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Investidores estrangeiros reatam laços com o País e reforçam suas participações acionárias nas companhias listadas em bolsa

Captação de recursos/Reportagem/Temas/Edição 70 / 1 de junho de 2009
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Em meados de maio, novamente o empresário Eike Batista atraiu para si os holofotes ao anunciar uma parceria entre as suas crias MMX e LLX e a Wuhan Iron and Steel, a terceira maior produtora de aço da China. O acordo prevê, dentre outros pontos, a construção de uma planta siderúrgica na região do Porto do Açu, no Rio de Janeiro, e poderá resultar na venda de uma fatia minoritária do capital da MMX (ou de sua subsidiária MMX Sudeste) para a companhia chinesa. Mais do que uma façanha de Eike, o negócio representa a retomada da confiança dos estrangeiros em ativos brasileiros, superado o período mais crítico da crise.

O volume negociado por esse tipo de investidor em bolsa atingiu, em maio (até o dia 26), o mesmo percentual de setembro, quando a falência do Lehman Brothers detonou a crise: 35,8%. O número chegou a 33,5% em novembro, a pior atuação internacional desde agosto de 2007. As operações de compra por estrangeiros somaram R$ 34,4 milhões em maio, ante R$ 29,3 milhões em vendas. O volume pode estar longe daquele de setembro (R$ 43 milhões), mas já é bem maior que o de novembro, que não passou de R$ 23,4 milhões.

Seja pelo preço baixo das ações em bolsa, seja por vantagens competitivas específicas, companhias listadas na BM&FBovespa reataram o relacionamento com o público externo. No fim de março, a Inpar concluiu um aumento de capital que injetou R$ 180 milhões nos cofres da empresa. Das 102,8 milhões de ações ordinárias emitidas, um fundo da norte-americana Paladin Realty Partners subscreveu 97,6 milhões, por R$ 170 milhões. Uma ajuda e tanto para quem havia fechado o ano com prejuízo de
R$ 75 milhões. O apetite dos gringos não se resume às chamadas ofertas primárias de ações, cujo objetivo é enxertar o caixa das companhias. No dia 19 de fevereiro, o banco Natixis, da França, colocou à venda mais de 12,5 milhões de ações ON da concessionária de serviços públicos Triunfo Participações. Os papéis foram abocanhados pela também francesa Carmignac, por cerca de R$ 17 milhões.

A gestora de recursos Carmignac está familiarizada com o setor de construção civil brasileiro. Em abril, adquiriu mais ações da Cyrela Realty, aumentando sua participação no capital da incorporadora paulista para 6,75%. A Cyrela Realty, aliás, é um dos papéis favoritos da gestora francesa: ocupa 2,3%da carteira do Emergents, seu fundo de € 683 milhões dedicado a países emergentes. A AmBev, com 2%, também compõe a lista dos dez principais ativos do Emergents. O fundo conta com uma equipe de gestão formada por quatro profissionais, que escolhem as empresas com base em análise fundamentalista. Um deles, Simon Pickard, vem ao País três vezes ao ano para visitar empresas. “Para complementar, consultamos analistas brasileiros antes de decidirmos um investimento”, conta.

À FRENTE DOS BRICS — Em abril, a maior parcela do portfólio do Emergents, 16,9%, era verde-amarela. Logo atrás vinha a China, com 15,1% da carteira. Mais abaixo, aparecem Índia (9,7%) e Rússia (2,9%). Questionado pela CAPITAL ABERTO sobre o porquê da preferência pelo Brasil, Pickard não especifica o que de tão atraente encontrou nas companhias daqui. Ele prefere destacar os fundamentos macroeconômicos. “O Brasil é rico em recursos naturais, possui uma demanda interna de consumo interessante, com população jovem e estrutura política confiável”, elogia. Para a Carmignac, a ex-União Soviética é o menos atraente dos Brics. “A Rússia tem vários recursos naturais, mas é muito dependente deles. Além disso, sua população está envelhecida”.

Desde que iniciou suas operações, em 1989, a Carmignac frequenta os pregões da BM&FBovespa. No começo, os recursos eram direcionados apenas para as blue chips Petrobras e Vale, mas, de uns anos para cá, por conta do renascimento do mercado de capitais brasileiro, um vasto número de companhias ingressou nas carteiras de seus fundos: Brasil Telecom, CCR, Cemig, CSN, Globex, Eletrobrás, Itaú, MRV, Rossi e Souza Cruz, dentre outras.

