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No declive da bolsa, clubes de investimento frearam sua expansão. Sob as novas regras, a expectativa é de que se tornem um espaço para investidores mais escolados e com maior renda

, Menos populares, Capital AbertoEm setembro de 2002, período de baixa no mercado acionário, a Força Sindical tomava uma iniciativa inovadora: abria um clube de investimento dirigido aos filiados da entidade, contando com o apoio do programa de popularização da Bolsa de Valores de São Paulo (então Bovespa), que promoveu um lançamento oficial do projeto. Quase dez anos depois, não há sinais do paradeiro do clube. Nem a Força Sindical nem a Bolsa sabem dizer se ele ainda tem algum membro efetivo.
O sumiço de um dos ícones do incentivo ao acesso de investidores pessoas físicas no pregão é apenas um dos retratos do momento de transição vivido pelos clubes de investimento.

Entre 1996 e 2010, o número de clubes cresceu 1.883% e chegou a 3.054. Nesse período, o patrimônio líquido desses veículos somado se multiplicou 14.180%. O maior volume de recursos conjunto, de R$ 14,8 bilhões, foi atingido em 2007, mesmo ano em que o número de cotistas superou 150 mil. A evolução dessas cifras costumava ser apresentada pela Bovespa como sinal do sucesso das campanhas de divulgação do pregão. Depois, como se sabe, veio a crise global, e o mercado mudou de rumo.

A turbulência que se abateu sobre as bolsas do mundo todo e sobre a BM&FBovespa — cujo índice passava dos 70 mil pontos em maio de 2008 e hoje sofre para alcançar os 60 mil — leva a culpa pela morte de boa parte dos clubes. O definhamento é visível. Em 2009, as pessoas físicas chegaram a deter a fatia de 30,9% do mercado brasileiro; em junho deste ano, o percentual era de meros 16,6%. Daquele ano para cá, 266 clubes fecharam; o patrimônio dos clubes ficou 29,7% menor, enquanto quase 32 mil pessoas deixaram de ser clubistas (queda de 23%).

As perdas financeiras explicam a redução. Criado em 2006, o clube de investimento do Centro Acadêmico XI de Agosto, formado por colegas da faculdade de direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), chegou a ter mais de 50 cotistas. O investimento inicial era de R$ 1 mil por cabeça, e a meta do grupo era superar o Ibovespa em 20%. Após cinco anos de mercado ruim, o clube acabou se desintegrando. Além do desempenho fraco, faltavam interessados em continuar a gerenciar as aplicações depois que os primeiros clubistas se graduaram. “Até procuramos outros alunos para manter os clubes, mas não encontramos”, explica o fundador Daniel Ávila, que já sacou o que lhe cabia.

Bem nesse momento negativo do mercado e de diminuição da participação das pessoas físicas os clubes de investimento passaram a ser regulados com mais rigor. Em meados de abril do ano passado, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) baixou duas instruções, de números 494 e 495. A primeira fixou normas para constituição, administração e funcionamento dos clubes; a segunda estabeleceu as regras para elaboração e divulgação de resultados. A suspeita da autarquia era de que, por trás do crescimento elevado de clubes, estaria a malandragem de alguns agentes de mercado em
usá–los para fugir das regras mais pesadas dos fundos de investimento — “esses, sim, veículos mais adequados para investimentos coletivos de um grande número de pessoas que não necessariamente têm laços adicionais entre si”.

Em tese, os clubes deveriam servir como instrumento de aprendizado sobre o mercado e ser formados por cotistas que tenham alguma afinidade além do interesse financeiro, como amigos, familiares e colegas de profissão. Entretanto, o número de integrantes que alguns deles chegaram a apresentar — mais de centenas — e a publicidade que recebiam de algumas corretoras eram claros sinais de que esse princípio estava sendo desprezado.

Não há dúvida, portanto, de que a mudança regulatória teve alguma participação na redução no número de clubes. Aqueles clubes lotados, que podiam mascarar fundos de investimento, entraram em extinção. A CVM proibiu também a montagem de clubes por sindicatos ou empresas e a publicidade para a conquista de cotistas; e, por fim, limitou a quantidade de cotistas de cada veículo a 50. Segundo a autarquia, a restrição teria pouco impacto, pois, antes dela, a minoria dos clubes ultrapassava o limite de 50 membros, e os que excediam essa barreira não foram obrigados a fechar, mas apenas a proibir o ingresso de novos membros.

