Raízes da desonestidade

É preciso compreender os fatores psicológicos que levam as pessoas a burlar as regras



O objetivo maior da boa governança empresarial é criar um ambiente em que as pessoas tomem decisões voluntárias para o bem do negócio e cumpram as regras. Logo, um aspecto-chave para o administrador é a compreensão profunda do que leva os funcionários a não seguir as políticas e normas da empresa.

A visão tradicional sobre o assunto parte do pressuposto de que eles tendem a burlar as regras caso o ganho decorrente de uma atitude desonesta se mostre superior ao seu “custo”: a probabilidade de ser pego multiplicada pela penalidade potencial. Em outras palavras, a premissa é que as pessoas analisam racionalmente se vale a pena atuar dentro das regras.

Diversos estudos recentes mostram que essa visão é extremamente limitada, senão errada. Na verdade, a propensão à conduta desleal — raiz de muitos escândalos de governança — depende mais de fatores psicológicos do que do risco de ser identificado e sofrer punição.

A grande conclusão desses trabalhos é que a tendência a trapacear depende fundamentalmente da capacidade de racionalizar nossas ações, isto é, de preservarmos uma autoimagem positiva mesmo após termos feito coisas erradas. Com isso, conseguiríamos o “melhor dos mundos”: no aspecto econômico, teríamos um ganho pessoal decorrente de ações antiéticas e, no âmbito psicológico, manteríamos uma visão moralmente positiva de nós mesmos.

Além dessa conclusão geral, as pesquisas constataram que ao menos oito fatores psicológicos — muitos deles catalisados pelo ambiente de trabalho em grandes corporações — aumentam a chance de as pessoas agirem desonestamente. Vamos a eles:

1. Exaustão mental: o desgaste devido a estresse, falta de sono e outras causas reduz a barreira ética.

2. Sentimento de vingança: as ações desonestas são mais fáceis de justificar quando vistas como forma de compensação por pessoas que se sentem prejudicadas ou injustiçadas pela empresa.

3. Repetição: perpetrar pequenos atos ilegais, como o uso de produtos falsificados, faz crescer a probabilidade de praticá-los novamente.

4. Convívio com cultura que fomenta a desonestidade: viver em um meio que estimula atitudes antiéticas, inclusive pelo comportamento inadequado por líderes e pares, eleva a frequência das condutas desleais.

5. Ambiente de concorrência extrema: as atitudes desonestas são mais comuns entre pessoas sujeitas a fortes pressões competitivas.

6. Criatividade: um indivíduo criativo tem maior capacidade de racionalizar seu comportamento, o que pode causar um acréscimo de desonestidade.

7. Vantagens não monetárias: a propensão a burlar regras aumenta na medida em que o benefício do infrator se distancia de um ganho em dinheiro.

8. Benefícios aos pares: a tendência à deslealdade cresce quando a pessoa acredita que seus atos irão de alguma forma favorecer a organização ou terceiros pelos quais sente empatia.

Há uma vasta literatura a demonstrar que o ganho econômico pessoal e a probabilidade de ser punido influenciam muito menos o comportamento humano do que se poderia esperar.

Como resultado, a abordagem tradicional das empresas para a questão dos controles internos — em geral, baseada na ampliação do monitoramento e das penalidades potenciais como únicos recursos para evitar comportamentos indesejados — deve ser revista, passando a levar em consideração os fatores psicológicos mencionados.

Referência: ARIELY, Dan. A mais pura verdade sobre a desonestidade. Rio de Janeiro: Campus, 2012.


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