Um grande equívoco

Cota para mulheres em conselho desconsidera a inclinação espontânea da sociedade

Governança Corporativa / Artigo / Edição 128 / 1 de abril de 2014
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A presença de mulheres em conselhos de administração está na ordem do dia. Em novembro de 2013, a capital aberto publicou extensa reportagem sobre o tema, seguida por matérias semelhantes em outras revistas especializadas. O assunto é tratado, de modo sistemático, como parte de um contexto politicamente correto. Seria necessário oferecer às mulheres oportunidades mais efetivas para ascensão profissional e corporativa.

O processo histórico de incorporação delas à vida econômica ativa no Brasil é razoavelmente recente. Os direitos civis plenos foram conquistados ao longo das décadas de 1930 e 1940. Após a 2a Guerra Mundial, iniciou-se o ingresso em larga escala na força de trabalho. E, gradualmente, durante a segunda metade do século 20, cresceu a qualidade das funções atribuídas às mulheres, pela educação e pelo aprimoramento da formação acadêmica. A emancipação e a liberação sexual dos anos 1960 aceleraram essa tendência. Estamos diante de fenômeno natural e, como reza o velho brocardo latino, natura non facit saltus: a natureza não dá saltos. A inclinação espontânea da sociedade é que as mulheres venham a ocupar na vida econômica os mais variados cargos e funções, em quantidades proporcionais à sua participação percentual no quadro demográfico do país.

O assunto não é político. Diz respeito aos princípios que regem a livre iniciativa. Afinal de contas, companhias privadas devem ser preservadas como território exclusivo de mérito, racionalidade e eficiência, sem concessões a experimentos sociais — até porque não estão sob domínio público. Seu objetivo é produzir lucro e remuneração aos acionistas. E, em consequência desse egoísmo implícito em sua atuação e da competição inerente à liberdade de mercado, proporcionar indiretamente o bem-estar da população e largos benefícios sociais. Isso resulta de produtos e serviços melhores e mais acessíveis aos consumidores, além de empregos em profusão.

O mercado conhece e detecta melhor do que a sapiência estatal, legislativa ou burocrática, o que é conveniente e natural. E está sabendo usar a afluência e a competência femininas em prol de suas necessidades e demandas. Segundo a matéria da capital aberto, a fabricante de calçados Arezzo incorporou, recentemente, três mulheres a seu conselho. A razão é simples: os negócios da companhia são essencialmente voltados para o público feminino. Não foram cotas que geraram a providência, mas imperativos mercadológicos. É a natureza agindo sem fazer saltos.

Assim também, Graça Foster preside a Petrobras, maior empresa brasileira, e Cláudia Sender dirige os destinos da TAM, principal companhia aérea do país. Por sua vez, Maria Helena Santana, ex-presidente da CVM, tem assento nos conselhos do Pão de Açúcar e da CPFL. Já a poderosa Luiza Trajano comanda uma das maiores redes varejistas do país. A trajetória e o mérito individual as projetaram no cenário empresarial em que convivem. Como elas, cada vez mais mulheres ascenderão a postos de mando no mundo corporativo, na medida de suas capacidades.

Será um grande equívoco se o Brasil decidir por criar uma artificial presença feminina nos cargos diretivos das empresas privadas, mesmo que outros países o tenham feito. Tal medida comprometerá o desempenho da economia e produzirá, na verdade, uma indesejável cristalização de situações e dispensável disputa de gêneros. A natureza e o mercado cumprirão melhor o papel de equalizar as oportunidades, de acordo com as qualificações individuais de mulheres e homens.


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Tags:  conselho de administração mulheres cotas CAPITAL ABERTO mercado de capitais Maria Helena Santana Arezzo Luiza Trajano natura non facit saltus ascensão profissional Graça Foster Cláudia Sender Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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