MENSALIDADE CARA — As mudanças nas regras também terão impacto sobre os custos de manutenção dos clubes. Por essa razão, as corretoras, responsáveis pela administração desses veículos, já veem, inclusive, a possibilidade de aumento do tíquete mínimo de entrada. A incidência de custos novos ficou mais clara com as normas estabelecidas pela BM&FBovespa para o funcionamento dos clubes, baseadas nas instruções da CVM. Elaboradas após discussões com as corretoras, as regras foram aprovadas em 8 de junho. O texto tem de ser encaminhado pelo correio, com aviso de recebimento, para todos os clubistas — um gasto extra que os administradores não esperavam. A partir de 2013, os clubes terão de contratar um contador para fazer, assinar e se responsabilizar pelas contas de cada clube.

“Aqueles clubes comuns no passado, em que era possível aplicar inicialmente R$ 50 ou R$ 100, não vão existir mais”

Cada corretora que atua nesse segmento do mercado — atualmente há perto de cem — terá de negociar com seus respectivos clubes a implantação dos novos custos. Assim, dependendo da escala, do patrimônio e do número de cotistas, o custo cobrado pode variar. Na média, contudo, calcula–se que a exigência do contador saia entre R$ 200 por mês por clube. “É muito caro”, diz Manuel Lois, da Spinelli, sobre o gasto adicional de R$ 2.400 por ano. E há outros custos marginais, lembra Murilo Jurado, da Alpes, como o da realização obrigatória de assembleia (que pode ser feita pela internet) e o de adaptação de sistemas.

Enfim, na ponta do lápis, participar de um clube vai exigir mais do que vontade de aprender como funciona o mercado, o que, em certa medida, tornará os novos clubes mais “elitistas”. “Aqueles clubes comuns no passado, em que era possível aplicar inicialmente R$ 50 ou R$ 100, não vão existir mais”, acredita Pedro Paulo Silveira, da TOV. “Para ser viável, um clube precisará ter um patrimônio de cerca de R$ 200 mil”, calcula Lois. Isso significa que, em um clube com o máximo de 50 cotistas, cada um deveria aplicar de cara, em média, R$ 4 mil.

, Menos populares, Capital AbertoMAIS SELECIONADOS — Ninguém discorda, contudo, que ainda haja espaço para os clubes, principalmente em função de suas vantagens operacionais para a gestão de recursos de famílias ou pequenos grupos. Eles não pagam, por exemplo, imposto sobre operações de compra e venda de ações realizadas para giro das carteiras, pagam apenas quando ocorre o resgate da cota. Leanderson Reis ajudou a criar um clube no ano passado, já ciente das instruções implementadas pela CVM. Os associados são de um círculo de relacionamentos que Reis construiu participando de processos seletivos para trainees como estudante de engenharia. Parte deles é composta de seus sócios em uma consultoria empresarial e de investimentos. “A intenção era ter mais de 50 membros, mas tivemos de nos adaptar à nova regra, que foi divulgada pouco antes da criação do clube”, conta. O GFAI Hawk (a sigla se refere a “grupo fechado de amigos investidores”) tem um patrimônio de cerca de R$ 200 mil. Como diz o nome escolhido, a estratégia do clube, administrado pela Alpes, é imitar uma ave de rapina, que descobre um alvo específico no meio da planície. “O grosso dos investimentos está em ações blue chips, mas temos também empresas que consideramos ter um grande potencial”, ele explica.

A tendência é de que o clubista seja mesmo um tipo de investidor específico, que quer participar diretamente das decisões de alocação de recursos e, eventualmente, ganhar experiência para atuar profissionalmente como gestor. Até porque os clubes de investimento perderam o destaque de outrora nas campanhas de divulgação em massa do mercado de ações. A BM&FBovespa tem sinalizado grande interesse por outros instrumentos, como os fundos de índice, por exemplo. “O clube ainda é um instrumento de popularização, mas não mais o único. Agora há também os ETFs, que são bastante acessíveis às pessoas físicas”, afirma a Bolsa em nota. O boom de clubes, definitivamente, faz parte do passado.


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