Lições de desastres corporativos

O que fazer para evitar que transações de M&A se transformem no inferno de Dante

Bimestral/Relações com Investidores/Prateleira/Temas/Edição 80 / 1 de abril de 2010
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O estudo das tragédias que assolam a humanidade constitui um rico campo para o desenvolvimento de avanços nas mais diversas áreas do conhecimento, da sociologia à engenharia. Identificar as causas ou condições que levaram às calamidades com o objetivo de não permitir novas ocorrências no futuro interessa a todos. É o caso do professor Robert Bruner, da Darden Business School da Universidade de Virgínia. Em seu livro Deals from Hell: M&A Lessons that Rise Above the Ashes, o professor aplica esse conceito ao mundo dos negócios, em particular à análise dos motivos que transformaram algumas transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) em verdadeiras catástrofes para as empresas envolvidas e seus stakeholders.

Na primeira parte da obra, Bruner recorre à vasta produção acadêmica sobre os resultados econômicos de transações de M&A para responder a uma pergunta-chave do mundo corporativo: essas operações criam valor? Claro que o argumento nunca é simples quando se trata de um assunto tão complexo. De modo geral, ele concluiu que as negociações têm taxa de sucesso semelhante à de outras alternativas de crescimento corporativo, como pesquisa e desenvolvimento ou venture capital. No entanto, considerar o universo das transações de M&A como amostra equivale a buscar conclusões sobre uma empresa a partir de todas as consolidações que ela já fez ao longo de sua história. Isto é, as conclusões são mais relevantes à medida que se cria uma classificação dos tipos de transação e seus efeitos econômicos. A partir dessa taxonomia, o professor esclarece quais são as características das operações com maior probabilidade de sucesso, em comparação com aquelas com perfil ameaçador de destruição de riqueza.

Uma vez identificadas as vizinhanças em que as transações de M&A criam riqueza, Bruner analisa uma série de desastres reais (Chernobyl, Union Carbide em Bhopal, naufrágio de uma plataforma petrolífera, etc.) e estabelece uma lista de elementos comuns a essas calamidades. Pela ordem: a complexidade da situação e o ambiente de atuação; pequena margem para erros; decisões gerenciais que amplificam o risco em vez de mitigá-lo; viés cognitivo dos gestores (excesso de otimismo); operação fora das condições normais e reação errada aos sintomas pela equipe responsável. Finalmente, estamos equipados com as ferramentas para fazer a autópsia de dez grandes desastres em operações de M&A.

Em todos eles, iniciando com a complexa execução da fusão entre as ferrovias de Nova York e da Pensilvânia e encerrando com o malfadado programa de aquisições da Tyco International (226 negócios entre 1985 e 2002), facilmente identificamos os elementos comuns aos demais debacles humanos. Além disso, o autor esclarece as raízes do fracasso por meio de comparações com casos de sucesso. Dessa forma, consegue ser convincente em sua linha de argumentação até o último capítulo, no qual apresenta uma lista de sugestões do que deve ser evitado.

A arena de M&A não é para os fracos de coração. A dispersão de resultados para as companhias compradoras é muito ampla, mas é possível jogar com a probabilidade a favor. Naturalmente, isso requer grande disciplina para não“apaixonar-se” por uma empresa-alvo e pagar em demasia ou superestimar sinergias. Em geral, a gênese dos programas de M&A que levam a cataclismos repousa sobre a necessidade de expansão de empresas que mantiveram perspectivas irreais de crescimento embutidas nos preços das suas ações. Portanto, se você começar a sentir o cheiro de enxofre no programa de aquisições da sua companhia, faça uma reflexão: trata-se de um “hell of a deal” ou de um “deal from hell”?


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