Os perigos de um clichê

O tão popular “foco no resultado” gera graves riscos éticos às empresas

Governança Corporativa/Governança / 18 de abril de 2019
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Os perigos de um clichê

Ilustração: Rodrigo Auada

Um chavão é hoje popular entre as empresas: “foco no resultado.” O pano de fundo por trás desse conceito é compreensível: as empresas precisam de lucro para sobreviver e, portanto, as pessoas deveriam se concentrar nas atividades que agregam valor à companhia em lugar de tarefas supérfluas ou improdutivas.

Há frequentemente, contudo, um efeito colateral perigoso da ênfase do foco no resultado: a interpretação pelos executivos de que precisam entregar as metas a qualquer custo. Esse não é um risco infundado. Estudo feito com experts em corrupção empresarial (ex-executivos de empresas corruptas, jornalistas investigativos e policiais) concluiu que “o foco excessivo nos resultados financeiros é uma característica-chave de culturas organizacionais antiéticas” e que o valor de “orientação para os resultados” leva a uma premissa generalizada de que os fins justificam os meios. Um entrevistado bem sintetizou: “Eu tenho que alcançar os resultados e ninguém quer saber como faço isso; o importante é entregar os números.”1

Um exemplo clássico dos efeitos perniciosos desse conceito ocorreu com a Enron em 2000. Ela afirmava ter um “foco como raio laser” no resultado. No Brasil, diversas companhias adotam “foco no resultado” como valor essencial ou atitude desejada. Casos da Camargo Corrêa em seu relatório de 2012, da JBS em seu relatório de 2014 — ambas envolvidas em escândalos de corrupção — e da Oi em seu relatório de 2017 (maior caso de recuperação judicial no Brasil).

Para os professores Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho, sequer faz sentido incluir o termo “foco” à frente de qualquer termo quando se trata de valores com pesos iguais. O motivo é simples: em caso de choque entre dois valores — como foco no resultado e ética — a palavra foco determina claramente qual deles deve preponderar. Cortella sintetiza a questão com um trocadilho interessante. “Quando falamos em foco no resultado ao se tratar de valores, não temos ilusão de ótica, mas sim ilusão de ética.”

Poucas empresas elencam como um de seus valores essenciais o foco em como os resultados são obtidos e a ênfase em avaliar as consequências dos resultados para sua sustentabilidade. Dois casos merecem destaque. A Southwest Airlines, companhia aérea americana conhecida por seu serviço humanizado, é a única de seu setor com lucros em todos os anos desde a década de 1970 (o retorno acionário foi de astronômicos 530% de 2013 a 2018). A Buurtzorg, empresa holandesa de home care fundada em 2007 e hoje detentora de 80% do mercado, escolheu como foco construir relacionamentos de alta qualidade com seus clientes. Um estudo independente confirma o valor dessa escolha, atestando que “o principal fator para o sucesso da Buurtzorg foi se concentrar nos resultados pessoais e clínicos de seus clientes como medida de qualidade2.”

O foco no resultado pode viciar a alta gestão. Ela passa ter uma atitude cada vez mais simplista de análise exclusiva dos números finais, o que tende a tirar o foco das pessoas e da construção de relacionamentos saudáveis com os stakeholders. A ênfase dos conselhos e diretorias deveria ser outra: analisar como as operações vem sendo conduzidas e os resultados são obtidos, a fim de  assegurar o desempenho responsável da organização. Afinal, é apenas isso que se pode controlar.


1Culture corrupts! A qualitative study of organizational culture in corrupt organizations

2Home care by self-governing nursing teams: the Netherlands’ Buurtzorg model


 

Prof. Dr. Alexandre Di Miceli da Silveira é fundador da Direzione Consultoria e autor de Ética Empresarial na Prática: Soluções para a Gestão e Governança no Século XXI. O articulista agradece a Angela Donaggio pelos comentários e sugestões.


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