Uma das maiores administradoras de fundos do planeta, com mais de US$ 1,4 trilhão sob gestão, a Fidelity Investments integra o time de responsáveis pelo fluxo positivo de dólares. Semanas atrás, alcançou a marca de 6% do capital da Iguatemi Empresa de Shopping Centers, que tem outros 14% em mãos estrangeiras. Em janeiro, a Fidelity havia comprado 18,3 milhões de ADRs e 177,2 mil ações preferenciais da Vivo Participações, chegando a 5,04% do capital da operadora de telefonia celular.

Para Cristina Betts, diretora financeira e de Relações com Investidores (RI) do grupo Iguatemi, o casamento tem se mostrado harmonioso desde a oferta pública inicial (IPO). O bom convívio, obviamente, requer atendimento especial. “Viajamos uma vez por mês ao exterior para dar satisfações ao nosso acionista e sempre recebemos muitos estrangeiros em nosso escritório”, conta Cristina. Quando a entrevista foi realizada, em maio, ela estava em Londres para comentar os resultados do primeiro trimestre para um grupo de investidores. O esforço, diz Cristina, tem valido a pena.

MAIS QUE DINHEIRO — O estreito convívio com o investidor estrangeiro proporciona às companhias outras benesses além do acesso ao capital. Algumas passam a adotar práticas inéditas depois de experimentarem a sinergia com os gringos. Na última divulgação trimestral de resultados, a Brascan Residential Properties começou a usar o “supplemental information”, uma sugestão da canadense Brookfield Asset Management, sua acionista controladora. O material contém dados complementares à divulgação — como liquidez dos papéis, desempenho operacional e recomendações dos analistas —, e seu uso é comum, principalmente nos Estados Unidos. “Em um de nossos encontros, a Brookfield comentou sobre a boa receptividade do supplemental no mercado de lá e nos apresentou a ideia”, conta Luiz Rogelio Tolosa, diretor de RI da Brascan.

Mas não é só de alegrias que vive a relação de uma empresa com investidores de fora. A mesma instituição que traz quantias polpudas e injeta liquidez na Bolsa pode embarcar no primeiro avião quando as coisas apertam em seu mercado doméstico. Na recente turbulência financeira, muitos fundos internacionais precisaram se desfazer dos papéis brasileiros para cobrir pedidos de resgates na Europa e nos Estados Unidos. Um deles foi o gigante Capital Group. Em 14 de abril, o gestor de US$ 1,3 trilhão em ativos se desfez de 5,6 milhões de ações preferenciais do Bicbanco, representativas de quase 5% do total dessa classe de papéis. “Esse cenário é circunstancial. Com a melhora das condições, voltaremos a investir mais no Brasil, do qual gostamos muito”, diz Chuck Freadhoff, porta-voz do Capital Group.

A presença de outros emergentes nos portfólios do Capital Group confirma a declaração de apreço. O fundo Capgroup Global Equity, com investimentos em ações e renda fixa em vários países, tem 1,1% (US$ 864 milhões) de seu patrimônio alocado no Brasil, contra 0,4% na China, 0,5% na Índia, e 0,3% na Rússia. “Muitas vezes, saímos de uma companhia a contragosto”, diz Freadhoff. Cristina Betts, do Iguatemi, lembra que, durante os piores momentos da crise, ouviu de estrangeiros essa história: mesmo gostando muito da empresa, precisavam ir embora. “Muitos estavam com 80% de resgates nos fundos, portanto saíram pela necessidade e não porque não acreditavam mais na companhia.”

A Embraer é uma das queridinhas dos investidores estrangeiros. Em março, o banco britânico Barclay’s comprou ADRs que lhe permitiram alcançar a fatia de 5,01% da fabricante de aeronaves. A companhia sabe que tão importante quanto o trabalho feito com o aplicador internacional é o empenho para equilibrar a diversidade da base acionária. A companhia chegou a ter mais de 50% de seu capital listado na Bolsa de Nova York (Nyse), na forma de ADRs, mas após um trabalho de aproximação com investidores domésticos, essa relação se inverteu. Hoje, 50,6% das ações são negociadas na BM&FBovespa, e 49,4% na bolsa norte-americana. “Esse equilíbrio distribui a liquidez de nossos papéis e traz mais valor à companhia”, avalia Luiz Carlos Aguiar, vice-presidente financeiro e de RI.


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