Longe da crise

Com o caixa recheado após a abertura de capital, companhias agitam o mercado com anúncios de fusões e aquisições. Mas os analistas estão de olho: há exageros?

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 56 / 1 de abril de 2008
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A crise norte-americana do subprime impôs um tom de cautela às empresas que planejavam entrar na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Mas não se pode dizer o mesmo quando o assunto é fusões e aquisições. Somente nos três primeiros meses de 2008, foram contabilizadas 150 operações desse tipo, segundo levantamento da consultoria KPMG. Este é o melhor resultado da série, iniciada com a chegada do Plano Real, em 1994. Em relação ao mesmo período de 2007, quando foram realizados 112 negócios, o crescimento foi de 34%. Vale frisar que grande parte do incremento deste ano deve-se às ofertas iniciais de ações (IPOs). Capitalizadas, as companhias que ingressaram na bolsa foram responsáveis por mais de um terço dos negócios. E não há dúvida de que as aquisições são desejadas pelo mercado. É por meio delas que as empresas recém-listadas poderão atingir os planos de crescimento apresentados aos investidores no IPO. A velocidade do processo, contudo, preocupa alguns analistas.

A empresa de carne bovina JBS demonstrou um dos mais agressivos planos de expansão por meio de aquisições. Sua grande tacada foi a compra da norte-americana Swift, no ano passado. A operação, de US$ 1,4 bilhão, lhe deu a liderança mundial do setor. Em 2008, o plano de internacionalizar a companhia segue em prática. Em março foi aprovada a compra da também americana National Beef — que em 2007 gerou receita líquida de US$ 5,6 bilhões e processou 3,9 milhões de cabeças de gado. O valor total da operação foi de US$ 560 milhões. Foram celebrados ainda contratos de aquisição da australiana Tasman, ao preço de aproximadamente US$ 150 milhões, e da Smithfield Beef Group, por US$ 565 milhões. As três aquisições somam, portanto, US$ 1,275 bilhão — o que, na avaliação da SLW Corretora, é um exagero. Para a analista de investimentos Kelly Trentin, a companhia está crescendo muito rapidamente e de maneira pulverizada, sem tempo para condensar as operações. “Outro ponto é a baixa lucratividade das empresas adquiridas, principalmente nos Estados Unidos”, comenta ela.

Há muita movimentação também no setor de educação. Neste ano, a paulista Anhanguera comprou, por R$ 30 milhões, a Educar, mantenedora de cinco instituições em Santa Catarina. Em outra operação, de R$ 10,2 milhões, foi adquirida a Sociedade Educacional Garra, dona das Faculdades Planalto. A carioca Estácio Participações, maior universidade privada do País, também manteve seu plano de expansão via aquisições. Comprou a Faculdade Interlagos (por R$ 6,2 milhões), a Faculdade Europan (por R$ 8,3 milhões) e a Faculdade Brasília de São Paulo (por R$ 2,2 milhões).

Carlos Lacerda, diretor de Relações com Investidores (RI) da Estácio, lembra que o setor é muito fragmentado. São cerca de 2 mil instituições de ensino superior privadas e apenas 181 com mais de 5 mil alunos. “São empresas de todo tipo. Muitas delas adotam práticas contábeis incompatíveis com uma companhia aberta, o que nos faz ser bastante criteriosos”, diz. A Estácio, conta Lacerda, já é uma empresa de grande porte, o que a faz menos dependente do processo de crescimento via aquisições. Apesar disso, está aprovado um orçamento de R$ 233 milhões para novas compras.

O anseio por crescimento das empresas que ainda não abriram o capital também estimula as aquisições e captações com private equity

Apesar da pulverização das áreas de atuação e do crescimento acentuado — somente no ano passado a Anhanguera triplicou o número de alunos matriculados —, a consolidação do setor é bem-vista pelos analistas. “A padronização do sistema de ensino aumenta as margens de ganho. E o investimento no ensino a distância também é interessante, já que permite o ingresso de um número elevado de alunos por um custo inferior ao do ensino tradicional”, analisa Kelly, da SLW.

