Paulo Aragão

Desejo de mudanças

Legislação e Regulamentação/Relações com Investidores/Reportagens/Edição 121 / 1 de setembro de 2013
Por  e


 

“A bola de cristal está embaçada”, diz Paulo Aragão, logo no começo da entrevista, quando questionado sobre suas perspectivas para a próxima década. Segundo o sócio do escritório Barbosa, Müssnich & Aragão, o País passa por transformações profundas que ofuscam quem tenta olhar muitos anos à frente. Mesmo assim, o advogado não se furta a fazer algumas previsões e até uma lista desejos. Alguns deles: que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passe a ser ouvida pelo Congresso Nacional; que o empreendedorismo seja mais valorizado; e que as normas fiquem cada vez mais claras. “O investidor convive com qualquer regra, por pior que ela seja. Só não convive com a mudança de regra.”

Momento de concentração
“Mal comparando, a economia nacional é como concentração de escola de samba. Você vê cinco mil pessoas, todas numa enorme confusão, cada uma cantando a sua música, bebendo e fumando. Você olha e diz: não vai dar certo. Até que, em determinado momento, todo mundo entra junto na avenida cantando o mesmo samba, e o espetáculo é muito bonito. No momento, talvez tenhamos voltado à etapa da concentração. É uma fase de razoável preocupação, porque algumas variáveis externas, que davam a impressão de estar tudo bem deixaram de nos favorecer. Quando a maré está baixando, exige-se um certo esforço para não se deixar seduzir pelo pessimismo. Há uma frase que diz que existem dois tipos de pessoas: os pessimistas e os mal-informados.”

Ativismo
“Veremos um surto de ativismo societário. Os investidores estão infelizes, e não necessariamente com a gestão. É como quando não se está satisfeito com o médico: eventualmente, a culpa é da sua doença, mas você tenta fazer alguma coisa e troca de médico.”

Uma ação, um voto
“Provavelmente repensaremos ideias, como a da ação sem voto, no caso do investidor que não está interessado na participação política, e a de que um negócio tem que ter dono. Coisas que, quatro ou cinco anos atrás, eram anátemas.”

Lista de desejos
“Há coisas que gostaria que ocorressem, como, por exemplo, um pacto comercial com os países que realmente contam. Cada vez mais estamos conseguindo o prodígio de ser líderes do que existe de menos relevante em termos de comércio internacional. Precisamos ganhar ou restabelecer a confiança do investidor estrangeiro e do empreendedor brasileiro. Sem eles, fica difícil o mercado se desenvolver.”

Intervenção do Estado
“Hoje, temos uma volta do Estado à economia. Não acho que isso seja bom. Algumas coisas estavam indo bem em função de fatores extrínsecos e davam a impressão de que o mérito era nosso. Só que não era.
O mérito era da crise de 2008, das commodities chinesas. Estávamos fazendo algo certo? Talvez. A administração do presidente Lula teve o mérito de não mexer nas coisas que estavam dando certo. E agora estamos começando a mexer nelas. Será que darão certo de outra maneira? Difícil dizer. Mas precisamos descobrir (ou redescobrir) as nossas reais prioridades.”

Protestos populares
“Acho excelentes. É o reconhecimento de que os políticos são irrelevantes. Pelas redes sociais se organiza uma manifestação de milhões de pessoas que são contra tudo. Conforme dizia o melhor cartaz que vi: ‘Tem tanta coisa errada que não cabe no cartaz’. O Delfim [Antônio Delfim Netto, economista] deu uma definição que achei genial: só alguém com dois PhDs em economia é capaz de achar que uma pessoa que usou sabão de coco a vida inteira e agora usa Dove vai voltar para o sabão de coco porque a taxa de juros aumentou.”


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Acessar loja >




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  CVM CAPITAL ABERTO mercado de capitais Política investidor estrangeiro Comissão de Valores Mobiliários manifestações populares Paulo Aragão Barbosa Müssnich & Aragão Congresso Nacional ativismo societário intervenção do Estado comércio internacional empreendedor brasileiro escola de samba Antônio Delfim Netto uma ação um voto Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Guilherme Benchimol
Próxima matéria
Sim - Balanço mais simples



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Recomendado para você





Leia também
Guilherme Benchimol
A XP Investimentos foi aberta em 2003, com foco na educação de investidores. Em dez anos, tornou-se a mais bem-sucedida...