Nos bastidores dos conselhos

Um novo ângulo sobre a dinâmica dos boards e sua eficácia na condução da governança empresarial

Governança Corporativa / Prateleira / 3 de junho de 2017
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Vivemos a era da pós-inocência. Já aceitamos que a racionalidade humana, um dos pilares do pensamento econômico até tempos recentes, é uma mera ilusão, já que somos bombardeados por vieses cognitivos que alteram nosso julgamento crítico, nosso comportamento e nossas decisões. A partir dessa visão bastante pragmática a respeito da falibilidade do juízo — como indivíduos ou grupos —, somos convidados a examinar a dinâmica de um órgão muito importante e onipresente no mundo empresarial: o conselho de administração (CA).

Em A Caixa-preta da Governança, Sandra Guerra, uma das fundadoras do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), apresenta um ângulo diferente para se observar o funcionamento do CA, iluminando os aspectos comportamentais que afetam sua eficácia. Nesse sentido, o conteúdo é inovador e interessante, pois não se prende ao formalismo do processo de governança — de maneira diversa, se concentra no comportamento dos membros do CA e na dinâmica de suas interações. A despeito da pretensa racionalidade que deveria guiar as decisões desse órgão, rapidamente se percebe que os conselheiros estão sujeitos a agendas individuais e a influências variadas que podem obscurecer seu julgamento.

Tendo vivenciado vários ambientes de CA, como membro ou mesmo presidente do órgão, a autora expõe sua visão com autoridade, sempre apoiada pela experiência internacional na área de governança e por pesquisas acadêmicas que suportam seus argumentos. O resultado é um convite à reflexão sobre os grandes desafios a que o órgão guardião da governança empresarial está sujeito. O texto tem fluidez e leveza, e o formato dos capítulos desperta curiosidade no leitor: inicia com um caso prático, para então discorrer sobre teoria e prática e depois concluir, sob a luz dos ensinamentos.

A primeira parte começa com um breve histórico da governança e compara as estruturas e composição de CA no Brasil e no exterior. Em seguida, enuncia uma série de potenciais desafios comportamentais e seus impactos sobre o funcionamento do CA: comportamento inadequado dos conselheiros, tensões no processo decisório e as questões que tiram o sono dos conselheiros. Na segunda parte do livro, Guerra se dedica a identificar os vieses cognitivos que influenciam o comportamento individual e coletivo dos conselheiros e sugere um roteiro de como é possível administrar e minimizar seus efeitos negativos sobre a eficácia do CA.

O distanciamento entre a propriedade e a gestão é um fenômeno natural das organizações empresariais, ensejando uma série de desafios, que foram verbalizados pela primeira vez no paper acadêmico “Teoria do Agente”, de 1976. A partir daí, o CA consolidou-se como o locus para o exercício do alinhamento de interesses entre executivos e acionistas. Sua característica de órgão colegiado formado por “notáveis”, no entanto, abre espaço para os personagens se sobrepujarem aos atores, e o resultado pode chegar a ser um teatro (ou circo). O livro de Sandra Guerra é um alerta para estarmos atentos aos bastidores, onde muitas vezes é mais importante ler a linguagem corporal e ouvir o que não é falado.


A caixa-preta da governança
Sandra Guerra
Editora: Best Business
374 páginas
1a edição, 2017


*Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente


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Tags:  Governança conselho de administração board prateleira Sandra Guerra Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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