Mercado atrevido

Mais bancos de investimento chegam para disputar participação nas emissões de dívida e ações, acirrando a concorrência em período de vacas magras

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 111 / 1 de novembro de 2012
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O cenário atual está longe de ser considerado auspicioso para os bancos de investimento. O arrefecimento dos negócios no mercado de capitais ao longo do ano incitou a concorrência e achatou as receitas das instituições financeiras. Enquanto as emissões domésticas de ações patinam e as de títulos de dívida se mostram aquém da expectativa, nas captações internacionais o agravamento da crise externa vem deixando espaço apenas para “janelas de oportunidade”. O diagnóstico é, sem dúvida, pouco animador. Mas não ruim o suficiente para impedir que uma safra de novos competidores desembarcasse no setor.

A Caixa Econômica Federal iniciou em outubro o processo para obter a autorização do Banco Central à constituição do seu banco de investimento. O Brasil Plural, fundado por ex-sócios do BTG Pactual, ganhou no fim de agosto aprovação para se transformar em banco. Um mês antes, tinha sido a vez da BR Partners, liderada por Ricardo Lacerda, ex-presidente do banco de investimento do Citibank no Brasil, receber aval para disputar esse mercado.

No horizonte tanto das estreantes como das casas mais experientes está um mercado de capitais que oferece enorme potencial de crescimento. O recente ciclo de corte da taxa básica de juro, que levou a Selic para o menor patamar da história, deve contribuir para acelerar esse processo. Mais empresas serão estimuladas a recorrer a emissões de título de dívida e ações para se financiarem. Na outra ponta, um volume maior de recursos de investidores tenderá a buscar nesses papéis ganhos superiores aos dos títulos públicos. “Vamos ver o mercado de capitais brasileiro bem mais ativo”, diz Allan Libman, chefe da área de banco de investimento do Credit Suisse no Brasil. “Ele ainda é novo, tem oito anos de vida”, pondera o executivo. O momento em que esse mercado pujante estará estabelecido ninguém arrisca cravar. “O certo é que o mercado vai crescer, e o bolo será dividido”, afirma Bernardo Rothe, gerente executivo da diretoria de mercado de capitais e investimentos do Banco do Brasil (BB).

Dentre os competidores que chegam para disputar as fatias desse bolo, a Caixa Econômica distingue-se não só pelo apetite, mas também pelo poder de fogo. Com um saldo de R$ 21,2 bilhões em operações de financiamento à infraestrutura até junho, terá no foco o segmento de renda fixa, como debêntures e fundos estruturados (imobiliários e de investimento em participação). As debêntures criadas para financiar projetos de infraestrutura, que oferecem isenção de Imposto de Renda (IR) para investidores estrangeiros e pessoas físicas, devem ocupar posição de destaque na prateleira. “Temos visto que os bancos que conseguem obter operações no mercado de renda fixa são aqueles com balanço para carregar o papel, dando garantias”, observa Marcos Vasconcelos, vice-presidente de gestão de ativos de terceiros da Caixa Econômica. “Essa é uma distinção da Caixa, assim como de outros grandes bancos.” Pelos cálculos de Vasconcelos, o potencial de produção de receita da área de banco de investimentos da Caixa alcançaria, hoje, 10% do resultado líquido da instituição; em cinco anos, o objetivo é chegar a 20%. A Caixa lucrou R$ 2,8 bilhões no primeiro semestre deste ano.

As comissões dos bancos atingiram, em todo o globo, US$ 51,9 bilhões nos nove primeiros meses do ano, 14% menos que em 2011

MUDANÇA DE PATAMAR — O mercado de debêntures tem sido alvo de competição acirrada neste ano em que as ofertas de ações secaram. Os bancos de investimento são normalmente remunerados por um percentual do volume de cada captação. Se em 2011 era possível cobrar cifras de até 0,5% pelo trabalho de estruturação e coordenação de emissões volumosas, que ultrapassavam R$ 1 bilhão, em 2012 algumas comissões de grandes operações chegaram a percentuais próximos de zero. Em junho, por exemplo, a Lojas Renner emitiu R$ 300 milhões em debêntures. A varejista pagou ao Itaú BBA, coordenador líder da oferta, comissão de 0,07% pela coordenação e estruturação e os mesmos 0,07%, pela colocação dos títulos aos investidores.

Aguinaldo Barbieri, gerente executivo da diretoria de mercado de capitais e investimentos do BB, responsável pelo segmento de renda fixa, reconhece que o mercado está “extremamente competitivo”, mas refuta a hipótese de uma guerra de preços. “Não houve canibalização”, considera. É provável, porém, que a fase de míngua que o mercado de capitais brasileiro vem experimentando combinada à entrada de mais competidores venha a colocar a remuneração dos bancos de investimento em um novo patamar, considerado intermediário. Vasconcelos, da Caixa, adianta que as taxas praticadas pelo futuro braço de investimento da estatal serão baixas. “Talvez não tão baixas quanto o nível das últimas ofertas, mas também não chegarão mais aos valores de dois, três anos atrás”, prevê.

