Jeitão de banco

Com controle de riscos sofisticado, Minerva atinge preços melhores que os da concorrência e incrementa margens

Captação de recursos / Temas / Edição 74 / 1 de outubro de 2009
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Quem conversa com executivos da área de relações com investidores do frigorífico Minerva pode ter a impressão de estar batendo papo com alguns desses enérgicos jovens de bancos de investimento. Não se trata exatamente disso. Mas também não é muito diferente. De controle familiar e sediada em Barretos, ao norte do Estado de São Paulo, a companhia adotou um modelo de gestão que inclui área de research com analistas, traders e até mesmo uma metodologia que calcula o “value at risk” (VAR) do boi – no melhor estilo do mercado financeiro. Na prática, essa equipe interna, montada com profissionais egressos de bancos e corretoras, acompanha atentamente as cotações da arroba do boi, aqui e lá fora, e traça cenários futuros.

Trazer práticas arrojadas como essa para dentro de casa tem, única e exclusivamente, a finalidade de gerenciar o risco do negócio com lupa de detetive e garantir as melhores margens. “O foco é avaliar todo o tipo de risco”, diz Edison Ticle, há sete meses diretor de tesouraria, função que exercia, antes, no Safra. O executivo, que também já passou pelo Pactual e pela Cargill, assegura que esse modelo de negócio, bastante difundido em processadoras de soja, tem garantido à companhia preços mais atraentes que os da concorrência.

Outra vantagem desse sistema de gestão de risco, segundo Ticle, é a agilidade. Ele permite que o frigorífico mude o curso das vendas ao mercado externo – de onde vêm mais de 80% das receitas –, caso uma ou outra praça internacional sofra algum revés. “Se um país entra em crise, afetando a demanda, conseguimos rapidamente migrar para outro, sem prejudicar muito as nossas vendas”, afirma. Esse movimento foi fundamental para livrar o Minerva de uma deslizada que sofreu no ano passado, quando tinha 25% das exportações concentradas nas mãos de um só país. “Tínhamos uma exposição enorme ao mercado que chamamos de Eurásia, em particular a Rússia e a Ucrânia”, conta Ticle. “Com a queda de embarques para esses países, diversificamos os mercados, focando na Ásia e, principalmente, em países do Oriente Médio.” Resultado: a Eurásia passou a representar 12,6% das exportações no segundo trimestre do ano, ante 50,7% em igual período do ano anterior. Em razão disso, as exportações totais cresceram 24,4% em comparação ao mesmo período do ano passado, para R$ 487,9 milhões.

O aumento dos embarques fez com que a empresa fechasse o segundo trimestre com utilização de 80% de sua capacidade de abate de bovinos – de 6,6 mil cabeças diárias. Ainda utilizando-se igual base de comparação, a receita bruta somou R$ 629,3 milhões, 25,8% mais do que no mesmo período de 2008. Assim como a utilização da capacidade instalada, o market share também alcançou níveis recordes, passando de 10,1% no quarto trimestre para 16,4% no primeiro trimestre. O desempenho positivo contribuiu para um lucro acanhado de R$ 1 milhão, mas que veio para sepultar um prejuízo de R$ 179,7 milhões, registrado nos três últimos meses do ano, por conta dos efeitos da variação sobre a dívida em dólar. No primeiro trimestre do ano, o ganho havia sido zero.

A perda no fim do ano desanimou o mercado e jogou os papéis do Minerva no chão. A ação chegou a valer R$ 1,50. Foi uma baixa expressiva para uma companhia que estreou na bolsa a R$ 18,50, em julho de 2007. Desde o começo do ano, porém, as ações vêm escalando rumo ao topo. De janeiro até agosto, os papéis se valorizaram 216%, mas ainda estão bem abaixo dos tempos áureos. De 3 de agosto a 22 de setembro, quando a ação bateu em R$ 5,41, a valorização foi de 23%; enquanto os papéis de seus dois maiores concorrentes, a JBS e a Marfrig, subiram 21% e 11%, respectivamente.

Apesar de seus papéis terem subido mais que os da Marfrig, mas em linha com as ações da JBS, o Minerva foi o que esteve numa posição mais conservadora até agora no setor, que, desde setembro, vem passando por um processo acelerado e inesperado de consolidação. A JBS Friboi, líder do setor, comprou a americana Pilgrim’s Pride e anunciou fusão com a Bertin, em duas operações milionárias.

A Marfrig estremeceu o mercado ao noticiar a compra da Seara, pagando à Cargill US$ 900 milhões. Em seguida, comunicou o arrendamento de 12 plantas dos frigoríficos Margen e Mercosul e a compra de 51% do Zenda, que processa couros bovinos no Uruguai, por US$ 49,5 milhões. Apenas para pagar a compra da empresa americana, a JBS fará uma emissão privada de US$ 2,5 bilhões, nos Estados Unidos. A Marfrig também prepara uma oferta de ações, ainda sem valor definido, mas que deve ficar na casa dos bilhões.

O Minerva corre por fora. Silencioso. Ticle assegura que não há nada em curso, mas não deixa de repetir aquela conhecida frase de que “o grupo está sempre olhando boas oportunidades”. Concentra-se no aumento de capital, estimado em R$ 160 milhões, dos quais os controladores vão comprar R$ 110 milhões.


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