“Mais para a esquerda”

Arminio Fraga

Bimestral/Relações com Investidores/Retrato/Temas/Edição 86 / 1 de outubro de 2010
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A culpa foi do futebol. Mais especificamente, do documentário Futebol, de João Moreira Salles, que chegou à casa de Arminio Fraga, em New Jersey, na forma de três fitas de videocassete, em 1998. Melhor aluno da graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde também se destacou no mestrado, o economista tinha tudo para ser um desses casos de brasileiros que não voltam: fez doutorado na Universidade de Princeton; era professor em Colúmbia, depois de lecionar no prestigiado departamento de finanças da Wharton; e ganhava uma pequena fortuna trabalhando para o investidor George Soros. Os dois filhos estavam adaptados ao subúrbio de Nova York e não faltavam campos de golfe nos Estados Unidos, esporte que pratica desde os 15 anos. Mas havia o futebol — ou melhor, a falta dele e do que ele representava.

É fácil imaginar o ex-presidente do Banco Central (BC) e atual presidente do conselho de administração da BM&FBovespa jogando golfe. Mas quando revela o passado “peladeiro”, como lateral-esquerdo, Fraga pode surpreender seu interlocutor. Ele diz que o documentário funcionou como um “pequeno gatilho”, que lhe despertou o desejo de retornar às raízes brasileiras, pouco antes do convite para a presidência do BC: “Eu assisti àquelas fitas e pensei: ‘nossa!’. Fui jantar com a minha mulher e falei que estava na hora de voltar.”

Se a decisão do retorno foi influenciada pelas lembranças das peladas e das idas ao Maracanã (“Pegávamos o ônibus em Copacabana, para irmos sentados, mexendo com a torcida do inimigo pela janela”), a opção de fazer do País a base de seu negócio próprio — a Gávea Investimentos — se deu por razões muito além das afetivas. “Eu poderia estar morando fora, praticamente onde quisesse, mas resolvi apostar a minha vida profissional e pessoal no Brasil”, diz Fraga. “O País avançou bastante. Só precisamos de cuidado com a sensação de que está tudo resolvido, porque ainda temos muito para investir, construir e educar.”

O espírito público alterna-se com o empreendedor em todo o discurso de Fraga. Aparece até quando garante não ter se chateado com a sua recepção no Brasil, na sabatina feita por senadores para assumir o comando do BC. Na ocasião, os opositores do governo Fernando Henrique Cardoso chamaram-no de “gênio do mal” e “a raposa tomando conta do galinheiro”, acusações que seriam abandonadas tão logo Fraga conseguisse a proeza de substituir o regime de câmbio fixo pelo flutuante sem sucumbir à hiperinflação, junto com o ministro da Fazenda Pedro Malan. “Era natural as pessoas questionarem alguém vindo do mercado, depois de seis anos em Nova York”, justifica ele, que já acumulava no currículo uma experiência de diretor da área internacional do BC. “Elas não tinham obrigação de conhecer o meu lado acadêmico, minhas boas intenções e meu coração mais para a esquerda.”

O coração “mais para a esquerda” foi forjado no fervilhante departamento de economia da PUC, onde três novos professores revolucionaram o ensino na época e acabaram com as dúvidas do jovem Arminio em relação à sua vocação. Filho e sobrinho de respeitados médicos cariocas, ele havia escolhido economia “meio por eliminação”, depois de desistir da medicina às vésperas do vestibular. Após ser despertado por Dionísio Dias Carneiro, Francisco Lopes e Rogério Werneck, ele teria aulas ainda com profissionais com quem cruzaria mais tarde na vida pública e privada, como André Lara Rezende, Pedro Malan e Edmar Bacha.

Foi uma mudança de função de Lara Rezende dentro do Banco Garantia, a propósito, que levou Arminio a abrir mão da carreira acadêmica que iniciava nos Estados Unidos. Convidado, ele se sentiu atraído pelo grupo de profissionais que liderava a área de investimentos da instituição no País e não se arrependeu de aceitar a oferta: “Foi uma espécie de pós-graduação nas coisas do mundo real.”

Aos 53 anos, com uma carreira alicerçada por experiências nas áreas pública, privada e acadêmica, Fraga foge de qualquer tentativa de lhe atribuir marcas de genialidade, como a de “pilotar a mesa de operações no BC”. Prefere passar a entrevista enaltecendo como virtude o bom-senso. “Usando a terminologia de quociente emocional (QE) e de inteligência (QI), eu diria que o QE é tão importante quanto o QI, se não mais”, compara. “Eu não ia para a mesa, como dizem. Essa ideia de que o BC vai operar contra o mercado é um equívoco. É algo mais parecido com o judô, em que se usa a força do mercado a seu favor.”

Na Gávea Investimentos, que tem sob sua gestão um patrimônio de R$ 10,1 bilhões, ele diz que o negócio “é simples” e “não traz grandes angústias existenciais”. “Administramos o dinheiro de terceiros junto com o nosso”, resume. A disciplina, acredita, é parecida com a do esporte. “O jogo só acaba quando acaba. Não adianta pensar que está acabando e que você está ganhando, porque, se tirar o olho da bola, perde”, diz Fraga, que viu o efeito da indisciplina quando era assistente técnico do time de futebol dos filhos. O “menino” tem 24 anos, e a “menina”, de 27, casou-se em junho com uma grande festa no Rio que fugiu aos padrões discretos adotados pela família. O economista, conhecido pelo despojamento, anda a pé pelas ruas do Leblon, bairro em que mora e trabalha, e se considera “muito caseiro”. “Não dou tanto valor ao dinheiro”, diz ele. “Acho que as pessoas devem ter sua vida amarrada por dentro, e não por fora.”




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