Lucrando com o aquecimento

Fundos transformam discurso de ambientalistas em fonte de negócios

Especial/Gestão de Recursos/Reportagem/Especial Private Equity 2011/Temas / 1 de junho de 2011
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Pergunte a um gourmet as diferenças entre um pescado da Rússia e outro do Alasca, e ele vai se apegar a detalhes como a textura e o sabor da iguaria. Para um profissional de finanças, o que importa é o preço. Redes como o McDonald’s e o Walmart estão dispostas a pagar um prêmio pelos peixes do estado norte-americano que nada tem a ver com a espécie ou o sabor, mas, sim, com a certeza de que o alimento saiu da água de forma regular. É o que diz Thomas Murray, diretor do programa de parcerias corporativas da Environmental Defense Fund (EDF). Atento à deficiência da pesca no mar russo, o Carlyle Group pediu a ajuda da organização não governamental (ONG) antes de investir US$ 190 milhões no ano passado no China Fishery Group, empresa de pesca sediada em Hong Kong que atua na Rússia. A EDF conversou com o governo daquele país para montar um plano que melhorasse a governança da atividade pesqueira, como a criação de normas de controle. “O peixe continua o mesmo. Mas agora vale mais”, assegura Murray.

A EDF tem a missão clara de defender o meio ambiente, seja fazendo lobby com políticos seja influenciando corporações. Para convencer firmas gigantes de private equity, como KKR e Carlyle Group, a apoiar a causa, seu discurso foi relativamente simples e prático: “Podemos ajudá-los a administrar empresas lucrativas que trarão retorno aos seus cotistas”.

“As mudanças climáticas impactam tudo. É inevitável pensar nisso quando se vê o preço da gasolina subindo”

Assim como a preocupação com os impactos ambientais da pesca em território russo pode entrar no processo de due dilligence do Carlyle, outros fatores, antes não diretamente relacionados a geração de receitas, entraram de vez no radar de investidores e gestores de private equity. A agenda formada pela sigla ESG (de ambiental, social e governança, em inglês) foi um dos assuntos predominantes na conferência sobre private equity da Emerging Markets Private Equity Association (Empea, em inglês) e da International Finance Corporation (IFC) realizada em maio, em Washington, DC.

Há, sim, fundos de investimento que carregam essa bandeira específica, prometendo não só retorno econômico, como também um mundo melhor para seus cotistas. A novidade é que mesmo gestores convencionais, voltados ao retorno financeiro, prestam cada vez mais atenção nisso. Quando atuam em mercados emergentes, então, a governança se torna crucial. “É natural que a empresa que recebe um fundo de private equity pela primeira vez seja bastante avaliada sob esse aspecto. Em mercados emergentes, sabe-se que a cultura de governança é menos consolidada que nos Estados Unidos ou Europa Ocidental”, comparou Jennifer Choi, diretora de pesquisa da Empea.

O que mais gera negócios no momento são as questões ambientais. Há uma proliferação de fundos apoiados no tema do aquecimento global. Setores como o de energias renováveis e o chamado “cleantech” — categoria de tecnologias que reduzem danos ambientais — estão bastante aquecidos. Essa “onda verde” está longe de ser reflexo de bom-mocismo ou campanhas de marketing. A redução do consumo de energia elétrica é um aspecto que interessa a todos. “Ajudamos a KKR a melhorar a eficiência energética de data centers de suas empresas investidas”, exemplificou Murray.

“A China oferece muitas opções promissoras para a indústria de carros elétricos além da BYD, investida por Warren Buffett”

Pesquisas têm mostrado que investidores querem aumentar sua exposição a fundos com estratégias ligadas ao aquecimento global. Isso também tem feito gestores lançarem produtos com essa orientação. “Para muitos investidores, as mudanças climáticas impactam tudo. É inevitável pensar nisso quando se vê o preço da gasolina subindo, por exemplo”, disse Jennifer. A Aloe Private Equity aposta no mercado de carros movidos a bateria elétrica. “A China oferece muitas opções promissoras para a indústria de carros elétricos além da BYD, investida por Warren Buffett”, notou Jean Pascal Tranié, um dos sócios da asset.

Como a categoria de fundos relacionados às mudanças climáticas é recente, Tranié reconhece que reunir um bom histórico de rentabilidade é uma das questões a serem resolvidas. Desse modo, fica difícil para o investidor selecionar entre tantos novatos. Roger Leeds, ex-presidente da Empea, fala de um efeito manada na constituição de fundos verdes. “Muita gente vai falhar, como em outras modas que surgem de tempos em tempos.” Para quem simplesmente se vende como “fundo ESG”, o desafio é ainda maior. “Não há dúvida de que investir em sustentabilidade é um custo, pois consome recursos e dinheiro. E há retorno?”, questionou Jay Koh, vice-presidente de fundos de investimento da Overseas Private Investment Corporation (Opic), instituição de fomento do governo norte-americano. Ele concorda que os ganhos, na verdade, estão na redução de possíveis perdas, tanto por uma má gestão de relações trabalhistas quanto por uso ineficiente de energia elétrica.

Comitê com fundo de pensão afasta estrangeiros

A participação de representantes de entidades de previdência complementar nos comitês de investimento de fundos de investimento em participações (FIPs) continua a gerar polêmica. Essa característica tipicamente brasileira foi criticada pela edição de 2011 do Scorecard on the Private Equity and Venture Capital Environment in LatinAmerica. O ranking, elaborado pela Latin American Venture Capital Association (Lavca) e pela Economist Intelligence Unit, do grupo The Economist, mede o estágio de desenvolvimento da indústria de private equity e venture capital na América Latina.De um total de 12 países, o Brasil ficou atrás só do Chile, a mesma posição obtida no ano passado. A diferença foi a pontuação, que caiu de 75 para 72. A razão para o corte é a permanente exigência dos fundos de pensão em fazer parte dos comitês. “Não vimos progresso nesse sentido”, diz a presidente da Lavca, Cate Ambrose.

Apesar de tecer comentários positivos sobre a regulamentação do setor no País, o relatório da pesquisa destaca que esse “conflito de governança” criou um impedimento real para gestores brasileiros captarem recursos no exterior. Investidores internacionais não estão acostumados com esse tipo de estrutura. Geralmente, escolhem os gestores após um longo processo de avaliação (“due dilligence”) e delegam a eles independência para administrar seu patrimônio. A presença de representantes de fundos de pensão no comitê de investimento sinaliza que o gestor possa estar sendo influenciado, de alguma forma, por alguém que o investidor estrangeiro não contratou.

A CAPITAL ABERTO ouviu profissionais de dois fundos brasileiros pequenos que confirmam a dificuldade em justificar para os estrangeiros a sombra de um fundo de pensão no foro de decisão dos investimentos. Ambos também lamentam a burocracia que as fundações acrescentam na aprovação de transações. A verdade é que os gestores iniciantes não têm outra saída. Sem histórico de desempenho, não conseguem angariar dinheiro somente com investidores internacionais. Os fundos de pensão, por sua vez, não se sentem seguros o bastante para aplicar recursos numa categoria de ativos relativamente nova em suas carteiras. Por isso, ainda têm preferido um lugar no comitê de investimento, para ver tudo de perto. (D.G.)


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