Na crista da onda

Depois de muitos altos e baixos, analistas de investimentos ganham o status que merecem e perspectivas de crescimento promissoras

Captação de recursos/Reportagens/Edição 45/Temas / 1 de maio de 2007
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Nas duas últimas décadas, os analistas conhecidos como sell side embarcaram na montanha-russa do mercado de ações. Entre a inflação de 365%, em 1987, e o atual boom de ofertas iniciais de ações (IPOs), uma fileira de crises internacionais — da “tequila mexicana” à recessão argentina — pisoteou a carreira desses profissionais que atuam nas equipes de vendas de ações, estudam os papéis e fazem recomendações aos investidores. Em 2002, no auge do tremor provocado pelo efeito Lula, o chefe de análise da corretora paulistana Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa, pensou até em abandonar a profissão. “De cada dez colegas meus, dois permaneceram”, diz. Porém, de 2003 para cá, a curva se inverteu. A explosão de IPOs resgatou os analistas dos escombros, tornando-os figura disputada por corretoras, assets, bancos e empresas estreantes no mercado de capitais.

A história de Barbosa ilustra bem o sopro de ar fresco que invade as áreas de pesquisa. Em 1997, ele tinha perdido o emprego em meio à crise na Ásia. Quando chegou à Coinvalores, em 1998, inaugurou sozinho o departamento de análise. Suava a camisa para acompanhar o desempenho de apenas 40 empresas, boa parte delas de telecomunicações. Atualmente, lidera uma equipe de quatro analistas que ficam de olho em cerca de 150 companhias de perfis diversos como agronegócios e saúde. Com a estréia de novos segmentos na bolsa, a complexidade das carteiras aumentou. “Meu maior desafio é compreender como uma Odontoprev, uma construtora ou uma empresa de médio porte ganha dinheiro”, conta Barbosa, citando a única operadora de planos de assistência odontológica listada na Bovespa.

Com tanto agito, é fácil compreender a falta de profissionais especializados. Além do aumento da demanda, houve a seqüela deixada pelos tempos de baixa. “Uma geração inteira de profissionais não foi formada”, avalia o chefe de análise da Bradesco Corretora, Carlos Firetti. Segundo ele e outros gestores, há carência de profissionais que tenham, pelo menos, quatro anos de experiência. Ou seja, justamente aqueles que poderiam ter iniciado a carreira em 2001 ou 2002, época para lá de desfavorável a novas contratações.

Outra razão veio com a Instrução 388 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de 2003. A partir dela, só o detentor do Certificado Nacional do Profissional de Investimento (CNPI), obtido por meio de exame, pode atuar como analista sell side. A prova acontece somente a cada seis meses, e seu conteúdo não é nada simples de encarar. “Do jeito que está desenhado, o exame está mais para uma certificação de excelência do que para um teste de conhecimento mínimo”, compara Firetti. O Instituto Brasileiro de Certificação dos Profissionais de Investimento (IBCPI), o órgão examinador, informou que havia em março deste ano 747 profissionais autorizados a atuar no sell side. “Hoje, o analista certificado tem emprego garantido”, diz o diretor geral do instituto, Haroldo Levy.

SALÁRIOS MAIS ALTOS — A oferta de vagas, claro, fez a remuneração subir. “Pela primeira vez no Brasil, analistas chegam a ganhar tanto quanto em Nova York ou em Londres”, diz o chefe de análise da Unibanco Corretora, Carlos Constantini. Marcelo Mariaca, sócio-diretor da Mariaca, consultoria especializada no recrutamento de altos executivos, cita os números: “Nos grandes bancos, os mais jovens recebem salários de R$ 4 mil a R$ 5 mil”. Isso sem contar os bônus, que variam de 30% a 40%. Em posições de liderança, estimam-se ganhos a partir de R$ 10 mil mensais. Com os IPOs em alta, esses profissionais podem também olhar além das fronteiras das corretoras e prospectar uma vaga em departamentos de Relações com Investidores, administradoras de recursos e bancos de investimento. “Os analistas estão sendo muito assediados por fundos de private equity”, diz a consultora especializada em recolocação profissional Eliete Gomes, da DBM do Brasil.

