percebi que só peço ajuda em última instância”. Apesar da dor, ele saiu sozinho do carro, ligou para a companhia de seguros e quis fazer o boletim de ocorrência na delegacia. Só aceitou a ambulância depois de muita insistência do policial.

Um guru – O pai é uma “referência forte”, por ter lhe dado parâmetros na vida, mas não costuma se inspirar em pessoas. “Minha maneira de agir é sempre muito refletida, a partir de visões diferentes. Sou um libriano típico, às vezes fico em cima do muro mesmo.”

Uma vitória – Quando estava na sexta série ganhou a final de um campeonato de xadrez contra um garoto do terceiro ano colegial. “Tinha 13 anos e foi uma conquista fenomenal”.

Uma derrota –Parou de jogar xadrez aos 15 anos, quando começou a treinar em um clube e percebeu que “não era tão bom assim”. “Com a natação foi parecido: desisti depois que um campeão de nado de costas me desafiou e ganhou de mim. Foi humilhante: ele estava com as pernas amarradas.”




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