Consolidar empresas é também a realidade da Brasil Brokers. Ela já nasceu da junção de outras 11 empresas de intermediação imobiliária, apostando na consolidação de um nicho de mercado extremamente pulverizado. Este ano, foram compradas a Redentora Consultoria Imobiliária, de São José do Rio Preto (ao preço de R$ 37,5 milhões); a também paulista Frema (R$ 30 milhões); e a JGM e a Marcos Koenigkan Consultoria Imobiliária, do Distrito Federal (R$ 18,7 milhões e R$ 26,2 milhões, respectivamente).

Os negócios adquiridos pela Brasil Brokers tornam-se uma espécie de unidade regional da companhia. Já os antigos proprietários viram diretores operacionais. “Para nós, não é interessante que eles saiam do negócio porque conhecem a região em que atuam”, conta Sérgio Freire, presidente da empresa. Uma estratégia para manter a unidade da companhia a despeito da atuação regional de cada negócio é efetuar a aquisição pagando 50% em ações e a outra metade em parcelas atreladas ao desempenho futuro.

PARADA TÉCNICA — Destaque do noticiário de aquisições em 2007, o setor de shopping centers começou o ano discretamente, com apenas duas operações no primeiro trimestre. Em janeiro, a General Shopping adquiriu a Uniplaza, detentora do Shopping Unimart, em Campinas. Pagou R$ 43 milhões e incrementou seu portfólio em 10.233 metros quadrados de área bruta locável (ABL). No último dia 24 de março, foi a vez da BR Malls. A companhia, que no ano passado adotou a mais agressiva das estratégias de crescimento via aquisições, efetuou sua única operação de 2008 ao comprar 35% de participação indireta no Osasco Plaza Shopping, em São Paulo. Assim, a BR Malls, maior player do setor, totaliza atualmente 376,8 mil metros quadrados de ABL próprio, 909,2 mil de ABL total e participação em 31 empreendimentos.

O balanço dos três primeiros meses de 2008 em nada lembra a agitação do ano anterior, quando o segmento abocanhou 3% do total de operações de fusões e aquisições, segundo levantamento da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Mas os analistas do setor acreditam que o ritmo forte será retomado, pois há recursos e ativos a serem adquiridos.

Uma operação que poderá agitar o segmento é a negociação da carteira de investimentos em shopping centers da Previ, fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil. Avaliada em cerca de R$ 1 bilhão, a fundação era, até a chegada da BR Malls, o maior investidor do segmento no País. As principais candidatas à compra (e com melhores condições de efetivá-la) são a própria BR Malls e a Multiplan — esta última, carente de uma grande aquisição, uma vez que investiu, sem sucesso, na tentativa de compra dos ativos do grupo Malzoni, que acabaram ficando com o grupo Brascan.

Para a área de análise da Link Corretora, a ausência de operações no setor representa apenas uma breve parada técnica — apesar de a agressividade de 2007 ter valorizado muitos dos ativos disponíveis no mercado. A Ativa Corretora compartilha do otimismo. “Ainda há espaço para aquisições, tanto no eixo Rio–São Paulo quanto em outras regiões”, diz Luciana Leocadio, analista-chefe da Ativa.

A força do movimento de fusões e aquisições em 2008 sobrevive, inclusive, aos impactos da crise internacional. Luís Motta, sócio da área de corporate finance da KPMG, acredita que existem outros fatores capazes de impulsionar a quantidade de operações. O primeiro deles é o crescimento do número de companhias listadas em bolsa. Com ou sem os recursos do IPO em caixa, elas passam a contar com suas próprias ações como moeda de troca. Outro estímulo é o anseio por crescimento e competitividade entre as empresas que ainda não abriram o capital. “Elas também têm planos a viabilizar e podem captar recursos via private equity, emissões privadas ou por meio de associações”, lembra. No entanto, se a crise nos Estados Unidos se prolongar, é provável que as fusões e aquisições sofram algum efeito colateral. Quanto tempo a questão do subprime ainda vai durar? Esta é uma pergunta que continua sem resposta.


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