Lanterna da turma

Por que, apesar da efervescência econômica e dos progressos em governança, o mercado de capitais brasileiro ainda é tão menos ativo que os de outros países emergentes

Bimestral/Governança Corporativa/Reportagem/Temas/Edição 84 / 1 de agosto de 2010
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As perspectivas econômicas para o Brasil têm melhorado a cada ano. Pena que elas não venham sendo suficientes para aquecer as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) na BM&FBovespa. Após o desempenho formidável de 2007, quando o mercado de capitais brasileiro registrou históricos 66 IPOs, nunca mais presenciamos algo parecido. Em 2008, foram apenas quatro. Em 2009, seis. E até 21 de julho de 2010, oito — menos da metade do número da Malásia e de um quinto das ofertas iniciais da Coreia do Sul, países também emergentes que possuem produto interno bruto (PIB) e capitalização de mercado inferiores aos do Brasil. Uma análise dos Bric (sigla para Brasil, Rússia, Índia e China) e mais cinco países em desenvolvimento (Malásia, Coreia do Sul, Indonésia, México e Cingapura) feita pela consultoria Dealogic revela que o País só supera a Rússia, o México e a Indonésia em números de IPOs neste ano.

Em volumes, a situação é outra. Se levarmos em conta somente os IPOs com valores acima de US$ 100 milhões, a diferença entre os números de abertura de capital desaparece: o Brasil teve sete neste ano, a mesma quantidade que a Coreia do Sul, de acordo com a consultoria de mercado de capitais Renaissance Capital, baseada em Connecticut. Os IPOs somaram US$ 4,139 bilhões, mais que o levantado pelas 30 ofertas de Índia, as 14 de Cingapura e as 18 da Malásia. Há, portanto, um cenário claro de concentração. “Isso é resultado da dificuldade das empresas de médio porte em acessar a bolsa. Em muitos casos, os custos para abrir o capital são grandes demais para elas”, opina Peter Clifford, secretário adjunto da World Federation of Exchanges (WFE).

A diretora de relações com empresas da BM&FBovespa, Cristiana Pereira, valida o ponto de vista de Clifford. Nem as empresas pequenas e médias se interessam pela bolsa, nem os investidores procuram esse tipo de ativo. Da parte das empresas, avalia, o problema é cultural. “O empresariado brasileiro ainda tem uma mentalidade muito patrimonialista e prefere manter o negócio nas mãos da família”, afirma. Inverter essa dinâmica é um dos pré-requisitos para a Bolsa alcançar, em cinco anos, a meta de 200 novas companhias listadas. Daí a importância estratégica do Bovespa Mais, o segmento criado para empresas de médio porte que, até o momento, conta com apenas uma companhia listada — a Nutriplant.

Na Coreia, os investidores individuais são responsáveis por 20% das compras de papéis de IPOs

É provável que o significativo papel do BNDES no financiamento das empresas nacionais também contribua para o reduzido interesse dos empresários brasileiros em abrir o capital. A instituição contribuiu, em 2009, com recordes R$ 136,4 bilhões para o desenvolvimento das companhias, contra R$ 43,4 bilhões obtidos em ofertas primárias e secundárias de ações. O desembolso representa um crescimento de 49,5% em relação ao montante dos 12 meses anteriores. Já no ano de melhor desempenho em número de IPOs, 2007, a relação entre essas duas fontes de recursos foi bem menos desigual: enquanto o BNDES foi responsável por R$ 64,9 bilhões, as ações levantaram R$ 66,3 bilhões.

FALTA INVESTIDOR — A elevada dependência dos investimentos estrangeiros explica boa parte da falta de investidores interessados em empresas médias na Bolsa. Hoje, cerca de 70% do capital aportado em nossas ofertas iniciais vem de fora do País. “Os estrangeiros estão mais seletivos e preferem as grandes operações, que têm mais liquidez”, reconhece Fabio Mentone, chefe de banco de investimento do BBI.

Na Coreia do Sul, essa predileção dos investidores estrangeiros tem bem menos efeito, pois 60% do capital de IPOs vem de investidores institucionais nacionais, de acordo com Hyunsoo Choi, chefe de assuntos internacionais da bolsa de valores coreana. “A disputa por essas ações é acirrada. Os investidores veem os IPOs como uma boa oportunidade”, declara. A Índia também não carece de aplicadores locais. “Entre 2008 e 2009, os estrangeiros tiraram US$ 15 bilhões para capitalizar seus bancos e, mesmo assim, nós continuamos bem”, explica o professor Y.R.K.Reddy, fundador da Academia de Governança Corporativa indiana.

Diferentemente do Brasil, a Índia tem um mercado de investimento doméstico consolidado, com aplicadores — muitos deles pessoas físicas — dispostos a aportar seu dinheiro em empresas menores, mesmo que isso signifique investir em ações com liquidez mais baixa. De acordo com a assessoria para investimento em mercados emergentes EM Management, 89% do capital estrangeiro na Índia está nas 300 maiores empresas do país — suas duas bolsas de valores somavam, no fim de julho, 6.476 companhias listadas. O interesse dos investidores individuais locais também é marcante em outros mercados. Na China, segundo Seth Freeman, CEO da EM Management, a poupança tem rendimento quase nulo, o que fez com que a população adquirisse o hábito de comprar ações como opção para poupar. Na Coreia, os investidores individuais são responsáveis por 20% das compras de papéis de IPOs.

