Menos ajuda para o Brasil

Peter Tropper



Na sua missão de injetar capital em nações pobres — a exemplo da instituição-mãe, o Banco Mundial —, a International Finance Corporation (IFC) se transformou, mais do que em um provedor de crédito barato a empresas, num dos maiores investidores de private equity do planeta. Quando começou a participar desse mercado, no início dos anos 1990, o senso comum dizia que aplicar capital de risco na periferia do capitalismo seria simplesmente arriscado demais. A despeito de sua opção pouco ortodoxa, a IFC pode se orgulhar de seu portfólio de private equity de US$ 2,6 bilhões. Entre 2000 e 2009, o retorno médio anual ficou perto de 20%, acima dos benchmarks da indústria de países emergentes.

Só na América Latina, onde o Brasil é o maior mercado, a IFC tem um total de US$ 400 milhões comprometidos em 29 fundos, entre veículos puramente brasileiros e com foco regional. Esse volume representa apenas 10% do total dos fundos, já que um dos papéis assumidos pela IFC é o de chamariz de investidores, dado o seu qualificado processo de due dilligence, que envolve o estudo de aspectos de governança, ambientais e sociais. Responsável do banco pelos fundos de private equity latino-americanos e fundos de private equity que investem em pequenas e médias empresas de todo o mundo, Peter Tropper falou com a CAPITAL ABERTO logo após a conferência anual da IFC sobre o tema, em Washington, D.C. Para ele, investir no País hoje virou um bom “problema”, pois o Brasil necessita muito menos de ajuda financeira da instituição do que a África. Veja a entrevista nas próximas páginas.

CAPITAL ABERTO: Qual é a sua opinião sobre as oportunidades que o Brasil oferece neste momento?

Os negócios estão indo tão bem no Brasil que não temos a necessidade de liderar o movimento

Peter Tropper: O Brasil é muito interessante para investidores. Os estrangeiros tomaram ciência do País por ser um dos Bric, claro. No começo, eles pretendiam ficar no mundo desenvolvido, mas, no último ano, perceberam que seus retornos não seriam tão elevados como nos mercados emergentes. O Brasil, ao lado de China e Índia, é um dos países que se saíram muito bem na crise em comparação ao primeiro mundo, em termos de retorno, sobrevivência, gestão da economia e dívida pública. Ao contrário de outras economias, não tem um grande número de multinacionais, mas está construindo sua economia doméstica e não depende de países estrangeiros como outros dependem. Quem investe em mercados emergentes está olhando cuidadosamente para isso. Acho que estão muito satisfeitos com o Brasil.

Como o senhor compara a posição do Brasil hoje com a da China e da Índia? Estamos um pouco atrás?

Todos estão atrás em algum ponto; ninguém está à frente totalmente. A boa notícia é que o Brasil, por ter uma taxa de crescimento menor — muito mais rápida que a dos Estados Unidos, naturalmente —, não entrará em colapso tão rápido. Não há bolhas ali. Isso tem muito apelo com pessoas como nós, norte-americanos, que acabamos de sair de uma grande crise. O sistema bancário brasileiro está em ótima forma. Essas coisas nem sempre aparecem em mercados emergentes.

O senhor não vê riscos de bolha no Brasil?

Não. Ele é um daqueles mercados com baixa penetração de private equity. Um dos atributos pouco comuns, contudo, é o fato de ter gestores de private equity muito fortes. Há companhias de investimento de todos os tamanhos e firmas de classe mundial. Já fizemos muito dinheiro lá, embora não tenhamos investido em private equity brasileiro ultimamente.

Usamos gestores brasileiros para atingir áreas às quais não temos fácil acesso. Ou para ajudar a construir o mercado de private equity

Por que não?

Lembre-se de que a IFC tende a investir em países em que os sistemas não estão no lugar e o private equity não está bem desenvolvido. Procuramos investimentos que tragam o maior retorno e impacto social possível. Os negócios estão indo tão bem no Brasil, que não temos a necessidade de liderar o movimento. Há outros países que precisam desesperadamente de nós e nos quais estamos gastando bastante tempo. Talvez possamos fazer alguns investimentos neste ano, mas não gostaria de me apegar a isso. A questão é se vamos precisar ou não. Num certo sentido, nós vamos trabalhar mais em partes da África do que no Brasil, mas acho que isso é compreensível, dada a nossa meta.

Quanto mais se desenvolve, menos interessante o Brasil fica para a IFC?

Não exatamente. Tendemos a mudar o nosso foco. Dez anos atrás, investiríamos em um fundo que enfatizasse boas práticas de governança corporativa em companhias listadas em bolsa de valores. Foi o que fizemos durante muito tempo. Agora, estamos olhando para infraestrutura, saúde, microfinanças e fundos que investem em áreas fronteiriças do País. Nos concentramos também em questões climáticas, educação e desenvolvimento na cadeia de suprimentos. Há uma lista longa de estratégias para o Brasil.

Quando a IFC investe em private equity, procura gestores locais ou participa diretamente do capital das empresas?

Depende. A maior parte do nosso dinheiro entra diretamente nas companhias. Frequentemente, usamos gestores brasileiros se queremos atingir segmentos aos quais não temos fácil acesso. Ou se nossa intenção é ajudar a construir o mercado de private equity. Obviamente que o mercado de private equity no Brasil nem sempre foi tão forte, por isso posso dizer que nos envolvemos com vários gestores locais.

O ideal é que o gestor tenha experiência e queira levantar um fundo com foco naquilo que ele já conhece

Quem são os seus principais gestores de private equity no Brasil?

A Dynamo é uma, a GP é outra, a Advent também. Investimos em várias casas indiretamente e firmas estrangeiras que têm times brasileiros. No ano passado, não investimos em nenhum desses grandes fundos, porque eles não precisam mais da gente. O que estamos mirando agora são gestores de fundos menores.

E o que o senhor tem encontrado?

Nos últimos meses, fui duas vezes ao Brasil para falar com gestores voltados a empresas médias. Francamente, são eles que fazem muito dinheiro para nós. Encontram empresas que estão crescendo e abaixo do preço, depois conseguem adicionar muito valor quando as vendem, seja num IPO, seja para grandes investidores.

Quais as características que a IFC busca num gestor?

O ideal é que o gestor do fundo tenha experiência e queira levantar um fundo com foco naquilo que ele já conhece. Outro ponto é o ritmo de investimento que o gestor possui. Um banco comercial que simplesmente quer começar um fundo não tem muito apelo conosco. Tudo isso é levado em conta antes mesmo de verificarmos em que pretendem investir.

Muitos dos fundos regionais nos quais a IFC investe estão baseados em paraísos fiscais. Nunca houve problema com isso?

Os investidores internacionais normalmente usam esses veículos. Algumas pessoas recorrem a paraísos fiscais como um caminho para esconder dinheiro. Mas jamais vamos a lugares desse tipo, que estejam na lista negra ou cinza da OCDE. Eles têm de estar na lista branca, formada por jurisdições que prestam muita atenção às práticas internacionais de transparência e com políticas antilavagem de dinheiro muito bem regulamentadas. Somos atentos a isso. As Ilhas Cayman, por exemplo, às vezes oferecem riscos, outras não. Sempre precisamos descobrir o que realmente está acontecendo. Mas há outros lugares mais seguros, como as Bermudas ou as Ilhas Maurício. Conhecemos todos os investidores desses fundos. Esses centros financeiros offshore funcionam pela conveniência, não por estarem escondendo dinheiro. Se esse for o caso, nos afastaremos.


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