Moedas em pé de guerra

Como o câmbio se tornou uma arma contra a estabilidade político-econômica mundial

Gestão de Recursos/Temas/Prateleira/Edição 108 / 1 de agosto de 2012
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Quando se fala em controle de preços, minha geração sempre se lembrará do Plano Cruzado de 1986 e dos “fiscais do Sarney” — como foram apelidados os consumidores que denunciavam reajustes nos valores marcados nas etiquetas do produtos. Foi com certa surpresa que soube da mesma experiência na terra do capitalismo, em um passado não muito remoto. Em 1971, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, impôs controles de preços e deu fim ao padrão ouro vigente desde o Tratado de Bretton Woods, de 1944, que fixava o valor do dólar em US$ 35 por onça de ouro (o equivalente a 28,7 gramas). Ao permitir que a moeda flutuasse livremente, o objetivo da medida foi a desvalorização do dólar — algo fundamental para a indústria exportadora norte-americana, que sofria com uma inflação doméstica resultante de estímulos econômicos voltados ao financiamento da guerra do Vietnã.

Currency Wars, de James Rickards, apesar de escrito do ponto de vista do dólar, consiste em uma interessante narrativa sobre a história do papel-moeda, começando nos idos de 1920. Desde aquele tempo, quando o dólar norte-americano emergiu como a moeda dominante no comércio internacional, o mundo testemunhou ao menos duas “guerras cambiais”. Atualmente, presenciamos o que pode ser considerada a terceira guerra, caracterizada pelo esforço de diversos governos de manterem suas moedas artificialmente baratas em relação às outras. A história ensina que esse tipo de tática sempre acaba mal: moedas entram em colapso, ativos são congelados, ouro é confiscado, etc.

O câmbio é uma variável fundamental na condução de políticas econômicas de um mundo globalizado. Países com economias em dificuldades são tentados a desvalorizar suas moedas a fim de se tornarem mais competitivos em suas exportações, alavancando a indústria nacional em detrimento dos importados, que ficam mais caros. Essa lógica poderia funcionar bem, desde que, parafraseando o saudoso Garrincha, “se possa combinar com os russos”. Nada impede que os parceiros de negócios do país desvalorizador façam o mesmo ou imponham barreiras comerciais, neutralizando o efeito. Desvalorizações são instrumentos para roubar crescimento dos outros e servem como um perigoso substituto para a elevação da produtividade, a chave para um crescimento econômico sustentável.

Rickards descreve as fontes de pressão atuais sobre o dólar norte-americano e como as autoridades governamentais estão despreparadas para enfrentar essa ameaça. Imagine um cenário em que a China e a Rússia anunciem um acordo para realizar o comércio entre si usando suas próprias moedas com lastro em padrão ouro. Essa alternativa fez parte de simulações coordenadas por Rickards e patrocinadas por agências como a CIA, com envolvimento de autoridades civis e militares norte-americanas. Nessa hipótese, a supremacia mundial do dólar como moeda de troca e a confiança na sua capacidade de atuar como reserva de valor seriam seriamente abaladas.

Apesar da superficialidade na sugestão de soluções, Rickards é convincente ao explicar a fragilidade do equilíbrio atual e mostrar como uma eventual instabilidade poderia produzir efeitos catastróficos em uma escala globalizada. Afinal, conflitos econômicos entre nações tendem a gerar inflação, recessão, retaliação e, às vezes, violência. Podemos dizer que, pelo menos dessa vez, fomos avisados.




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