De acordo com informações da Thomson Reuters, as comissões dos bancos de investimento totalizaram, em todo o globo, US$ 51,9 bilhões nos nove primeiros meses do ano, 14% menos que em igual período de 2011 e o volume mais exíguo desde 2009. As taxas das emissões de dívidas corresponderam a 31% das remunerações globais. As de fusões e aquisições caíram 21% em relação a 2011; e as de ações tiveram o pior ano desde 2002. O JP Morgan, aponta a Thomson, conseguiu o maior volume de comissões do ano no cenário global. No Brasil não foi nada diferente. As comissões somaram US$ 660,6 milhões, uma queda de 25% em relação a 2011 nos primeiros nove meses e o menor volume desde 2005. Considerando-se somente as emissões de ações, a conta alcança US$ 114 milhões este ano, o pior resultado desde 2004.

NA MARGINAL — Correndo por fora da disputa por grandes operações, instituições financeiras de médio porte como o Banco Indusval & Partners (BI&P) apostam na tendência de empresas menores acessarem cada vez mais o mercado de capitais, substituindo parte do crédito tradicional, tomado em linhas bancárias, pela emissão de títulos de renda fixa — a chamada desintermediação financeira, no jargão de mercado. “O que está ocorrendo no segmento de debêntures é uma briga por ranking, por participação”, diz o sócio do BI&P Jair Ribeiro, veterano do mercado. “Nós não estamos preocupados com ranking”, acrescenta.

Desde a chegada, como sócios, de Ribeiro, do empresário Alfredo de Goeye e do fundo americano Warburg Pincus ao antigo Indusval, há um ano e meio, parte do esforço da atividade de crédito do banco foi redirecionada para a área de mercado de capitais. A ideia é aproveitar o relacionamento já consolidado com os clientes (empresas com faturamento anual de R$ 200 milhões a R$ 2 bilhões) para ampliar a oferta de produtos. A avaliação é de que, com a queda da Selic, existe um nicho a ser explorado. “Os grandes bancos brasileiros e as casas internacionais têm foco em operações maiores; só que existe um outro mercado, menos assistido, de empresas médias”, ressalta Ribeiro, sem revelar o número de operações realizadas pelo BI&P. A receita de prestação de serviço do banco totalizou R$ 11,954 milhões no primeiro semestre de 2012, aumento de 58% em relação a igual período de 2011.

Na renda variável, um movimento que tem se firmado é o da participação de vários bancos em uma mesma operação. “Entre 2004 e 2006, ou o banco entrava sozinho ou com mais um em uma oferta de ações”, lembra Libman, do Credit Suisse. “Agora, participam três, quatro bancos em uma mesma operação.” Segundo o executivo, o percentual das comissões pagas aos bancos de investimento no segmento de renda variável manteve-se no nível de anos atrás, embora as operações venham diminuindo de tamanho, e as receitas, agora, tenham de ser divididas.

UM ANO SEM AÇÕES — O ano de 2012 tem sido particularmente desafiador para bancos de investimento com forte atuação no mercado acionário, como o Credit Suisse. Até o fim de agosto, o banco de capital suíço aparecia na 12ª posição do ranking da Thomson Reuters de emissões de ações, com uma única operação. Em dezembro de 2011, o Credit ocupava o terceiro lugar da lista, com 13 ofertas. “A amostra é pequena este ano, por isso fica difícil comparar”, justifica Libman. Apesar da liquidez elevada, os investidores de ações estão mais seletivos, e isso vem reduzindo o número de ofertas. “Foi um ano difícil, mas o cenário está melhorando”, completa. Na avaliação do executivo, a crise já não é mais fato novo, e ele avisa: “Nosso ‘pipeline’ está gigantesco”. Até o fim de setembro, havia seis ofertas primárias de ações e quatro secundárias em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O retorno do investidor estrangeiro à bolsa brasileira, em setembro, e a redução da volatilidade dos mercados acionários internacionais estão sendo vistos por Rothe, do BB, como sinais de recuperação. Ele considera a situação hoje menos crítica, contudo ainda distante de um cenário otimista. “Estamos com três ofertas de ações em andamento, mas isso não significa que serão lançadas”, comenta.

As emissões externas de dívida também ganharam uma janela em setembro. “Participamos praticamente de todas as operações que vieram a mercado, como Vale, Petrobras e BTG Pactual”, enumera Rothe. Libman, do Credit, corrobora que as operações com “bonds” estão saindo com facilidade. “É um mercado mais líquido e constante que a renda variável”, observa. A renda fixa doméstica também tende a apresentar uma trajetória mais linear que a da renda variável. Em tempo de ociosidade no mercado de ações, é ela que ajuda a suportar boa parte das receitas dos bancos de investimento.

O volume de emissões de debêntures no ano, até julho, somava R$ 41,1 bilhões. Caminha para bater o recorde de 2010, quando foram ofertados R$ 51,7 bilhões, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Ainda assim, está longe de seu potencial. “Em qualquer lugar do mundo, o tamanho da renda fixa é pelo menos cinco vezes superior ao da renda variável”, enfatiza Ribeiro, do BI&P.


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