A cultura do empresariado também tem favorecido as ofertas iniciais na região. Freeman identifica uma mudança de mentalidade na Índia que se repete em outras regiões do continente asiático. Após se formarem em uma universidade de primeira linha dos Estados Unidos ou da Europa, os filhos dos fundadores voltam para casa com o objetivo de cuidar dos negócios da família. “Vale mais a pena voltar para a Índia do que ficar no exterior e conseguir um emprego em uma multinacional”, assegura. Com uma visão moderna, esses jovens incentivam a abertura de capital de suas empresas: “Os IPOs dos últimos três a cinco anos no país refletem essa mudança”, diz o CEO.

Para Sérgio Dortas, sócio responsável pela área de IPOs da Ernst & Young, o fato de o Brasil não ter uma promessa de crescimento tão voluptuosa quanto a de outros emergentes também explica o menor número de empresas dispostas a ofertar ações. Índia tem previsão de crescer 8,5% em 2010, e Cingapura, 10%, de acordo com a EM Management, contra 7,5% do Brasil (segundo o último boletim Focus). “Na China, quando a população começa a comprar motocicleta, não são vendidas 10 mil unidades, mas um milhão e meio”, enfatiza Dortas, frisando a enorme massa consumidora do país. O executivo lembra que o Brasil ainda tem diversos gargalos de infraestrutura, como a falta de rodovias e ferrovias, que inibem novos investimentos. “Estamos patinando em uma série de coisas. Temos apenas um porto do tamanho do de Santos, enquanto a China tem vários.”

PARAÍSO DO CRESCIMENTO — O gigante asiático é, sem dúvida, a vedete do momento. Somente no primeiro semestre deste ano, a China levantou US$ 56 bilhões com IPOs, ultrapassando em cinco vezes a captação dos Estados Unidos no período, de US$ 10 bilhões. E os números da Ásia mostram que não apenas a China, mas todo o continente, tem se fortalecido nos últimos anos. Segundo Leah Fuhlbrugge, analista de índices da Renaissance Capital, os IPOs previstos para o segundo semestre no mundo chegam a US$ 27 bilhões e, destes, 70% estão na Ásia. “É lá que os investidores encontram os grandes bolsões de liquidez”, ressalta Roberto Barbuti, diretor executivo de equities do Santander.

Apesar de atrativos do ponto de vista econômico, os mercados asiáticos têm muito
menos apelo em governança

Com um governo bem-visto pelos investidores, Cingapura também oferece perspectivas promissoras. “Ela está sendo administrada para se tornar um dos principais centros financeiros do mundo”, avalia Freeman. A maioria das empresas listadas na cidade-estado é estrangeira e tem visto ali boas oportunidades de retorno. A Malásia é outro mercado que tem atraído atenções. O crescimento rápido de sua economia — grande produtora de tecnologia — e a estabilidade política proporcionaram o elevado número de IPOs nos últimos três anos.

Apesar de atrativos do ponto de vista econômico, os mercados asiáticos têm muito menos apelo que o brasileiro em termos de governança. Uma enquete eletrônica durante a conferência do International Corporate Governance Network, em junho, questionou a plateia de investidores sobre qual país teria a melhor governança — entre Brasil, China, Índia e Coreia —, e o Brasil levou 71% dos votos. O sucesso do Novo Mercado, o segmento premium em governança da BM&FBovespa, é o maior responsável pela percepção positiva generalizada dos investidores internacionais sobre as práticas corporativas no Brasil.

O Brasil também se sai bem quando analisada a rentabilidade dos IPOs. O levantamento da Dealogic mostra que os oito IPOs de 2010 proporcionaram um retorno médio de 12,8%, acima de Índia (5,4%) e não tão longe da China (14,8%). Coreia e Indonésia, é verdade, nos superaram de longe: 35,3% e 57,6% de retornos médios, respectivamente.

OTIMISMO — Várias das empresas que entraram na fila de registros da CVM para fazer um IPO desistiram neste primeiro semestre. No fechamento desta edição, apenas uma, a Autometal S.A., aguardava o sinal verde da autarquia para fazer o seu IPO. Mas as previsões para o resto do ano são mais otimistas. “Passada a fase de férias no hemisfério norte, que vai até o fim de agosto, o Brasil voltará a ter IPOs”, prevê Alberto Kiraly, chefe da área de banco de investimento do Votorantim. Barbuti concorda: “Temos empresas investindo em novos projetos e um sentimento de confiança tanto do consumidor quanto do empresariado.”

Algumas companhias aguardam a oferta da Petrobras, prevista para setembro, para ir à Bolsa. A operação, avaliada em cerca de US$ 25 bilhões, é, junto com a crise na Europa, uma das principais causas para o número acanhado de IPOs este ano. Os investidores internacionais estariam contendo seus investimentos para comprar mais papéis da petrolífera, sem ultrapassar seu limite de alocação de recursos no País.

Para Ivan Clark, sócio da PricewaterhouseCoopers (PwC) na área de mercado de capitais, as ofertas abaixo da linha de preço — foram cinco no último semestre — podem continuar se o cenário econômico internacional permanecer instável. Apesar disso, ele espera que o País tenha cerca de dez IPOs entre setembro e dezembro, de empresas das áreas de varejo, agronegócio, infraestrutura, além de fornecedores ligados à Petrobras e à Vale.

A PwC tem uma lista de mil empresas candidatas a abrir o capital nos próximos cinco a oito anos. “Mesmo que nem todas decidam ir a mercado, as perspectivas são excelentes”, observa Clark. A Copa do Mundo em 2014 e a Olimpíada em 2016, ambas no Brasil, também prometem dar novo ânimo à economia. ”Embora ainda não seja grande o efeito desses eventos, eles vão ganhar importância daqui para a frente”, antevê Kiraly.


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