Manual médico

O processo de diagnóstico e tratamento para recuperar empresas “doentes”

Gestão de Recursos / Temas / Prateleira / Edição 74 / 1 de outubro de 2009
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Imagine a cena: a ambulância chega ao hospital com um paciente em estado crítico. Os médicos, já a postos, correm para atendê-lo. Um ritmo frenético toma conta da equipe que, bem treinada, já sabe o que e quando fazer. Todos já vimos sequências assim no cinema e na vida real. Como Recuperar uma Empresa, de David Lovett e Stuart Slatter, trata exatamente desse processo, mas para uma classe de pacientes bastante peculiar: as companhias.

A semelhança no tratamento de pessoas jurídicas e físicas é impressionante. Uma vez detectado um sintoma (queda contínua de rentabilidade, por exemplo), o paciente é submetido a um diagnóstico, para depois receber o tratamento mais indicado. Obviamente, a severidade do que será feito é proporcional ao seu estado de saúde. Embora a obra não sugira o mesmo tratamento para qualquer doença, sua espinha dorsal é construída sobre sete etapas críticas do processo de recuperação, comuns à maioria das empresas “doentes”. São elas: 1) estabilização da crise; 2) liderança; 3) apoio das partes interessadas; 4) foco estratégico; 5) mudança organizacional; 6) melhorias no processo crítico; e 7) reestruturação financeira.

Desse modo, o livro torna-se interessante a todos os profissionais que, de alguma forma, venham a participar desse processo, seja ele de cunho meramente estratégico ou, na pior das hipóteses, que envolva uma delicada recuperação judicial. Ou seja, os autores não se limitam a propor soluções para pacientes em estado crítico. Ao contrário, alertam que um tumor, quando diagnosticado cedo, pede tratamentos pesados como o de quimioterapia e radioterapia, mas a probabilidade de cura é muito maior. Liderança e mudança organizacional, por exemplo, são recomendações comuns a uma ampla gama de empresas.

A obra, porém, ressente-se da escassez de exemplos práticos, explorando de forma acadêmica um assunto de natureza eminentemente pragmática. É necessário chegar até a página 200 para que os conceitos abordados sejam ilustrados por um “box” de texto com um caso real. Não podemos esquecer, entretanto, que aprender a fazer uma cirurgia através de um manual é um desafio muito grande, principalmente quando cada paciente tem suas particularidades e reage a um mesmo remédio de formas diferentes. Por isso, o ponto forte fica por conta do capítulo sobre melhorias. Nele, os autores tratam mais profundamente essa questão, detalhando um roteiro para as companhias avaliarem criticamente os processos-chave.

O debate sobre a recuperação de empresas é muito salutar no Brasil, uma vez que ainda engatinhamos com relação ao marco institucional e legal no País. A lei nacional que estabeleceu o conceito de recuperação judicial data de 2005, e precisaremos de tempo para que os juízes, advogados e “recuperadores” de empresas estejam familiarizados com seus mecanismos de funcionamento. O posfácio da edição brasileira agrega bastante à obra, pois procura explicar, de forma simples e direta, como o arcabouço institucional encara os processos de recuperação e os desafios que todas as partes envolvidas enfrentam. No entanto, o leitor interessado sentirá um gostinho de “quero mais” ao fim dessas enxutas dez páginas. Fica, então, a sugestão para que se elabore um “manual médico para os trópicos”, contendo exemplos práticos de como conduzir o tratamento nessas paragens.


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Tags:  Recuperação de Companhias David Lovett Stuart Slatter Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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