Insanidade coletiva

Panic faz uma revisão das crises financeiras desde o crash da Bolsa de Nova York, em 1987, até o recente episódio das hipotecas

Bimestral/Relações com Investidores/Prateleira/Temas/Edição 75 / 1 de novembro de 2009
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Olhar para os acontecimentos pelo retrovisor nos traz a falsa e, ao mesmo tempo, reconfortante sensação de que podemos explicar o comportamento dos mercados através dos chamados “fundamentos”. Aos interessados em uma melhor compreensão das crises financeiras mais relevantes nos últimos 30 e poucos anos, Panic – the story of modern financial insanity, de Michael Lewis, autor do clássico Liar’s Poker, oferece um verdadeiro “jantar de Babette”. No livro, ele combina textos veiculados em revistas, jornais — e até blogs — para atender a paladares exigentes em termos de análise e jornalismo financeiro.

Alguns deles emolduram os momentos antes da eclosão das crises, expondo elementos que viriam a ser fundamentais para explicar a derrocada posterior. Outros se prestam às famosas “autópsias do mercado”, dissecando os motivos para a violenta correção de preços. Mas o certo é que todos revelam importantes lições que deveriam ser aprendidas para o gerenciamento de crises e que, contudo, costumam ser atropeladas pela gangorra emocional que alterna a ganância e o medo. Quando todos os investidores vão para o mesmo lado do barco, os mecanismos de proteção de risco tradicionais deixam de funcionar.

A obra, dividida em quatro partes, cobre os principais “tsunamis” financeiros desde 1987: o crash da bolsa americana em 19 de outubro de 1987 (“Black Monday”); as crises cambiais de México, Ásia, Rússia e Brasil; o estouro da bolha da internet; e o estouro da bolha dos mercados imobiliário e de hipotecas norte-americanos.

Um traço interessante entre os quatro blocos do livro é a necessidade de achar um culpado para as crises. Segundo os textos, a “Black Monday” foi causada pelo efeito de uma estratégia de proteção de portfólio computadorizada, e as crises cambiais foram culpa do FMI e da especulação dos fundos de hedge. Já a bolha da internet foi inflada pelos analistas de Wall Street. Apenas para a crise do subprime o quadro é mais difuso: agências de rating, originadores de hipotecas, bancos de investimento e, até mesmo, Alan Greenspan figuram entre os acusados. Um dos artigos, obviamente controverso e cheio de ironia, responsabiliza a classe menos favorecida pela crise. Afinal, ela não deveria ter aceitado as tentadoras ofertas de zero de entrada e baixos juros de curto prazo garantidos pelos bancos.

Outro aspecto interessante que emerge da busca por elementos comuns a essas crises é que os fatos citados nas três primeiras partes do livro tiveram, aparentemente, menos impacto sobre a economia real dos Estados Unidos, que se recuperou com razoável rapidez. Isso aconteceu porque houve uma perda patrimonial significativa dos investidores, mas exceto por esse “efeito riqueza”, o lado real da economia não foi tão afetado. Já a recente crise do subprime gerou um abalo enorme na confiança do povo americano, o que atingiu de forma mais severa e duradoura a economia do país. Além disso, os pacotes fiscais para conter a crise bancária e estimular o crescimento econômico pressionaram a moeda norte-americana e causam preocupação quanto aos níveis de inflação.

A obra tem seus bons momentos, no que diz respeito tanto à diversão quanto à técnica, promovendo um interessante pingue-pongue entre o jornalismo e a academia. No entanto, não dá para negar uma certa sensação de vazio ao terminá-la. É difícil dizer se ela é de um “já acabou? Quero mais” ou de “já acabou? Que mixaria”. Parece-me que a gangorra emocional não é um conjunto de sensações circunscrito apenas aos investidores.


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