Missão escrita pelo destino

Élio Martins

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 81 / 1 de maio de 2010
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Para o rapaz de 18 anos vindo da zona rural de Goiânia, tratava-se da grande oportunidade de sua vida. Além da Eternit, apenas o Banco do Brasil e a cervejaria Antarctica ofereciam, na época, perspectivas de carreira para os jovens mais humildes da região. Por isso, Élio Martins concentrou-se com afinco no trabalho, que consistia em pesar os caminhões antes e depois das operações de descarga na fábrica de telhas, e não deu ouvidos ao burburinho sobre pessoas que supostamente adoeciam por causa daquela matéria-prima. Não era dado a fofocas corporativas.

Passados 35 anos e conquistadas 13 promoções, Martins sabe tudo sobre o amianto e não se escusa ao conversar sobre o assunto. Ao contrário. No posto de presidente da Eternit, abraçou a tarefa de esclarecer e convencer todos os públicos sobre a viabilidade do produto como se fosse uma missão, com a mesma dedicação com que desempenhou todas as suas funções ao longo da carreira trilhada exclusivamente na empresa. O nível da dedicação, ele próprio define: “Maior do que as pessoas imaginam. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Terminava rapidamente o meu trabalho para auxiliar os colegas. Quando surgia uma vaga, eles já sabiam que o Élio conhecia aquela função e estava altamente compromissado com a empresa.”

Não é incomum o presidente da Eternit falar de si na terceira pessoa, nem ficar emocionado ao relembrar a história de sua ascensão social (“Tinha oito irmãos e ajudava em casa, trabalhava de dia e estudava à noite”) e da virada da companhia, que amargou a saída do sócio francês Saint-Gobain, em 2003, por causa da decisão da matriz de abandonar o amianto. Martins fica com a voz embargada e aperta os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, quando se refere ao apoio dos acionistas que hoje compõem o conselho de administração. “Consegui finalizar a transição e encontrei este conselho. Hoje, quando divido com eles as boas notícias, recebo e-mails de incentivo que me gratificam muito”, diz o presidente, mal conseguindo completar a frase.

O período crítico da Eternit aconteceu justamente depois de Martins tornar-se presidente, em 2000. Pressionada pelas mortes na Europa causadas por um câncer diretamente relacionado ao amianto, a Saint-Gobain decidiu apostar no Brasil na concorrente Brasilit, que produz uma fibra sintética mais cara, e defender o banimento da antiga matéria-prima. “Achavam que só teríamos mais dois anos pela frente”, diz Martins. “Ali eu entendi que era o momento de devolver o que a empresa tinha me proporcionado. Talvez estivesse escrito que ela precisaria de alguém como eu, que fala como testemunha dos fatos, e não de um executivo contratado no mercado.”

Élio Martins, presidente da Eternit: “Era o primeiro a chegar e o último a sair. Quando surgia uma vaga, eles já sabiam que o Élio conhecia aquela função.”

Os fatos, pela sua versão, mostram que a utilização do amianto hoje no Brasil não guarda semelhança com aquela que dizimou trabalhadores na Europa e nem mesmo com os casos de morte na fábrica da empresa em Osasco. “Tudo isso mudou com o amianto crisotila da mina brasileira, a consciência do risco e a legislação”, prega ele, com uma confiança que costuma impressionar seus interlocutores. “Temos um produto 35% mais barato, com uma função social. Sinto-me um gigante nesta luta.”
A luta jurídica já levou ao banimento do amianto em quatro estados da Federação. Enquanto os rounds se sucedem (em vez do nocaute previsto no início da década), contudo, a Eternit ganha tempo para diversificar sua linha de produtos, fazer aquisições e conquistar a parceria do mercado de capitais. “Somente com transparência e governança corporativa seria possível virar o jogo”, afirma o presidente, lembrando que o ingresso no Novo Mercado, em 2006, não tinha o objetivo de captação, mas apenas de visibilidade.

A admiração pelo mercado de capitais tornou-se tão grande que Élio Martins orgulha-se da opção profissional do filho de 19 anos, que começou a trabalhar no Centro de Estudos em Private Equity da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Outro dia ele me entregou o seu cartãozinho”, conta, vaidoso. “Eu o tinha incentivado a trabalhar com o mercado de capitais, e não é que ele pegou gosto?” Apenas nessa hora, e quando fala dos animais de sua fazenda de 200 hectares em Goiás, o presidente da Eternit deixa escapar o sotaque interiorano, “meio goiano e meio mineiro”, mas devidamente lapidado por aulas de expressão verbal com o professor Reinaldo Polito, há dez anos. “Confesso que me preparei nos detalhes para a missão que viria a ser colocada em minhas mãos”, afirma. “Eu tinha alguns cacoetes regionais, mas descobri que falar em público é fácil quando se tem confiança naquilo que se fala.”

Em sua rotina de trabalho, boa parte da jornada é consumida com apresentações como porta-voz da companhia, seja como presidente que visita o chão de fábrica ou diretor de relações com investidores (RI) que presta informações ao mercado. Martins participa ainda de instituições representativas da indústria e que defendem o amianto crisotila. Em meio à agenda repleta, às vezes é interrompido com informações sobre uma decisão ou nova ação judicial contra a empresa, em geral relacionadas a indenizações por doença.

Segundo ele, o número de processos em tramitação foi reduzido de 200 para cerca de 100 nos últimos anos. “Não me estresso. Digo que vamos gastar tempo, dinheiro e seremos vitoriosos ao final. Não temos casos na população, e entre os trabalhadores os casos são antigos, da fábrica de Osasco, que tinha equipamentos obsoletos, ou de uma mina já fechada na Bahia.” Segundo ele, não há notícias sobre problemas com funcionários da fábrica de Goiânia. Ou seja, o jovem Élio, que pesava caminhões carregados de amianto, não tinha de fato motivos para se preocupar, pelo menos em relação ao seu próprio local de trabalho.


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