Eliete faz um alerta aos analistas que desejam migrar para essa área. Geralmente, o salário fixo tende a ser mais baixo do que nas corretoras, mas a parcela variável é maior. Além disso, cabe ao profissional observar se tem familiaridade com os mercados nos quais o fundo está investindo. Vontade de aprender, dialogar e trabalhar em equipe são pré-requisitos básicos. Aliás, engana-se quem pensa que o trabalho de analista é solitário. Reuniões com investidores, visitas a empresas e viagens, inclusive para o exterior, fazem cada vez mais parte da agenda. Por isso, saber lidar com pessoas, ser um comunicador habilidoso e atender bem o cliente são características indispensáveis. “Além de ter paixão pelo que faz, o analista precisa ter o foco no cliente, pois não adianta ser o melhor tecnicamente e não saber lidar com ele”, aconselha o presidente da Itaú Corretora, Roberto Nishikawa.

Mais do que nunca, exige-se do analista um conhecimento amplo do mercado de ações. É preciso estar atento a tudo o que acontece e ter grande disposição para estudar. Para tirar essa conclusão, nem é preciso voltar tanto no tempo. Há dez anos, quem se preocupava em avaliar a governança corporativa de uma companhia? “Antes, o analista se concentrava em uma ou outra empresa. Agora tem de conhecer várias de um mesmo setor, além de companhias de outros segmentos”, diz Haroldo Levy. Segundo ele, há uma carência de mão-de-obra qualificada para desvendar setores como agronegócios, serviços e tecnologia. O investimento na formação, portanto, deve ser ininterrupto. Marco Aurélio Barbosa, da Coinvalores, por exemplo, engatou seu segundo MBA, desta vez em finanças, pelo Ibmec São Paulo. O primeiro foi em mercado de capitais pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). “O analista tem de estudar para conseguir pegar uma notícia e traduzi-la em algo mensurável”, explica.

Tanto o Ibmec quanto a Fipecafi estão entre as instituições nacionais mais bem conceituadas pelo mercado. Outra forma de lustrar o currículo são as certificações internacionais. A mais respeitada delas é o CFA, do norte-americano Chartered Financial Analyst Institute. Na última década, o número de candidatos brasileiros ao CFA saiu de menos de 100 para a faixa de 600, segundo Alexander Carpenter, vice-presidente da CFA Society of Brazil, que congrega 180 “diplomados”. Semanalmente, o grupo recebe entre uma e duas ofertas de vagas por e-mail (às empresas, a dica: o endereço é flavia.saade@cfasociety. org.br). Para fazer parte desse seleto clube, o caminho é longo: são necessários, no mínimo, quatro anos de experiência e um investimento de 500 a 1.000 horas de estudo para passar nos exames, aplicados em etapas, ao longo de três anos.

Antes, o analista se concentrava em uma ou outra empresa. Agora tem de conhecer várias de um mesmo setor, além de companhias de outros segmentos

Levantamento divulgado em 2005, conduzido pela empresa norte-americana de pesquisa de mercado Harris Interactive, a pedido do CFA Institute e da headhunter Russell Reynolds Associates, indicou que portadores do CFA nos Estados Unidos, por exemplo, recebem, em média, 35% a mais que os não-certificados. Não há dados sobre o Brasil, mas sabe-se que a certificação é muito bem recebida pelos empregadores. “É uma mostra de que o analista está bem preparado”, diz Carlos Constantini, da Unibanco Corretora. “Mas eu não deixaria de contratar uma pessoa que demonstrasse conhecimento só por ela não ter MBA ou CFA.” A graduação, em si, tem pouco peso na hora da contratação. Os candidatos vêm de faculdades variadas, como economia, administração, engenharia e ciências contábeis.

ESTAGIÁRIOS — Agora, devido à lacuna no mercado, até os não-graduados entraram na mira das empresas. Pensando na formação de analistas a médio prazo, a Itaú Corretora contratou nove estagiários no fim do ano passado. Eles passam por um programa de treinamento e têm plano de carreira, que inclui a possibilidade de atuar no exterior. “Esses jovens sabem em que nível estarão em dois ou três anos se tiverem um desempenho muito bom”, diz o presidente da corretora, Roberto Nishikawa. No mês de abril, a empresa contava com um time de 25 analistas, além de estagiários, e estava entrevistando mais candidatos. Na Bradesco Corretora, o cenário também é de expansão. A equipe é composta por sete analistas seniores e oito assistentes. Segundo o chefe de análise da Bradesco, Carlos Firetti, há expectativas de novas contratações.

