Incentivo bem-vindo

Com o fim do contrato predefinido, é mais provável que auditorias se mantenham independentes



Tal como a contabilidade, a atividade da auditoria também nasceu dentro das empresas. Há evidências do que chamamos de auditoria que remontam às guildas britânicas (corporações de ofício que procuravam defender interesses de classe) no século 14, muito antes da estruturação do mercado de capitais e de sua regulação. Portanto, ao contrário do que possam acreditar alguns, a auditoria não é consequência da regulação, e sim, do problema clássico da governança: assimetria informacional e conflito de interesses.

A ideia de um terceiro que atue sobre a informação contábil é compreensível à luz do desenvolvimento do capitalismo. Nesse contexto, parece bastante razoável a teoria de que, para justificar sua existência, o auditor deve ser competente, a fim de detectar eventuais falhas, e independente, para reportá-las aos usuários de seu relatório.

São debatidas há tempos as ameaças à independência do auditor, como o tempo de relacionamento contínuo com seu cliente e a eficácia da autorregulação no mercado de auditoria. Já nos anos 70, o Senado norte-americano levantou a preocupação sobre os riscos de exposição prolongada do auditor a uma mesma empresa, e não tardaram a surgir estudos acadêmicos sobre a questão.

De um lado, pesquisadores buscaram construir suas hipóteses fundamentando-as em conceitos da psicologia, como a dependência e a confiança adquiridas no tempo. De outro, destacaram-se os cientistas que estudaram os incentivos econômicos do auditor em ser ou não independente. Segundo essa visão, ele optará por ser mais independente se avaliar que as perdas superam os benefícios da hipótese de não sê-lo.

Nesse cenário, a rotação obrigatória das firmas de auditoria — nascida no Brasil nos anos 90 como resposta aos diversos episódios de falências e aquisições hostis dessa época — atua sobre esse balanceamento de ganhos e perdas feitos pelo profissional no processo de decisão sobre sua autonomia. Ao impor um limite temporal no contrato de auditoria, o regime de rodízio modifica a equação dos incentivos e induz o auditor a uma decisão em favor da independência. Afinal, com um futuro contratual finito na partida, menores serão os incentivos para não agir dessa forma, visto que os benefícios econômicos são limitados e decrescentes ao longo do tempo.

Entretanto, o tempo não é a única variável nessa discussão. Em minha tese de doutorado, defendida em 2010, foram coletadas evidências de que a qualidade das auditorias no Brasil é fortemente influenciada pela governança corporativa, pelo tamanho das firmas de auditoria e pela especialização do auditor. As boas práticas alteram os incentivos à independência e potencializam a qualidade das auditorias ao equilibrarem melhor as forças entre os distintos interesses no seio da empresa. O tamanho das firmas de auditoria também pesa: as maiores têm mais a perder se não forem independentes. E a especialização do auditor em determinado ramo também contribui para um melhor desempenho no setor.

Na questão da governança, imaginemos o exemplo de uma empresa cujo conselho de administração (a quem compete escolher e destituir os auditores) não seja “dominado” pelo controlador e na qual atue um bom comitê de auditoria. Teremos, provavelmente, qualidade superior no trabalho da auditoria externa.

Por isso, cabe seguir na jornada em busca da melhoria da governança corporativa, da educação continuada dos nossos auditores e do cumprimento das leis.


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Tags:  CVM Auditoria interna/ externa Comitê de auditoria Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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