Muitas cabeças pensam melhor?

O debate sobre a qualidade das decisões tomadas em grupo em relação às individuais

Bimestral/Governança Corporativa/Governança/Temas/Edição 88 / 1 de dezembro de 2010
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O relatório Hampel de 1998 é considerado o primeiro documento de governança a enfatizar o papel duplo dos conselhos de administração: além da prestação de contas e da supervisão da gestão diária, a responsabilidade pela geração de valor por meio de melhores decisões de negócio começava a ser exigida. Portanto, a lógica para a valorização do papel dos conselhos nos anos que se seguiram, em todo o mundo, decorreu não apenas do objetivo de melhorar o monitoramento dos executivos, mas também em função da filosofia de que decisões complexas tomadas em grupo serão melhores do que as individuais. As evidências científicas sustentam essa ideia?

O vencedor do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz foi um dos primeiros a estudar essa questão do ponto de vista teórico no fim dos anos 80, em parceria com Raaj Sah. Eles concluíram que as decisões tomadas por grupos deveriam ser mais moderadas do que as tomadas por indivíduos. Por meio de um modelo geral e aplicável a qualquer forma de organização, o estudo afirma que as decisões coletivas têm vantagem em relação às individuais na rejeição de propostas ruins, ao passo que as individuais levam vantagem na aprovação de propostas boas.

A chave para o entendimento desse raciocínio está no necessário consenso ou compromisso entre membros de um grupo — mais facilmente atingido quando são excluídas propostas extremas, sejam elas boas ou ruins. Logo, as decisões coletivas tenderiam a ser mais moderadas do que as tomadas individualmente devido ao chamado “efeito da diversificação de opiniões”. Em trabalho subsequente, os autores observaram ainda que as organizações com processos decisórios mais concentrados em uma única pessoa deveriam apresentar maior variabilidade de desempenho ao longo do tempo, principalmente em momentos de seleção e troca de lideranças.

Os primeiros testes empíricos da teoria de Stiglitz e Sah ocorreram no campo político. Um dos principais trabalhos foi feito pelos brasileiros Heitor Almeida e Daniel Ferreira, em 2002. Após analisarem dados de 138 países de 1960 a 1989, os autores concluíram que nações mais autocráticas apresentaram maior volatilidade nas suas taxas de crescimento que as democráticas. Observaram ainda que os Estados mais autocráticos se destacavam tanto na relação dos países com melhor desempenho econômico, quanto na lista dos com pior, novamente corroborando a ideia de que estão mais expostos às idiossincrasias de seus líderes, as quais podem ser muito positivas ou negativas para o crescimento econômico. As democracias, por sua vez, tendem a ser mais estáveis graças à propensão para moderação de conflitos sociais decorrente do maior compromisso entre seus cidadãos.

Outro teste interessante foi conduzido em 2003 pelos pesquisadores Brad Barber, Chip Heath e Terrance Odean. Os autores compararam as decisões de 166 clubes de investimento em relação às tomadas por 79 mil pessoas físicas no mercado acionário norte-americano. Como principal resultado, observaram que os primeiros (grupos) atribuem um peso bem maior a razões concretas (tais como a obtenção de prêmios por uma determinada empresa ou a divulgação de relatórios favoráveis por analistas) para compra de ações do que os indivíduos. Grupos parecem necessitar bem mais de razões justificáveis do ponto de vista racional na seleção de ações. Segundo os autores, isso é consequência da dinâmica social para a tomada de decisões em grupo, a qual tende a enfatizar a existência de bons argumentos para alcançar consenso. Curiosamente, entretanto, os clubes de investimento, em média, não obtiveram retornos superiores em relação aos investidores individuais no estudo em questão: eles apenas se preocupavam em ter razões factuais para justificar suas decisões.

Recentemente, os pesquisadores Renée Adams e Daniel Ferreira forneceram mais uma evidência importante sobre o tema. Ao analisarem cerca de 300 mil apostas coletivas ou individuais de um jogo popular disputado anualmente no Alasca, concluíram que as decisões em grupo são mais previsíveis e moderadas do que as tomadas individualmente. Para esses autores, isso ocorre porque os membros precisam chegar a um acordo entre si ou porque indivíduos com opiniões extremas têm menos chance de pertencer a grupos.

A discussão possui implicações óbvias para a temática da governança. As companhias tendem a ter um “líder empresarial”, geralmente traduzido na figura do CEO. Quanto mais forte o líder em relação ao board, mais as decisões em uma determinada empresa se assemelharão a decisões tomadas por indivíduos. O inverso também é verdadeiro. Um conselho mais ativo e independente tende a fazer com que as principais decisões de uma empresa sejam de fato tomadas por um grupo. Como resultado, espera-se que as companhias sujeitas à menor concentração de poder nas mãos de indivíduos específicos tomem decisões mais moderadas e incorram em menor volatilidade, tanto ao longo do tempo quanto em comparação a outras empresas.

Os brasileiros Heitor Almeida e Daniel Ferreira foram novamente pioneiros nessa investigação. Em um estudo de 2005, observaram que companhias com CEOs mais poderosos tendem a sofrer maior variabilidade em seu desempenho financeiro. Como forma de mensuração do poder do CEO, os autores levaram em consideração o acúmulo do cargo de presidente do conselho, seu status como fundador da empresa e sua presença como único executivo no board. Seus resultados se mostraram particularmente relevantes nas companhias de setores com alta discricionariedade gerencial, tais como as de software e serviços.

Outros estudos, no entanto, têm questionado a ideia de que empresas com CEOs mais poderosos tendem a ser mais voláteis. Em 2008, três pesquisadores de Harvard chegaram a encontrar resultados opostos aos dos brasileiros ao utilizarem uma medida de poder do CEO que leva em consideração sua remuneração em relação ao montante pago a todos os diretores da companhia. Os autores interpretam seus resultados como uma tendência de CEOs poderosos levarem a empresa em “banho-maria” a fim de manter o status quo e evitar riscos excessivos que poderiam levar à sua demissão.

A questão, portanto, permanece em aberto no mundo acadêmico. Dentre as limitações dos trabalhos realizados na área até o momento, duas se destacam: (i) a desconsideração da dinâmica de funcionamento dos conselhos de administração e de sua diversidade nas análises realizadas; e (ii) a ausência de uma discussão mais profunda sobre a questão do poder nas organizações empresariais.

Em relação à primeira limitação, diversos trabalhos da psicologia social mostram que grupos com determinadas características podem desenvolver vieses coletivos negativos para a qualidade de suas decisões. Destacam-se, dentre eles, os riscos da ausência de diversidade de visões de mundo e experiências entre os membros, que podem levar ao reforço excessivo de pontos de vista internos em detrimento de evidências do mundo exterior (viés de groupthink). Destaca-se também o risco da pressão social pela conformidade com o grupo a fim de evitar confrontos. Essa posição pode levar certos membros a apoiarem sem questionamento a visão de outros integrantes que aparentem deter mais informação a respeito de determinadas matérias (viés das “cascatas informacionais”).

Quanto à segunda limitação, os estudos realizados até o momento pressupõem que o CEO é sempre o líder a ser usado como ponto de referência, o que nem sempre é verdade. Além disso, as métricas adotadas para medir o nível de concentração de poder nas empresas podem ser consideradas simplistas e superficiais. Tendo em vista a importância dessa limitação, esta coluna explorará futuramente, em maior profundidade, a questão do poder nas organizações empresariais, incluindo novas formas para sua mensuração.


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