Outros vêm investindo nos profissionais de análise há mais tempo. É o caso do Banif, que saiu de cinco analistas, em 2004, para 15 atualmente, conta a analista-chefe da Banif Corretora, Catarina Pedrosa. A carreira dela, inclusive, de 22 anos, é um retrato dos altos e baixos do mercado de trabalho para analistas no Brasil. Catarina perdeu o emprego duas vezes — uma em 1987, logo após o Plano Cruzado, e outra na crise asiática. Chegou até a ficar dois anos fora da área, mas não desistiu. Hoje, é uma otimista. “O mercado deve crescer até o Brasil conquistar o investment grade, pelo menos”, prevê. Aos analistas, resta torcer para que a subida na montanha-russa realmente continue.

Consultor também serve para dizer não

Uma prova do aquecimento do mercado para o analista de ações é a corrida pela certificação. A Instrução 388, de abril de 2003, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), tornou obrigatório o registro profissional de todo analista, nacional ou estrangeiro, dedicado à cobertura de empresas brasileiras. Esse registro só pode ser validado mediante a obtenção do Certificado Nacional do Profissional de Investimento (CNPI). Para receber o certificado, é preciso ser aprovado num exame aplicado pelo Instituto Brasileiro de Certificação dos Profissionais de Investimento (IBCPI), vinculado à Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). Em 2003, houve apenas uma inscrição para as provas. No ano seguinte, quando a instrução da autarquia entrou em vigor, foram 16. Em 2005, 70 e, no ano passado, 135.

Mas os profissionais do mercado não estão nada contentes com as novas regras. “Sentimos a pressão dos analistas e eles estão no direito deles”, afirma a presidente da Apimec, Lucy Sousa. Uma das reclamações é quanto ao fato de as provas ocorrerem somente em dois períodos (março e setembro) — freqüência que, na opinião dos analistas, não é suficiente para atender à oferta de novas vagas de trabalho. Além disso, o conteúdo é considerado demasiadamente complexo e abrangente. É cobrado um conhecimento que nem todo analista precisaria ter. Nos Estados Unidos, há certificações específicas para cada campo de atuação (análise de ações, crédito, dívida, etc.). Outra diferença daquele país é a realização diária dos exames.

Até 30 de abril de 2004, e, depois, entre 7 de dezembro de 2004 e 31 de março de 2005, analistas que comprovassem experiência profissional na área de pelo menos dois anos eram dispensados do exame e recebiam o certificado automaticamente. Dos 747 analistas registrados na CVM em dezembro de 2006, cerca de 700 se enquadraram nesse perfil, segundo o diretor-geral do IBCPI, Haroldo Levy. “Mesmo não sendo intencionalmente, a CVM criou uma reserva de mercado”, diz o chefe de análise da Unibanco Corretora, Carlos Constantini. “A regra foi criada quando o mercado ainda era pequeno e estava voltando a se expandir”, acrescenta Carlos Firetti, da Bradesco Corretora.

Constantini, por exemplo, viu-se numa situação complicada. Morava em Nova York e nem ficou sabendo que a norma havia sido criada. “Quando voltei, há dois anos, tive de enfrentar um ‘carnaval’ de provas.” O índice de reprovação no exame de setembro de 2006, composto por uma prova de conhecimentos sobre o mercado brasileiro e quatro de conteúdo global, ficou em torno de 40%. O conteúdo nacional inclui áreas como sistema financeiro, legislação societária, contabilidade, análise de investimentos, economia, governança corporativa e ética empresarial. Nas provas de conteúdo global, preparadas na Suíça, há ainda análise de variação de renda variável e fixa, derivativos e administração de recursos. Está em fase de estudo o projeto de produção dos testes de conteúdo global por especialistas locais, o que poderá torná-los mais adequados a olhos brasileiros.

O IBCPI sinaliza outras mudanças. Em junho, passará a realizar as provas de conteúdo local trimestralmente e, até 2008, planeja fazer o mesmo para os testes de conhecimento internacional. O Instituto também está negociando, com a norte-americana Nasd, um convênio para que profissionais registrados por lá sejam autorizados a receber o CNPI. Assim, analistas estrangeiros tarimbados que se dedicam à cobertura de empresas brasileiras sairiam da irregularidade. Um problema ainda sem solução é o sistema de registro da CVM, que só aceita analistas com CPF. Por todas essas questões, segundo o superintendente de Relações com Investidores Institucionais da CVM, Carlos Sussekind, a autarquia deve revisar a Instrução 388 até o fim da gestão do seu atual presidente, Marcelo Trindade, em julho. (D.G.)


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