Muito além do futebol

Razões do sucesso do modelo alemão no pós-crise

Governança Corporativa / Governança / Edição 132 / 1 de agosto de 2014
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Não é apenas no futebol que a Alemanha soube se reinventar. Seu ambiente empresarial, frequentemente considerado rígido e obsoleto nas décadas de 1990 e 2000, emergiu com sucesso após a crise financeira de 2008. As companhias locais, exportadoras de produtos de alta tecnologia, têm se mostrado cada vez mais competitivas na arena global. Seu modelo de governança guarda relação direta com o sucesso do país. Ao menos cinco características desse modelo merecem destaque.

1. Empresas orientadas para o equilíbrio dos interesses dos stakeholders. Ao contrário das companhias anglo-saxãs, que se concentram em maximizar o resultado para os acionistas, as congêneres alemãs buscam atender todos os seus públicos de interesse, principalmente os empregados. A chamada Lei da Codeterminação, de 1976, proporciona aos trabalhadores o direito de participar na gestão. Para os defensores dessa regra, o envolvimento dos funcionários nas grandes decisões tem assegurado comprometimento e aceitação de sacrifícios. Após a crise de 2008, por exemplo, muitas empresas conseguiram negociar reduções salariais e menores jornadas de trabalho, em troca da manutenção de empregos.

2. Adoção de uma estrutura de governança com dois conselhos distintos. Há dois órgãos administrativos completamente diversos em sua composição: o conselho de supervisão e o conselho de gestão. O primeiro monitora a gestão, toma decisões-chave e garante a integridade das demonstrações financeiras. Nas empresas abertas com mais de 2 mil funcionários, metade dos membros do órgão de supervisão deve ser composta de representantes de empregados.

O conselho de gestão, por sua vez, é responsável pelas decisões de negócio, e reporta-se ao de supervisão. Ao menos dois aspectos o diferenciam da diretoria executiva de uma companhia brasileira. Enquanto aqui o diretor-presidente possui ascendência sobre os demais diretores, na Alemanha, por lei, as decisões do conselho de gestão são tomadas de forma coletiva. Além disso, ele define o plano estratégico da empresa — uma tarefa que, em nosso modelo, está reservada ao conselho de administração.

3. Peso reduzido do mercado de ações no financiamento das empresas. Os bancos alemães fornecem grande parte do capital de longo prazo e são, inclusive, acionistas relevantes de diversas companhias. O mercado acionário, portanto, é relativamente pequeno quando comparado com o de outras economias avançadas, mas o mercado de crédito é muito desenvolvido.

4. Estrutura acionária das companhias relativamente concentrada. Diferentemente do ambiente de propriedade dispersa observado nos países anglo-saxões, a maioria das companhias germânicas possui acionistas de referência — como famílias, bancos ou mesmo o Estado — que formam uma espécie de bloco de controle.

5. Adoção de horizonte temporal de longo prazo nas decisões empresariais. A manutenção de relações duradouras com funcionários, fornecedores e bancos evita pressão excessiva por resultados imediatos, o que facilita o planejamento e a realização de investimentos de longo prazo. Em setores produtivos e de alta tecnologia, essa característica tende a ser uma vantagem competitiva crucial.

O sucesso das empresas alemãs deixa claro que seu modelo, baseado na cooperação e no comprometimento coletivo, pode proporcionar lições valiosas para países emergentes como o nosso. Isso é ainda mais verdadeiro em tempos de questionamento do paradigma anglo-saxão, sempre considerado o modelo a ser seguido. A lição dada pela Alemanha, portanto, vai muito além do futebol.


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