“It can be done”

Álvaro de Souza

Bimestral / Governança Corporativa / Temas / Retrato / Edição 104 / 1 de Abril de 2012
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O economista Álvaro de Souza não gosta de política. Na linha de Winston Churchill, define a democracia como o “menos pior” dos sistemas. Mas quando o telefone tocou, não pôde deixar de atender ao apelo: “Dom Álvaro, preciso muito de você”. Somente uma pessoa chama o ex–presidente do Citibank no Brasil de “dom” — Marina Silva, na época candidata à Presidência da República pelo Partido Verde (PV). Ao chegar ao seu encontro, Souza deparou–se com um pequeno grupo de empresários capitaneado por Guilherme Leal. Amigo dos tempos de colégio em Santos, o vice da chapa de Marina já o havia convencido a “organizar o modelo financeiro da campanha”. Porém, depois de montar uma área de compliance que assegurava a lisura nas doações, Souza tinha dado a missão por encerrada. “Precisamos de você”, Marina repetiu. Ele aceitou tornar–se tesoureiro.

“Quando dei por mim estava até fazendo discurso”, diverte–se ao lembrar da campanha. A ironia deve–se não apenas à implicância com a política, mas também ao fato de a bandeira ecológica, fincada quando se tornou conselheiro da WWF Brasil, ter sido incluída na categoria das “causas perdidas” que seriam abraçadas por ele após deixar a vice–presidência executiva do Citigroup, em 2001 (as outras eram o trabalho como conselheiro de empresas e a gestão de um fundo de private equity). Souza, no entanto, parece ter levado também para as “causas perdidas” a plaquinha que mandara fazer no auge da carreira em áreas de banco de investimento: “It can be done”.

Resultado: os 14 milhões de votos previstos para Marina se transformaram em 20 milhões, e Souza é hoje presidente do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). No Santos Futebol Clube, outra “causa perdida”, as expectativas também foram superadas. Souza foi um dos fundadores do Movimento Resgate Santista, concorreu a três eleições, até finalmente conseguir entrar na diretoria do clube e ajudar em sua reestruturação, implementando conceitos de governança corporativa. Dentre outros feitos, viabilizou a contratação do jogador Robinho, em 2010.

“É verdade, eu montei a estrutura (financeira) para trazer o Robinho, que acabou replicada no caso de Neymar”, confirma ele. “Mas isso era segredo. Como você sabia?” Conforme convém aos servidores de “causas perdidas” (“Foi minha mulher quem batizou assim, porque o retorno não é proporcional ao esforço”), Souza evita atribuir–se méritos nessa categoria — o contrário do que faz quando se trata das “causas oficialmente ganhas”.

A modéstia, afinal, não é traço dominante para quem atende pelo título de “dom” ou alguém cuja envergadura garante saques indefensáveis em quadras de tênis. “Gosto de um tipo de jogo chamado ’saque e voleio’. Em vez de ficar trocando bola lá atrás, empurro o adversário para fora da quadra e subo na rede para pressioná–lo”, explica Souza, que prefere oponentes uma década mais jovens do que os seus 63 anos. “O tênis é competitivo; preciso descarregar energia em atividades assim.”

Energia e competitividade não lhe faltaram em 32 anos de carreira no Citibank, aonde chegou como trainee e saiu como vice–presidente internacional, em Nova York. Nascido em Portugal, Álvaro de Souza mudou–se com a família para o Brasil ainda criança, fugindo da ditadura salazarista. Criado em Santos, era bom aluno sem esforço, até que as tentações da praia e da adolescência o deixaram em “segunda época” no colégio. Foi quando o pai determinou: além de estudar para a prova final, trabalharia durante as férias. “Coloquei calça, camisa e sapato e fui trabalhar como arquivista na Cúria diocesana de Santos. Aí descobri o que era ganhar dinheiro e não depender de ninguém.”

O êxito no processo de seleção para trainees do Citi é atribuído menos à faculdade de economia da PUC de São Paulo, que seria complementada com o curso de administração, e mais ao seu desempenho durante a entrevista. “Sempre soube me colocar bem. Minha mãe me ensinou a ler com cinco anos; tive uma formação que misturava exatas e humanas.” Com a “vantagem competitiva” de dormir apenas quatro horas por noite, e a disponibilidade para mudar de cidade compartilhada com entusiasmo pela mulher Sueli, a carreira no banco decolou. Houve apenas uma interrupção, quando ele foi preterido na escolha do primeiro presidente brasileiro do banco. Rejeitou os postos que considerava prêmios de consolação, foi trabalhar na Globopar e acabou chamado de volta três anos depois. Para ser presidente.

“Era um momento complicado. O Brasil estava em moratória, e o Citi era o principal credor”, recorda. O ambiente era de confrontação, com pressões da matriz por um lado e do Banco Central por outro. Se foi muito estressante? Ele sorri e cochicha: “Foi maravilhoso”. Afinal, para Souza, “o estresse é o combustível da realização”. A matriz desistiu de cobrar a dívida na Corte Internacional de Justiça, e o Citi saiu de um prejuízo anual de US$ 25 milhões para um lucro de US$ 250 milhões em três anos. “Consegui virar o jogo. Foram dois anos espetaculares.”

O ritmo foi mantido com a promoção para Nova York, onde ele dispunha de um pequeno apartamento na sede do banco para emendar as jornadas. Lá participaria da fusão da Citicorp com o Travelers Group, formando a maior empresa de serviços financeiros do mundo, em 1998. Nessa época, começou a pensar na volta ao Brasil. “A relação entre poder, responsabilidade e realização já não era divertida”, diz ele. Mas talvez o mais decisivo tenha sido o seu choque ao assistir a um vídeo gravado durante a missa celebrada no aniversário de 75 anos de seu pai, em Santos, em que ele próprio dizia algumas palavras. “Eu estava com sotaque. Ia virar um gringo. Tinha que voltar.”

Em vez de virar gringo, Souza levou sua experiência para conselhos de administração — atua nas empresas Gol, Duratex e CSU, além do comitê de auditoria da Ambev. E para outras causas, brasileiras, nem sempre perdidas.



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